Artigos, Textos › 10/05/2019

TRISTEZA/ por Dom Mateus

­­TRISTEZA/ por Dom Mateus Salles Osb.

 

“No princípio” não havia tristeza. Não foi Deus quem a criou. Esse sentimento tão desagradável era totalmente desconhecido para o ser humano em seu estado original, paradisíaco. A tristeza entrou no mundo depois da queda dos primórdios, como uma das (tristes) consequências do pecado que desfigurou o universo inteiro e o transformou “neste vale de lágrimas”. Desde então, “com efeito, sabemos que toda a criação, até o presente, está gemendo como que em dores de parto” (Rm 8,22), sem poupar nada nem ninguém. Um dos trágicos efeitos do pecado original foi o decaimento da natureza humana, que a tornou sujeita a numerosas paixões, entre elas a tristeza. Cabe, pois, a pergunta: sendo uma sequela do pecado, a tristeza é necessariamente um vício a ser combatido? Sim e não, pois há uma tristeza de acordo com Deus (e, obviamente, não é uma paixão desordenada) e outra de acordo com o mundo (ou seja, é uma manifestação da natureza corrompida), “pois a tristeza segundo Deus produz o arrependimento e, assim, leva à salvação. E isso ninguém lamentará! Mas a tristeza segundo o mundo produz a morte” (2Cor 6,10).

A tristeza segundo Deus é a compunção, a contrição, a dor que lamenta o mal cometido – exemplo insigne é a tristeza de Pedro, após ter negado três vezes o Senhor: “E saindo dali, chorou amargamente” (Mt 26,75). Foi uma tristeza que levou o Apóstolo à conversão e à sua tríplice declaração de amor, ocasião em que Jesus lhe confiou o pastoreio supremo da Igreja (cf. Jo 21,15-17). A compaixão (“sofrer com”) é igualmente uma forma de tristeza segundo Deus: “chorai com os que choram” (Rm 12,15) – foi esse o sentimento de Jesus diante da dor de uma viúva que sepultava seu filho único: “Ao vê-la, o Senhor encheu-se de compaixão por ela e disse: ‘Não chores!’” (Lc 7,13), e restituiu-lhe o filho vivo.No século IV, a monja Santa Sinclética, célebre Mãe do deserto egípcio, dizia que “a tristeza útil é aquela que nos faz chorar pelos próprios pecados e pela enfermidade do próximo, e faz com que não abandonemos o propósito de atingir a perfeição do bem”[1].

Já a tristeza segundo o mundo brota do orgulho e leva ao desespero – exemplo tristemente famoso é o de Judas, que, olhando só para si – não para Deus – e decepcionado consigo mesmo, foi seu próprio acusador, juiz e carrasco. Por isso “saiu e foi se enforcar” (Mt 27,5). Como adverte João Cassiano, grande monge do século V, essa tristeza “mundana” pode surgir sem causa aparente e levar a um nocivo afastamento dos irmãos: “No entanto, separando-nos deles, não escapamos às causas de tristeza, apenas as trocamos”[2]. Seja como for, como ensina São Francisco de Sales († 1622), trata-se de uma paixão atiçada pelo demônio: “Pode-se dizer que, sendo ele mesmo acabrunhado duma tristeza desesperadora por toda a eternidade, quer que todos os homens sejam tristes como ele”[3]. Conforme o monge Evágrio Pôntico († 399), essa forma de tristeza “é o verme do coração e se nutre da mãe que o gerou”[4]. E, pior, aflige também todo o ambiente circundante, uma vez que induz sua vítima a andar constantemente cabisbaixa, com a “cara amarrada”, disseminando melancolia e contrariedade. Nesse sentido, uma sentença atribuída a São João Crisóstomo († 407) determina: “Se não queres ser triste, não contristes o teu irmão”[5]. Todavia, há sempre o perigo da racionalização enganadora: assim como as demais paixões, a tristeza pretende se autojustificar, iludindo sua presa. O papa São Gregório Magno († 604) explica que os vícios se insinuam na alma com motivos aparentemente “sensatos”, mas levam à loucura. Por isso, afirma ele, “a tristeza costuma exortar quase em nome da razão o coração dominado, dizendo: ‘que gosto provas em engolir tantas coisas da parte do próximo? Deves mostrar a face obscura a todos que te amarguram com tanto fel’”[6]. Tal atitude, contudo, está radicada num egocentrismo malsão, como constata São Josemaría Escrivá († 1975): “Não és feliz, porque ficas ruminando tudo como se sempre fosses tu o centro: é que te dói o estômago, é que te cansas, é que te disseram isto ou aquilo… – Experimentaste pensar nEle e, por Ele, nos outros?”[7].

