Pedido para a Profissão Solene

Pedido para a Profissão Solene

Irmãos Mauro e Jerônimo

16 de agosto de 2019

        Caríssimos Irmãos:

            Nossos Professos Temporários Mauro e Jerônimo solicitam aos Monges Capitulares, neste momento, a Profissão Solene e a Consagração Monástica em nosso Mosteiro.

            Após vivenciarem alguns anos a nossa Conversatio Monástica, cremos estarem aptos a viver como eunucos em nossa comunidade. Como escutamos o Senhor na proclamação do Evangelho de hoje, ambos se fazem eunucos por amor ao Reino dos Céus.

         Como havia comentado algumas vezes, há textos litúrgicos com os quais não me simpatizo muito, referentes à vida religiosa qualificando-a de vida mais perfeita ou seguimento mais perto do Cristo. Diz a oração da Coleta do formulário pelas vocações religiosas: “Pai Santo, que chamais todos os fiéis à caridade perfeita, e inspirais a muitos seguir mais de perto o vosso Filho…” [1]  Esta é uma “lectio orandi” que a Igreja precisa rever.

            Com razão, pelos conselhos evangélicos há maior liberdade e disponibilidade para a “sequela Christi”. Tal realidade nós a encontramos no chamado aos apóstolos: “… e deixando tudo, eles o seguiram.” [2]

            Em São Lucas – perícope paralela ao texto de São Mateus – Jesus menciona claramente a finalidade de deixar tudo: o Reino. “Não há quem tenha deixado casa, mulher, irmãos, pais ou filhos por causa do Reino de Deus…[3]   

            Entendo que nossa vida de continência – eunucos por causa do Reino – não nos aproxima mais de Deus do que os demais cristãos que vivem o sacramento do matrimônio, porém nos faz mais disponíveis para o Reino, ou seja, para o anúncio da Boa-Nova, para administrar os sacramentos, para a oração contínua e o louvor divino, para o serviço da caridade, da misericórdia, da consolação, do ensino, etc.

            São Bento, fiel à Tradição de seus Maiores, no Prólogo de sua Regra, utilizará, exatamente, um texto que, muito provavelmente, foi uma homilia para catecúmenos da Noite Santa de Páscoa. Logo, para ser monge é preciso, simplesmente, ser cristão. Antes de terminar o texto, já de sua autoria, proporá um lugar para se viver o batismo: a Escola do Serviço do Senhor, com seu magistério e disciplina próprios, a partir do Evangelho, única e verdadeira regra de vida do monge.

            A Escola do Serviço do Senhor não formará homens pertencentes a uma elite espiritual ou mística, como também, homens que viverão mais perto de Deus e terão uma vida mais perfeita. Formará cristãos simplesmente que, abraçando esse tipo de vida adequado a poucas pessoas – o monaquismo nunca foi um fenômeno de massa – estarão totalmente disponíveis para o Reino e, pelo celibato consagrado, a missão de sinalizar a vida futura.[4]

            São os filhos de São Bento bem-aventurados, porque o Senhor os chamou para viver em seus átrios considerando suas fragilidades, pois teriam dificuldades em outros espaços eclesiais, mas, também, considerou a fortaleza de alma que possuem para enfrentar a mais desafiante da lutas de um ser humano: unificar seu ser; não dividir nem seu coração nem seu corpo com nada e ninguém, justificando assim o título de monge que endossa. A palavra monge vem do grego “mónos”, que significa um, sem divisão. Se, no claustro, o monge trabalha, com o auxílio da graça, para a unificação de seu ser, será instrumento de unidade em sua comunidade e na Igreja. Se totalmente dividido em seu ser, gerará divisão aonde se encontra. Encontramos no rei Salomão essa triste realidade. Dividido em si mesmo por ter desposado mulheres pagãs e para agradá-las construiu templos a seus deuses, gerou a divisão do reino que seu pai Davi havia consolidado; Israel se divide em reinos do norte e do sul. Causou divisão em torno de si. Diz o texto bíblico: “Quando ficou velho, suas mulheres desviaram seu coração para outros deuses e seu coração não foi mais  todo de YWHW seu Deus, como o fora de Davi, seu pai”[5]

            O Senhor nos ajude caros irmãos a unificar nosso ser tendo o coração e o corpo castos e, só assim, com muita liberdade, seremos plenamente generosos e disponíveis para o Reino; nada e ninguém nos serão um laço que nos amarra, mesmo que este nos traga o enganoso prazer do falso brilhante, aquele que nos fascina e inebria, seguramente, só por um lapso de tempo, pois não provém da verdadeira fonte: o amor de Deus.

            Deus nos abençoe a todos!


[1] Missal, Ed. Paulus, 1992, pg. 895

[2] Lc 18,28-30

[3] Lc 18,28; Mt 19,27-29

[4] Mt 22,30 “Com efeito, na ressurreição, nem eles se casam e nem elas se dão em casamento, mas são todos como os anjos no céu”.

[5] 1Rs 11,1-8

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