Sobre o Volitivo

por Ir. Daniel Sousa, OSB.

“Não a minha vontade, mas a tua seja feita!” (Lc 22, 42)

Compreendemos por vontade uma das principais forças do ser humano, é como que uma energia da alma que nos impele ao querer, nos incita a fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Frequentemente é associado ao “capricho” ou ao “bel-prazer” por ter esse aspecto pessoal, revelando nosso ser mais íntimo. No campo da psicologia a vontade expressa a concepção hierárquica de valores, ou seja, o individuo sempre deliberará por aquilo que compreende como salutar, justo, nobre, agradável. A vontade é uma atitude natural, fundamental, pois a capacidade de tomar livremente uma decisão é necessária a todos os momentos da vida, do levanta-se ao deitar-se.

Em qualquer âmbito de nossa vida o uso da vontade está presente; não somente em seu sentido inconsciente, mas em seu caráter refletido. Como por exemplo, um jovem que anseia por determinado curso numa faculdade; enquanto no ginásio, antes do término de seus estudos, usa do juízo para discernir entre os cursos qual corresponderá às suas aptidões. Após esse processo prepara-se para o ingresso, dedicando-se especificamente aos meios necessários à aprovação. Quer dizer que envolve toda uma arte que passa pela adoção de uma linha de ação, seguida da busca pelos elementos a alcançá-lo.

Todo o plano salvífico de Deus, desenvolvido na economia da salvação, revelam um só desígnio: “que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 3-4). Essa é a vontade do Pai! Quando, no Pai nosso, pedimos “seja feita a vossa Vontade” exprimimos nosso desejo de conformar nossa vontade a vontade de Deus, tendo como exemplo o próprio Cristo, que despojado da própria vontade e conformando-se perfeitamente ao Pai, pôde afirmar: “faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8, 29).

O desejo de conformar nossa vontade humana à vontade divina de Deus Pai é o anseio que impele muitos ao seguimento de Cristo. É comum encontrar nos jovens a expressão: “fazer a vontade de Deus”. Mas o que significa isso? Quais são as implicações desta decisão em minha vida prática? É o que desenvolveremos neste artigo.

Os pais do monaquismo, nos primeiros séculos, também verificavam a experiência da vontade naqueles que buscavam a vida no deserto. O abade José de Panefo, dando uma palavra de sabedoria a um desses discípulos, dizia: “Não podes te tornar monge, se não te tornares todo ardente como fogo”. Note-se que o abade quer dizer com essas palavras que para uma legítima vivência monástica, é necessário uma disposição interior, que poderíamos caracterizar como entusiasmo, capaz de suportar os sacrifícios próprios de um monge asceta. Por isso o uso da imagem do fogo, que faz alusão ao aspecto intenso da vontade, que faz abrasar todo o ser interior. É necessário considerar que esse indivíduo, inflamado por um intenso desejo, pela ardente vontade de militar sob o Cristo Senhor, suportará com mais firmeza o lado desafiador da vida monástica em relação a um jovem que não desenvolveu a dimensão volitiva.

A palavra “voluntatem” aparece em vários capítulos da regra de São Bento. Quando escreve sobre os instrumentos das boas obras, recomenda: “Odiar a própria vontade” (R.B. 4, 60), e mais adiante: “renunciando a própria vontade” (R.B. 5, 7). São Bento, de modo algum, quer dizer que devemos ser inertes, languidos, sem vontade; pois isso seria aniquilar um mecanismo congênito ao ser humano. Renunciar a vontade, na linguagem de São Bento, significa abnegar-se. Nas palavras de Jesus: “Renegue-se a si mesmo”. Pois enquanto minha vontade estiver girando em torno do “eu”, tudo o que vier a realizar será sempre injusto ou infértil. A vontade perfeita, se assim podemos classificá-la, é aquela que parte de um “nós”. Trata-se de entrar no processo de renúncia àquilo que diz respeito ao aspecto subjetivo e carnal para transforma-los em disposições do Espírito, gerando frutos de altruísmo.

