Artigos, Monastica, Quaresma, Textos › 25/03/2020

RESSUSCITOU AO TERCEIRO DIA.

“RESSUSCITOU AO TERCEIRO DIA, CONFORME AS ESCRITURAS” /Dom Mateus Salles Osb.

Há alguns anos um padre holandês pregou um retiro para a nossa comunidade e em uma das conferências contou-nos uma experiência pessoal. Certa vez ele foi à Holanda visitar sua mãe, já bastante idosa. Em dado momento, ela lhe perguntou: “Você acredita na ressurreição?” Ele respondeu: “Acredito”. A senhora então ficou pensativa durante alguns instantes e depois lhe disse: “Acho que você é um pouco conservador…”. Deixando de lado o aspecto divertido, essa pequena história nos leva a refletir sobre a situação da sociedade ocidental, cada vez mais relativista e cética, e seu influxo sobre os cristãos.

Desde o século XIV, com o chamado “humanismo”, a cultura ocidental vem empreendendo um movimento de emancipação do homem em relação a Deus. No século XVIII, os autodenominados “iluministas” acentuaram essa tendência, assumindo, além disso, uma posição filosófica racionalista e abertamente anticristã – especialmente anticatólica. Ao contrário do que tantas vezes se propaga, é preciso ressaltar que tal movimento de emancipação não tinha nem tem hoje a intenção de ser apenas uma louvável valorização da dignidade humana, da racionalidade, do desenvolvimento técnico, científico e cultural, mas, sim, a de estabelecer em todas as esferas da sociedade uma sempre mais explícita antropolatria, a adoração do homem em lugar de Deus.

Desde a Segunda Guerra Mundial, e especialmente a partir da década de 60 do século XX, esse processo de secularismo vem se acelerando, principalmente na Europa, mas, em sua esteira, também em todos os países ocidentais. A própria Igreja, inserida neste turbilhão revolucionário, não deixou de sofrer sua nociva influência. Por conta disso, alguns, erradamente, quiseram culpar o Concílio Vaticano II pela séria crise que ela vem enfrentando há tantas décadas, incluindo a perda de milhões de fiéis. Ora, o Concílio foi convocado justamente para que a Igreja pudesse assumir uma atitude à altura dos graves desafios dos novos tempos. Aparentemente dando razão aos críticos do Concílio, a mentalidade mundana dominante contaminou muitos eclesiásticos e leigos engajados, levando-os a posturas teóricas e práticas inteiramente contrárias ao verdadeiro espírito conciliar. Por outro lado, mesmo sem o Concílio esse impacto ocorreria de qualquer maneira (até porque já estava ocorrendo), provavelmente de modo ainda mais devastador. Prova disso é que muitos dos “neoconservadores”, tão nostálgicos e rígidos em questões litúrgicas (refiro-me àqueles que nasceram depois do Concílio), não raramente são bem mais “liberais” no campo dogmático ou moral.

O Concílio desejou uma renovação da Igreja, não uma nova Igreja, e a única forma autêntica de renovação (tornar novo novamente) é aquela efetuada mediante um retorno às fontes, notadamente às fontes da fé e seu núcleo essencial: o mistério pascal. Nunca é demais lembrar: o cristianismo não é uma moral, uma filosofia de vida, um conjunto de normas de boa convivência, mas é fato. Ser cristão é acreditar em acontecimentos históricos, dos quais o próprio Deus é um personagem atuante, entrelaçando Sua ação com a dos homens. E o fato central do cristianismo – sem o qual ele não existe – é a grande novidade da ressurreição de Jesus, que confirma todos os outros fatos operados por Deus na história, desde o Antigo Testamento até Pentecostes, a fundação da Igreja e as promessas de fatos que ainda estão por vir (a Parusia – segunda vinda de Jesus – e o Julgamento Final). Toda a moral cristã, e muito mais, todos os demais artigos de fé, toda a liturgia, toda a ação pastoral e missionária, toda a mística, são uma decorrência deste evento fundamental: Jesus Cristo ressuscitou! Se Jesus não tivesse ressuscitado, seria um mentiroso, pois Ele havia anunciado antecipadamente Sua ressurreição (e como crer em um mentiroso?). As consequências seriam trágicas: Se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé: ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se temos esperança em Cristo tão somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens (1Cor 15,16-19). Até mesmo qualquer esforço moral seria inútil e sem sentido. O melhor seria aproveitar esta vida passageira o mais intensamente possível, pouco importando os compromissos com o próximo e o amor fraterno: se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos (1Cor 15,32).

Dito isso, não há como evitar uma conclusão que se impõe: o cristão, o católico, é, sim, um conservador – e não só “um pouco”, como dizia a senhora holandesa a respeito de seu filho, mas um conservador empedernido, inflexível. Entendamos, porém: tal conservadorismo se refere ao conteúdo da , da fé integral que recebeu da Igreja, não necessariamente a outras dimensões da vida social e, certamente, não no sentido de oposição ao progresso técnico e científico (desde que tudo isso não atente contra a moral natural e as exigências éticas decorrentes da fé). Do mesmo modo, obviamente, esse conservadorismo não tem nada a ver com alguma conivência com a injustiça social. O católico é conservador naquilo que lhe ordena a Escritura: “Permaneçamos firmes na profissão de fé” (Hb 4,14).

Cristo ressuscitou! Não, não se trata de um conto da carochinha: é necessário realçar que há uma razão para crermos nesse grande anúncio pascal, pois ele está alicerçado em testemunhas oculares, muitas das quais derramaram o próprio sangue para sustentá-lo, bem como, também, em numerosos sinais divinos realizados ao longo da história. Esse anúncio vem sendo proclamado fielmente pela Igreja há quase dois mil anos, e é mediante a Igreja que o conhecemos e acolhemos. Não se pode separar a fé no Cristo Ressuscitado da fé na Sua Igreja. Cremos em Cristo porque cremos na Igreja e em seu Magistério – o que não torna a vida fácil. Ao contrário: o próprio Jesus não prometeu aplausos para os Seus discípulos, mas ferrenha perseguição.

O Povo de Deus é o depositário e o mensageiro profético da alegria pascal, maravilhosa e única, mas corre o risco de se corromper espiritualmente pela mentalidade neopagã que domina sempre mais a sociedade, pois “o mundo inteiro está sob o poder do Maligno” (1Jo 5,19). Todos os católicos conscientes têm a missão de rezar e trabalhar pela conversão dos descrentes, para que todos, no final da vida, possamos repetir serena e fervorosamente com o Apóstolo Paulo: “Combati o bom combate, terminei minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7).