Mas há ainda uma outra espécie de tristeza, mais comum e “neutra” sob o ponto de vista espiritual, visto que é apenas uma decorrência do estado da natureza humana tal como se encontra neste mundo que passa: é a tristeza causada por um sofrimento agudo, avassalador, tanto físico como psicológico, que desaba duramente sobre uma pessoa: “Ando triste, abatido, encurvado, todo o dia afogado em tristeza” (Sl 37,7). De uma forma ou de outra, com maior ou menor intensidade, durante mais ou menos tempo, cristãos e pagãos, santos e pecadores, ricos e pobres, jovens e velhos, ninguém escapa desse sentimento terrível e opressivo – nem mesmo o Senhor Jesus: “Sinto uma tristeza mortal!” (Mt 26,38). Com efeito, como já notava Tertuliano (importante teólogo norte-africano do século III), Cristo tinha uma humanidade completa e, tendo uma alma, estava sujeito a paixões humanas condizentes com a sua divindade, “sede, fome e lágrimas, o próprio nascimento e a própria morte”[8]. Bem mais tarde, e no Oriente cristão, São João Damasceno († c. 750) ensinou a mesma doutrina: “Nós confessamos que Ele assumiu todas as paixões naturais e irrepreensíveis do homem, pois assumiu o homem todo e tudo o que é dele, exceto o pecado. (…) As paixões naturais e irrepreensíveis são aquelas que não dependem de nós e que, por causa da condenação pela transgressão, entraram na vida humana: a fome, a sede, a fadiga, a dor, as lágrimas, a corrupção, a repugnância da morte, o pavor, a angústia e os suores”[9]. Esse tipo de tristeza, portanto, não depende de nós: ela simplesmente vem. Inspirado pelo Espírito Santo, o Salmista expressa esse amargo sentimento que todos experimentamos em muitos momentos da vida: “Esgotei-me de tanto gemer, banho o leito em meu pranto de noite, minha cama inundei com as lágrimas” (Sl 6,7); “Perdi o sono e passo a noite a suspirar, como a ave solitária no telhado” (Sl 101,8). A própria Virgem Maria teve a sua alma imaculada traspassada por uma espada de dor (cf. Lc 2,35): “De pé a Mãe dolorosa, junto da cruz, lacrimosa, via Jesus que pendia”[10]. Uma oração lancinante sobe então a Deus, que, no entanto, parece não ouvir: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mt 27,46). Para tantas pessoas trata-se mesmo de uma penosa rotina cotidiana, e a prece brota, espontânea: “Tende piedade, ó Senhor, estou sofrendo: os meus olhos se turvaram de tristeza, o meu corpo e minha alma definharam! Minha vida se consome na amargura, e se escoam os meus anos em gemidos! Minhas forças se esgotam na aflição, e até meus ossos, pouco a pouco, se desfazem!” (Sl 30,10-11). A pessoa vê-se inteiramente abandonada, mesmo por aqueles que julgava mais próximos: “Companheiros e amigos se afastam, fogem longe das minhas feridas; meus parentes mantêm-se à distância” (Sl 37,12). Quem pode dizer que nunca teve a sensação de ter sido largado à própria sorte? “Se me volto à direita e procuro, não encontro quem cuide de mim, e não tenho aonde fugir; não importa a ninguém minha vida!” (Sl 141,5).

