Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria/ Dom Abade Andre Martins

 

 

 

        

Caríssimos Irmãos e Irmãs:

Hoje celebramos a Imaculada Conceição da Virgem Maria, solenemente já celebrada nas I Vésperas, que nos fizeram constatar a insistência dos textos litúrgicos sobre a beleza da Santa Mãe de Deus. “Toda bela és Maria”, antífona que ontem cantamos; bela porque plena de graça.

Também no Evangelho, há pouco proclamado, nós escutamos a saudação do Arcanjo: “Ave, cheia de graça!”

Queridos irmãos, o que tornou bela a Virgem foi a presença da graça que a fez possessa de Deus. Beleza que transcende a estética física, revelando a pureza de todo o seu ser. Beleza que confirmou a nova criação, isto é, homem e mulher feitos para o paraíso. Beleza, que refletia como num espelho uma centelha da beleza divina.

A graça fez em Maria maravilhas, como ela própria cantou no Magnificat. Porém, não a fez sobre-humana, nem deusa, mas pura e plenamente humana.

Bela porque teve um coração dilatado, qual “Arca da Aliança” – um de seus títulos – para guardar a Palavra. Bela porque seu pensar, querer e agir foram adequados à vontade de Deus; por isso evocada de “Sede da Sabedoria”, “Mãe Admirável”, “Mãe do Bom Conselho”, “Virgem Prudentíssima”.

Bela, ainda, porque seu seio conteve Aquele que os céus não podem conter. Seu ventre foi a “Casa de Ouro” que hospedou o próprio Deus.

Temos ciência de que em culturas de todos os tempos e lugares o ser humano busca a beleza para bem viver. Criados por Deus, não fomos feitos para subsistir na feiúra. Desejando alcançar a Deus, o homem procura incansavelmente promover o belo, inventá-lo; dele, nele e para ele viver. Aliás, a expressão do belo através da arte faz parte da cultura universal. Poderíamos inclusive afirmar que buscar o belo é humanizar-se e humanizar-se leva-nos à busca a Deus.

Na plenitude dos tempos, Deus criou a Nova Eva, qual esplendor da beleza que jamais houve ou haverá, porque somente ela foi cheia de graça.

A Sagrada Escritura utiliza a imagem do artista que modela a argila. O oleiro precisa do barro e da água. O Divino Artífice plasmou Maria da mesma argila que fomos feitos, mas exclusivamente com a água da graça. Assim nasceu Maria bela como a Lua, brilhante como o Sol.

O Evangelho narrado por São Lucas no capítulo 2, versículo 19 diz: “Maria guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração”. Seu belo semblante refulgia misteriosamente os segredos do seu coração.

O ser humano – se me permitem – revela em seu o rosto os segredos que traz no profundo de seu ser. Sua beleza está determinada pelo o que guarda e o como guarda no coração os seus segredos.

Em pecado minha mãe me concebeu” (Salmo 50), canta o salmista. Mas pela Igreja, esposa do Cristo e nossa mãe comum, todos nós fomos regenerados na beleza, “pois planejara (Deus) em seu Filho, na plenitude dos tempos, restaurar todas as coisas do céu e da terra em Cristo.  (Ef 19-10) Por vocação somos chamados a manter e fazer dar frutos a beleza que recebemos, pois pelo batismo fomos restaurados pela graça.

Como Maria, deixemos a graça atuar sem obstáculos para viver o que absolutamente nada se iguala neste mundo por sua inenarrável beleza, que é a prática do amor, “porque Deus é amor”.

O homem tem os traços do rosto pelos segredos que têm. Não os escolhemos, não conseguiremos pulverizá-los nem olvidá-los, mas podemos e devemos deixá-los envoltos pela misericórdia de Deus, pois a própria Virgem nos diz “Sua misericórdia há de estender-se, por toda geração, sobre os que o temem” Lc.1,50)

Restaurados em Cristo, caros irmãos, temos a força para guardar nossos segredos envoltos na misericórdia divina e não nos preocupemos com tudo aquilo que simula a real beleza e que o mundo propõe como veículo para a felicidade. A beleza do cristão se mantém e se aperfeiçoa com outros tratamentos, dietas e academias. Teremos o rosto belo e iluminado se frequentarmos assiduamente a academia na qual fomos inscritos e por direito podemos e devemos usufruir: a Igreja.

Nela, pelos sacramentos, vamos robustecendo nossos músculos do espírito e assim cada vez mais próximos do que somos pelo sacramento do batismo “santos e puros no amor”  saberemos guardar e conviver com nossos segredos, nossa história, nossos sonhos, enfim, nosso mais puro anseio de nos expormos sempre mais ao Sol que queima nossa face, como a Amada do Cântico dos Cânticos e que gera energia para guardar nossos segredos envoltos na misericórdia divina e termos o verdadeiro rosto que Deus eternamente pensou para cada um de nós, de uma beleza singular. Então, seremos belos porque seremos o que essencialmente somos.

Que a Virgem Santa interceda por nós.

Amém.