Pelo Amor do coração de Nosso Deus.

“Pelo Amor do Coração de Nosso Deus…” (Lc 1,78) /Dom João Paulo Avelino Osb.

A liturgia da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus deste ano, ciclo A, pela qual podemos entrar em contato com a Palavra de Deus, reconhecermos aí Seu Amor revelado e, por Sua graça, responder a esse Amor, traz à nossa reflexão as ‘coisas escondidas aos sábios e doutores, mas reveladas aos pequeninos’ e pelas quais Jesus se põe a dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra… Sim, Pai, poque assim foi do Teu agrado!” (cf. Mt 11,25-26). Todas ‘essas coisas’, diz Jesus, lhes foram entregues por Seu Pai, “e ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (id., 11,27) e, portanto, ‘entregar aquelas coisas’. Ora, que ‘coisas’ são essas, senão os ‘mistérios do Reino dos Céus’, dado a conhecer aos seus discípulos – os pequeninos, pobres ‘anawin’ que não têm outra esperança senão o Deus que se revela neste Homem Jesus –, mas não aos ‘de fora’ (cf. Mt 13,11) Por estes ‘mistérios’ se pode conhecer verdadeiramente a Deus que é Amor (cf. 1Jo 4,16) e esses mistérios Jesus os quer revelar aos que convida a ir até Ele: “Vinde a mim, todos que estais cansados e fatigados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso” (Mt 11,28).

O próprio fato de adentrar esses mistérios, o ‘conhece-los’, já faz parte do Caminho, da pedagogia divina, que nos atrai por Sua graça ao centro do Seu próprio Mistério. Com efeito, o ‘conhecimento do Senhor Deus’, no qual se resume a verdadeira religião, é um dos grandes temas da pregação dos profetas, como o expressa Jeremias: “Quem se gloria, glorie-se em me ‘conhecer e saber’ que eu sou o Senhor e ‘faço a misericórdia, o direito e a justiça na terra’… destas coisas me agrado” (cf. Jr 9,23); e também, e principalmente, Oséias: “Eu te desposarei a mim na fidelidade e ‘conhecerás’ a Iahweh” (Os 2,22). Tal conhecimento, conforme a literatura profética, acompanha o ‘hesed’, ou seja, a expressão do vínculo, do empenho de Iahweh em favor de Seu povo. Em Deus, esse termo exprime a fidelidade à Sua aliança e a bondade que dela decorre em favor do povo por Ele escolhido; portanto, de Sua misericórdia para com ele e dos benefícios que dela decorrem, pelos quais o Senhor age “com amor até à milésima geração para com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Ex 20,6). Unindo-se ao povo de Israel, ‘desposando-o’ – termo esse com conotação carregada de todo o cuidado de um esposo por sua esposa – com fidelidade, é que o Senhor se dá a conhecer. Desta forma, o Senhor seduz seu povo, condu-lo ao deserto a fim de falar-lhe ao coração” (cf. Os 2,16), Se dá a conhecer. Mas esse ‘hesed’ requer no homem também o ‘hesed’, ou seja, o dom da alma, a amizade confiante, o abandono, a ternura, a “piedade”; em uma palavra, o amor que se traduz por uma submissão alegre à vontade de Deus e pelo amor ao próximo… “Porque é amor que eu quero e não sacrifícios, conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6).

Conhecer a Deus, portanto, não se trata de simples conhecimento intelectual. Do mesmo modo como Deus ‘Se faz conhecer’ ao homem unindo-se a ele por aliança, manifestando-lhe por Seus benefícios Seu amor (hesed), assim o homem ‘conhece a Deus’ – e isto manifesta – pelas atitudes que implicam em fidelidade à Sua aliança, reconhecimento de Seus benefícios, enfim, em amor.