A perda de um ente querido, a saudade, desilusões afetivas, dolorosas doenças físicas ou psíquicas, incompreensões, perseguições, fracassos, traições, problemas financeiros, decepções de todo tipo, temperamento difícil, pecados recorrentes, frustrações – muitas são as causas de desânimo e prostração, às quais mesmo os mais fortes por vezes sucumbem e perdem a vontade de viver. Não faltam exemplos notórios: quase novecentos anos antes de Cristo, perseguido e sozinho em sua luta contra a idolatria, o destemido e austero profeta Elias deprimiu-se e desejou morrer: “Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais” (1Rs 19,4). Também o profeta Jonas: “Então, Senhor, tira a minha vida, pois eu acho melhor morrer do que viver” (Jn 4,3). O justo Jó, em sua horrível aflição, desejou nunca ter nascido: “Por que não morri no ventre materno, ou não expirei logo ao sair das entranhas?” (Jó 3,11). O profeta Jeremias exprimiu-se de modo ainda mais extremado, praguejando contra o próprio nascimento: “Maldito o dia em que fui gerado! Jamais seja abençoado o dia em que a mãe me deu à luz” (Jr 20,14). O piedoso rei Ezequias, mortalmente doente, “virou-se para a parede”, orou a Deus “e chorou convulsivamente” (Is 38,2.3). Cedo ou tarde, com mais ou menos frequência, ninguém é poupado das garras cruéis da tristeza. São Jerônimo († 420), um santo extraordinariamente robusto e aguerrido, entrou em depressão profunda quando, em 404, morreu Santa Paula, sua querida amiga, discípula e benfeitora. Ficou de tal modo desanimado que sua saúde se abalou e não conseguia mais trabalhar. É o que ele próprio reconheceu ao enviar um trabalho de tradução ao bispo Teófilo de Alexandria: “A morte da santa e venerável Paula prostrou-me de tal maneira que, afora esta tradução, não escrevi uma só linha sobre argumentos teológicos. De fato, sabes que, repentinamente, veio-me a faltar aquela que era o meu conforto”[11]. Anos depois, em 410, quando Roma foi saqueada pelo rei visigodo Alarico, alguns de seus melhores amigos estavam entre as vítimas que foram massacradas na cidade, incluindo a nobre e culta Santa Marcela, que morreu por conta das torturas às quais foi submetida. Ao lhe chegar essa notícia, Jerônimo (que morava em Belém) protelou por dois anos o elogio fúnebre de sua amada discípula porque, como escreveu, esse “era o tempo das lágrimas”[12]. Em outra carta justificou essa demora: “Não foi por negligência, como pensas erradamente, mas por uma tristeza inacreditável que me oprimia o espírito, de modo que, naquelas condições, julguei melhor me calar que compor um elogio que não fosse digno dela”[13]. A Palavra divina atesta que o luto é uma tristeza legítima. Em cena tocante, o grande rei Davi pranteou em alta voz, diante de todos, o seu filho rebelde: “Meu filho Absalão! Meu filho, meu filho Absalão! Por que não morri eu em teu lugar? Absalão, meu filho, meu filho!” (2Sm 19,1). O próprio Senhor Jesus se entristeceu com a perda do amigo Lázaro, mesmo sabendo que em seguida iria restituir-lhe a vida: “Jesus chorou” (Jo 11,35). Como também chorou ao antever o trágico destino de Jerusalém: “Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, começou a chorar” (Lc 19,41).

Por conseguinte, a tristeza causada por um intenso sofrimento (o próprio ou o dos outros) é um sentimento humano normal e até sadio, e pode – ou mesmo deve – ser expresso livremente diante de Deus e dos homens: “Chegue a minha oração até a vossa presença, inclinai vosso ouvido ao meu triste clamor” (Sl 87,3). Na verdade, a solidariedade e a compaixão devidas a qualquer criatura viva que está sofrendo, mesmo que seja um animal irracional, impedem a eliminação total da tristeza na vida de um cristão consciente. Apesar disso, máxime em uma comunidade cristã, ninguém deveria sofrer sozinho – a Sagrada Escritura ordena: “Não deixes de consolar os que choram, aflige-te com os que estão aflitos” (Eclo 7,34[38]). No corpo da Igreja, “se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele” (1Cor 12,26). São Josemaría Escrivá exorta ainda: “Propósito sincero: tornar amável e fácil o caminho aos outros, que já bastantes amarguras traz a vida consigo”[14]. Dito isto, porém, é preciso muita atenção para evitar que essa justa tristeza não degenere, bem disfarçada, em “tristeza segundo o mundo”, mórbida e irracional. Convém lembrar também que a medicina moderna é capaz de detectar eventuais causas neurológicas ou psicológicas para a tristeza instalada e persistente – a depressão –, uma doença que inclusive pode ter raízes genéticas. Tratada com medicamentos, é possível ser atenuada e, quem sabe, até curada. Neste caso, o paciente deve ter a humildade de aceitar sua condição e submeter-se ao tratamento. O próprio São Jerônimo, a seu modo e com seu jeito um pouco brusco, já constatava esse tipo de tristeza e recomendava cuidados médicos a tais melancólicos crônicos, mais do que orientações espirituais: “Eles têm necessidade dos remédios de Hipócrates mais do que de nossos conselhos”[15].

