Renúncia dos Bens dos Irmãos

Renúncia dos Bens dos Irmãos

Mauro e Jerônimo

28 de agosto de 2019

            Caríssimos Irmãos:

            Como é nosso costume, os Irmãos Mauro e Jerônimo farão a Renúncia de seus Bens em comunidade e depois a reconhecerão em cartório.

            Temos mantido tal gesto já há muitos anos. Descobrimos que é preciso um rito, sempre que possível, para tornar maior a responsabilidade da comunidade em sua busca contínua para ser uma célula vital na Igreja. Portanto, quando nossos irmãos estão para professar solenemente, temos, nós outros, a oportunidade de renovar os compromissos que fizemos quando ingressamos e que, após o tempo de formação inicial, publicamente manifestamos e assumimos.

            São Bento em sua Regra não tem um capítulo explícito sobre a pobreza monástica ou sobre a renúncia dos bens. Porém, dois capítulos (33 e 34) tratam dessa realidade fundamental para o monge

            No capítulo 33 –  “Proibição da propriedade privada’ – trata da famosa “ desapropriação” , que tem sua fonte em Cassiano (Inst.7, e 4) O capítulo Sétimo das Instituições discorre sobre o vício da avareza e o Quarto da renúncia ao mundo. Neste tratado temos o famoso discurso do Abade Pinúfio sobre a expropriação em Cristo, base para o Cap. 58 da Santa Regra.

            São Bento fiel à Tradição dos Maiores responderá categoricamente o “não” à propriedade privada no Mosteiro. É um vício que deverá ser cortado pela raiz. Trata-se do vício da avareza que destroi qualquer possibilidade de vida comunitária e fraterna. Tal visão provém sobretudo de Cassiano (Inst. 4, 7 e Col 16).

            Para os antigos monges, a fraternidade – a famosa koinonia – não se fundamentava nas relações interpessoais. Esta é conseqüência do tudo em comum. Tudo em comum que tem o seu ideal na comunidade primitiva de Jerusalém (At 2, 42-45)

            A condenação da propriedade privada é um dos temas mais frequentes nas Regras Cenobíticas. E isso é óbvio. Sem pôr em comum o que os irmãos possuem, não é possível constituir uma comunidade. O colocar em comum os bens não se restringe apenas aos materiais. Os talentos a serviço da comunidade são fundamentais se postos em comum. Não basta ter pouca coisa e enterrar os talentos recebidos.

            A expropriação monástica para São Bento é a dependência do Pai do Mosteiro. Isto é, o mosteiro deverá prover as reais necessidades dos monges.

            O capítulo 34 – “A distribuição do necessário’ – completa o antecedente. Não se trata, pois, de nada possuir. Possuímos muitas coisas para poder viver e servir ao Senhor. É preciso sobriedade no possuir bens; apenas o necessário. Este, uma vez mais, tem sua inspiração nos Atos dos Apóstolos (4,35). O texto da S.E. é o critério moderador do texto da Santa Regra.

            A distribuição, porém, não é matemática. O critério do Evangelho é bem outro. No mosteiro há fortes e fracos. Portanto, “quem precisa de menos dê graças a Deus e não se entristeça. Quem precisar de mais, humilhe-se em sua fraqueza e não se orgulhe por causa da misericórdia que obteve.” Apenas com esse critério haverá paz entre os irmãos.

            Tarefa árdua e difícil essa, a de distribuir o necessário.

            O que é necessário realmente? O que precisamos, podemos achar necessário? Porém, poderá ser apenas preenchimento de um vazio que pertence a Deus em nossas vidas. O que é “necessário para nós” poderá reforçar nosso egocentrismo. Com certeza, caros irmãos, o necessário para cada um de nós é diminuirmos as nossas falsas necessidades.

            Por incrível que pareça, o monge livre depende do mosteiro para viver. É sempre livre para pedir e ouvir a resposta que não desejaria. É livre para recusar todo artifício de possuir sem depender do mosteiro. É livre, igualmente, para utilizar bens que lhe são instrumentos de trabalho. Nada mais preocupante e ocupante para um monge do que simular uma pobreza de bens em comunidade.

            A Igreja em sua sabedoria nos faz cantar como antífona do Benedictus nas festas dos Santos Monges a palavra de Jesus “Vós que abandonastes tudo e me seguiste, recebereis o cêntuplo e possuireis a vida eterna. “

            Aos irmãos Mauro e Jerônimo desejamos sempre o cêntuplo do que honestamente aspiramos. Assim como Eliseu pediu o cêntuplo a Elias e o recebeu, assim peçamos ao Senhor, autor de toda vocação, que lhes conceda o cêntuplo de tudo o que um monge muito provavelmente deseja: verdadeira liberdade diante das coisas e a alegria no serviço do Senhor.

            Deus nos abençoe a todos!