Artigos, Monastica, Notícias, Textos › 31/07/2020

Renúncia dos Bens de Ir. Daniel.por D.Abade Andre Martins. Osb.

Renúncia dos Bens de Ir. Daniel

14 de julho de 2020.

            Queridos irmãos:

            Quando um monge é admitido para a Profissão Solene, fazemos este Rito, no qual o candidato deve apresentar sua Renúncia de Bens e depois registrá-la em cartório. Há comunidades que nem o fazem, pois, implicitamente, o monge ao proferir os votos solenes já renuncia os seus bens.

            Um rito na Igreja, por simples que seja, nos remete para uma dimensão sempre sobrenatural. Exatamente porque Ela não é uma mera organização humana, é o “admirável sacramento do Cristo”. Logo, este Rito que realizamos quer significar que o monge, ao renunciar seus bens diante de Deus e de sua comunidade, dá inicio ao seu processo de inserção definitiva na comunidade onde professará; o lugar de seu repouso, conforme o salmo 131. “Eis o lugar do meu repouso para sempre, eu fico aqui: este é o lugar que preferi.”  

            Quando o monge o realiza, se predispõe a fazer parte de uma comunidade real. E pertencê-la efetivamente significa viver de acordo com as condições que ela lhe oferece.

            Com a renúncia dos bens, o monge usa das coisas do mosteiro com sobriedade, com diligência, sabendo que tudo é de todos. Usa das coisas do mosteiro como “vasos sagrados do altar”.[1]

            Mas, caros irmãos, entre o ideal e o real há uma distância, que na Escola do Serviço do Senhor, devemos constantemente diminuir. É o que  chama S. Bento de “progresso da vida monástica e da fé.” [2] Sem o progresso da vida monástica, isto é, da vivência fiel às observâncias do mosteiro e da fé em Jesus Cristo não será possível o monge viver honestamente sua renúncia. Sem o progresso da vida monástica e da fé, poderá camuflá-la e mesmo esvaziá-la de seu significado.

            Quando o progresso da vida monástica e da fé não acontece na vida do monge, a renúncia dos bens realizada torna-se de fato uma acomodação, um ninho seguro para sobreviver.

            Renúncia dos bens, significa trabalho, que é muito diferente de ocupação. Significa interesse pelo econômico da comunidade. Significa suportar cargos, nem sempre agradáveis, para que os demais tenham o necessário e não murmurem.

            Algumas vezes ouço dizer que não entramos no mosteiro para trabalhar. Entramos sim! Para nossos pais, a celebração da liturgia é um trabalho “Opus Dei”, que exige perseverança, esforço, concentração, interesse. A obediência é um trabalho. “O labor da obediência” , do cap. V da S. Regra. A ascese também é um trabalho, conforme a Tradição dos monges. E, também, o trabalho de sustento e de serviço fraterno.

            Renunciar aos bens é igualmente não estragar, não desperdiçar, não jogar fora tudo aquilo que ainda tem utilidade. Significa não roubar o tempo do trabalho pessoal e dos outros com necessidades supérfluas e conversas fúteis.

            Quem renuncia seus bens na vida monástica, qual pedagogia recebida de nossos pais, renuncia-os não apenas para  uma inserção definitiva numa comunidade real, mas sobretudo para buscar e adquirir seu único e verdadeiro bem que é Jesus Cristo. “Onde está o seu tesouro, aí está seu coração.” [3] Se assim não for, o monge “mente pela tonsura”. Criará necessidades para preencher vazios que o machuca e que os leva a uma tristeza de viver.

            Caro Ir. Daniel, que este Rito da renúncia de seus bens não seja apenas momentâneo, mas que dê frutos de serviço aos irmãos, de partilha dos bens materiais e espirituais adquiridos, de tempo para acolher o outro, de liberdade para estar com o Amado que nos pôs nessa vinha para dela cuidar sem nos oferecer um  chapéu, um sombreiro um protetor solar. Não tenha medo de escurecer sua pele, como a amada do Cãntico dos cânticos, pois a beleza de quem ama o Cristo é ter o rosto e o corpo enegrecidos pelo Sol da justiça e poder, sem preconceitos, emprestar as palavras de nossa sempre e queridaamiga, fonte de paz interior: “sou morena mas formosa, filhas de Jerusalém.”

            Deus nos abençoe a todos!.


[1] RB 31,10

[2] RB Prol 49

[3] Mt 6,21