A quem escuta, portanto, o apelo de Jesus na economia da Nova Aliança – sim, pois pode-se ouvir, mas sem escutar – Jesus pede que ‘tome seu jugo e aprenda de Seu manso e humilde Coração’ (id., 29) os mistérios da vida e do Reino

… Em Seu Filho Jesus, “Imagem [visível] do Deus invisível” (cf. Col 1,15), Deus concretiza e leva à perfeição, à plenitude, a revelação de Sua Aliança, de Seu Amor a nós, novo Israel, “mantendo a promessa que jurou a nossos pais” (cf. Dt 7,8), conforme a primeira leitura. Em Cristo, Deus desposa a humanidade em toda a Sua fidelidade, tomando a nossa carne e transfigurando-a em Sua Divindade. Eis a plenitude do hesed que Deus nos revela, seu imenso benefício em nosso, o “memorial de Suas maravilhas” (cf. Sl 110,4)! A partir de então, “Ele jamais esquecerá Sua Aliança” (id.,5).

Em Jesus podemos conhecer verdadeiramente o amor que Deus tem por nós, “saber, portanto, que Ele é o único Deus, o Deus fiel que mantém a aliança e o amor por mil gerações em favor daqueles que o amam e observam Seus mandamentos” (id., 9), ou seja, para aqueles que procuram, na medida de suas limitações e com Sua graça, corresponder ao imenso amor que Ele manifestou de maneira esplêndida e completa em Jesus. E a correspondência a esse Amor não poderia ser de outra forma que com amor, ainda que pobre e limitado, mas que se dispõe, sempre com Sua graça, a permitir que Seu Espírito, ‘derramado em nossos corações’ (cf. Rm 5,5) nos conduza e dilate nossos corações para torna-los semelhantes aos Coração do Filho de Deus. Nesse sentido, S. João nos exorta, em sua primeira carta, a exercer – exercitar – esse amor: “Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o Amor vem de Deus” (4,7), ou seja, de Seu Espírito que, renovando a face da terra, fecunda nossos corações, se assim o permitimos, podendo assim, sempre de novo, a cada dia, atualizar pessoalmente o sacramento batismal que um dia nos foi conferido e nos permitiu ‘nascer de Deus, nascer do alto’ (cf. Jo 1,13; 3,3.5.8). Somente pelo exercício do amor podemos “nascer de Deus e conhecer a Deus” (1Jo 4,7), “porque Deus é Amor” (id.,8.16). E S. João continua dizendo que, se podemos amar, é porque Deus nos amou primeiro, ‘manifestando Seu amor ao enviar Seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados’ (cf. 1Jo 4,10), concluindo que “se Deus nos amou assim”, ou seja, ainda pecadores, desconhecedores de seu amor e bondade para conosco, desviados de Seu caminho e gratuitamente, “devemos também nós amarmo-nos uns aos outros” (id.,11), pois, se assim o fizermos, poderemos contemplar a Deus.“Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e Seu Amor é em nos realizado” (1Jo 4,12) e Seu Espírito, a Luz que vem do alto, nos permite reconhecer que n’Ele permanecemos e Ele em nós (cf. 1Jo 4,13). Deste modo, ainda, imitando o amor que Jesus nos ensina (cf. Jo 13,34), podemos, contemplar e testemunhar – não com palavras, mas com a própria vida – “que o Pai enviou Seu Filho como Salvador do mundo” (id., 14), e ‘confessar que Jesus é verdadeiramente Filho de Deus’ (id., 15), tomando parte naquela comunhão em que o Pai ama o Filho e este ama o Pai na unidade do Seu Espírito (cf. Jo 17,21) e ‘Deus permanece em nós e nós em Deus’ (cf. 1Jo 4,15), podendo, assim, o mundo crer verdadeiramente que Deus enviou-lhe Seu Filho para salvá-lo (cf. Jo 3,17; 1Jo 4,14).

Eis aí, pois, a revelação do mistério, ‘as coisas ocultas aos sábios e doutores, mas reveladas aos pequenos’ (cf. Mt 11,25), o ‘jugo suave e leve no qual se pode descansar e encontrar repouso para a alma’ (id., 29s). Podemos, assim, “reconhecer o Amor de Deus por nós e nele acreditarmos” (cf. 1Jo 4,16), pois o conhecemos e dele experimentamos, ou seja, aprendemos do Coração manso e humilde de Jesus que “Deus é Amor: aquele que permanece no Amor permanece em Deus e Deus nele” (id.).

Bibliografia

          Bíblia de Jerusalém, Paulus, S. Paulo, 2002 (17ª impressão 2011).