“A realização de todo e qualquer bem emana da graça Daquele que, em sua infinita liberalidade, concede a perenidade da bem-aventurança e a imensidade da glória à nossa vontade débil e ao fraco e efêmero transcurso de nossa vida.” (J. Cassiano, Livro 12°, Cap. 11).

Um exemplo corriqueiro: A experiência da contrariedade. Parece ser uma catástrofe mundial, uma decepção tamanha que nos aborrece e faz-nos jogar ao vento todas as páginas já escritas do livro de nossa vida, faz-nos abandonar tudo. Então, estou sempre a reescrevê-lo, como um verdadeiro andarilho. Como não deu certo aqui, vou pulando de galho em galho até que ache o lugar perfeito, onde não haverá dificuldades e tudo ocorrerá segundo meu desejo, conforme minha vontade – Verdadeira ilusão. Quando, na verdade, sermos contrariados nos mostra que nem sempre nossas opiniões são as melhores e que as coisas, não necessariamente, devem acontecer como desejamos; tudo pode acontecer de outra forma, ainda melhor. Portanto, urge educar a vontade! Parece soar estranho este apelo, já que estamos habituados a sempre buscar nossos interesses e satisfazer nossas vontades. Aliás, tudo hoje é pensado em vista da praticidade, justamente para atender aos nossos anseios com mais facilidade.

Além da contrariedade, o que causa tanta dificuldade em responder ao chamado de Deus? Porque uma pessoa dotada de aptidões para determinada careira parece não conseguir? Porque tanta pusilanimidade nos jovens? Porque tanta indecisão, saliente falta de compromisso, desistências? Porque é muito mais cômodo viver na mediocridade. É muito melhor ser um cemitério de sonhos, a correr os riscos que nossos objetivos nos impõem. É mais aprazível viver abatido na segurança e no conforto, a arriscar o vigor numa possibilidade incerta.

Para testemunhar o Cristo em meio a uma inescrupulosa tibieza, nossa vontade deverá ser repleta de convicção, próprio de quem está alicerçado no Cristo. A audácia dos retos deve ser superior à eloquência dos corruptos. Quem atua no time de Cristo deve empenhar-se em desclassificar o clube dos ímpios. Conseguiremos tudo isso na incerteza? Venceremos a partida habitando junto à indigência?

A experiência nos ensina que para concretizarmos a vontade de Deus em nossa vida é necessário um pouco mais do que a perseverança. Ela é necessária enquanto um meio, significando fazer sempre. Mas necessito da assistência do Espírito Santo para alcançar outro dom: Sabedoria. Se a perseverança andar sozinha chega-se, inevitavelmente, ao momento em que indago a motivação para tal atitude. Trata-se da pergunta básica: Por que fazer? Aí a sabedoria entra em ação, respondendo ao questionamento que abrolha da perseverança. Tendo a motivação e a ação, deixo a debilidade de lado, transformo o idealismo no sólido e a Graça traz aos poucos as armas para combater as causas.

De fato, vontade é uma ferramenta por natureza inclinada à concupiscência, mas precisamos educá-la. Lembrar-se constantemente do ideal, conflitar-se com o velho homem, manter os olhos fixos em Jesus, e, assim, robustecer nosso interior. Neste processo a paciência deve nos amparar nos momentos adversos, pois é inexequível uma ascese interior sem uma pedagogia, que pode se desenvolver durante toda a vida, entre quedas e realizações. Se a vontade própria tomar lugar indevido, que não venha a entristecer-se, mas, com o auxílio da Graça, continue trilhando este caminho desafiador que nos elevará a estatura do Cristo. “É Deus que realiza em nós tanto o querer como o fazer” (Fl 2,13). É o próprio Deus que se move dentro de nós, que nos envolve de entusiasmo e que nos dá fidedigna motivação, mas é necessário tempo e luta para obter essa conclusão.


Daniel Sousa, OSB.