Embora ocasionalmente seja inevitável, a tristeza não deve ser cultivada – ao contrário: a autocomiseração é uma forma de “tristeza segundo o mundo”. Assim, “para escapar da tristeza, é muito importante não lhe dar boa acolhida”, escreveu São João Crisóstomo a um amigo monge devastado pelo sofrimento e que acalentava ideias suicidas[16]. Nosso Pai São Bento deseja que “ninguém se perturbe nem se entristeça na casa de Deus”[17]. É preciso, pois, empregar com perseverança os meios apropriados de cura, mesmo que exijam grande esforço e pareçam ineficazes – essa é uma sábia orientação de São Francisco de Sales: “Combate animosamente qualquer inclinação que tenhas para a tristeza e, embora te pareça que combates fria e negligentemente, não o deixes de fazer; porque o inimigo, que nos quer dar essa indiferença e tibieza para as boas obras, cessará de nos afligir, vendo que, sendo elas feitas com repugnância, têm tanto maior valor”[18]. O primeiro desses meios de cura é a oração: “Alguém entre vós está sofrendo? Recorra à oração” (Tg 5,13). É precisamente o que ensinava São Nilo, monge do século V: “A oração é defesa contra a tristeza e a angústia”[19]. Depois, a união com Jesus crucificado, que fortalece a paciência e dá um sentido ao sofrimento: “Alegrai-vos por participar dos sofrimentos de Cristo, para que possais exultar de alegria quando se revelar a sua glória” (1Pd 4,13); “Se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, se, de fato, sofremos com Ele, para sermos também glorificados com Ele” (Rm 8,17). É essa união com Cristo que produz na alma a alegria pascal experimentada pelos discípulos de Emaús, que, estando antes com o “rosto triste”, passaram a sentir o coração arder enquanto caminhavam com o Senhor ressuscitado (cf. Lc 24,1-35). “Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos” (Sl 117,24): a ressurreição de Cristo tudo mudou num mundo que estava inexoravelmente condenado a uma tristeza sem fim. É a razão da bem-aventurança garantida por Jesus: “Felizes os que choram, porque serão consolados” (Mt 5,4). Portanto, outro remédio é a virtude da esperança, com a certeza de que nossa história atual é inacabada e, por fim, desembocará na eternidade feliz: “Eu penso que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser revelada em nós” (Rm 8,18). Estamos nesta terra de passagem, pois “somos cidadãos do céu” (Fl 3,20), onde não existe tristeza alguma, por ter sido completamente eliminada pelo Cristo glorioso: “Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas anteriores passaram” (Ap 21,4). Podemos, então, mesmo em meio às piores tribulações, orar com toda confiança: “Ó minh’alma, retorna à tua paz, o Senhor é quem cuida de ti” (Sl 114,7). Assim, cheios de fé, nós, “degredados filhos de Eva”, imploramos a maternal proteção da Rainha do Céu, a “Consoladora dos Aflitos”, para que “depois deste desterro” nos mostre Jesus, seu Filho adorável e nosso Redentor.

[1] Apoftegmas, Série alfabética, Sinclética 28.

[2] Instituições 9,7.

[3] Filoteia, ou Introdução à vida devota 4,12 (tradução de Frei José P. de Castro, OFM).

[4] Sobre os diversos pensamentos da maldade 13.

[5] Detti editi e inediti dei Padri del Deserto, Qiqajon, Magnano, 2002, p. 200.

[6] Moralia in Job 31,90.

[7] Sulco 74 (tradução de Emérico da Gama).

[8] Contra Práxeas 16.

[9] Sobre a fé ortodoxa 3,20.

[10] Sequência da Missa de Nossa Senhora das Dores.

[11] Carta 99,2.

[12] Carta 126,2.

[13] Carta 127,1.

[14] Op. cit. 63.

[15] Carta 125,16. Hipócrates († 377 a.C.) foi um renomado médico grego, considerado o “pai da medicina”.

[16] Exortações a Estagiro 3,14.

[17] Regra de São Bento 31,19.

[18] Op. cit., idem.

[19] Apoftegmas, Série alfabética, Nilo 3.