Artigos, Monastica, Textos › 28/11/2019

O Nosso Culto Espiritual

“Nosso culto Espiritual” (Rm 12,1) por Dom João Paulo Avelino Osb.

           “Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos” (Hb 1,1s).

              Em Seu Filho, Jesus Cristo, Deus nos fala no ‘hoje’ de nossa história, e nos fala não somente com Sua palavra, mas na Sua ação, na Sua Criação e atuação na história dos homens, na história de Adão – o primeiro homem vivente – de Noé, de Abraão, de Moisés, na história do povo, desse povo nem sempre fiel às Suas Alianças, aos seus compromissos com o Senhor Deus; mas mesmo assim, continua atuando e falando…falou a Zacarias, a Maria … falou e agiu, falou e ela aceitou, falou e ela concebeu; Ele esteve entre nós, nestes últimos dias – os últimos, plenitude de Seu tempo, que se estende até nosso tempo … e fala ao resgatar o homem que descia, de Jerusalém a Jericó – figura de cada ser humano –, e que, semimorto, lavado e ungido (cf. Lc 10,29-33), recuperou a vida; falou que é Pão, que é Pão Vivo, que é “Pão do Céu, que dá a Vida ao mundo”(Jo 6), o mundo decaído, porque esquecido do Seu cuidado, e o nutre de sabor e Sabedoria … falou da Aliança, da Nova, a Eterna – Aquela que não tem mais fim, porque enlace eterno de Sua Vida em nossa Vida, de Seu Espírito em nossa Carne, (cf. Jo 1,14) de Sua Vida Divina em nossa vida humana (cf. Jo 15), a qual enche de plenitude e sentido, nos descobre um novo colorido, enfim, nos faz viver e saborear a vida no sabor de Sua Alegria; falou da “Sua Hora”(cf. Jo 2,4; 7,30;8,20; 12,23.27; 13,1; 17,1), que é também ’nossa hora’, porque mergulhada em Seu Kairós, desenrolar suave de Sua Presença entre nós, na Seiva de Sua mesma Vida, como ramos que por si, não podem viver, nem dar frutos (Jo 15,4ss); Ele falou – gritou – no silêncio da Cruz e, levantado por nosso Amor (cf. Jo 3,14; 8,28; 12,34), manifestou o Amor do Pai, amor sem medida, sem limites, largo, alto e profundo (cf. Ef 3,18), que alcançou tudo de um ao outro extremo da terra (cf. Sb 8,1), de tudo o que existe, do Universo, e continua alcançando e a tudo sustentando no poder de Sua Palavra; e Ele continuou falando … Falou ainda, pela boca do autor sagrado, falando e desvelando que Ele é Sacerdote, o Sumo Sacerdote, misericordioso e fiel, aquele pelo qual temos, agora – na plenitude do tempo – acesso a Deus Pai (cf. Hb 2,17s; 7,21-27) … e Ele falou a nós e continua falando, falando e agindo, criando e recriando, renovando a criação no suave Sopro de Seu Espírito, Amor que renova a face da terra (cf. Sl 103,29-30) e nos renova também, porque Seu Amor “foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que Ele nos deu” (cf. Rm 5,5), Espírito que habita em nós e nos faz habitar em Deus (cf. 1Cor 6,17).

              Então, Deus nos fala – fala e age, pois “Ele falou e toda a terra foi criada, Ele ordenou, e as coisas todas existiram” (Sl 32,9), age mais do que fala, se somos capazes de ouvir a brisa suave (cf. I Rs 19,12), que ordenou a Elias retomar o caminho e cumprir sua missão.

              Como Cristo, Sumo Sacerdote da Nova Criação, o cristão é chamado a descobrir e partilhar seu Amor com os outros homens, necessitados de um outro samaritano que passe por eles e lhes mostre a Vida – “Eu Sou a Ressurreição!” (Jo 11,25) e que seja junto a eles, diante de Deus, “misericordioso e fiel” (Hb 2,17) e, tal como Ele, tomado de compaixão para com suas misérias e os unja e lave no Seu Amor (cf. Lc 10,33s), “Amor que cobre uma multidão de pecados” (I Pd 4,8); n’Ele somos chamados “à construção de um edifício espiritual, para um sacerdócio santo, a fim de oferecermos sacrifícios espirituais agradáveis a Deus” (cf. I Pd 2,5) e, ainda, somos “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de sua particular propriedade, a fim de proclamar as excelências d’Aquele que nos chamou das trevas à Sua Luz maravilhosa” (id. 2,9), porque alcançamos Sua misericórdia, ou antes, fomos por ela alcançados. Com efeito, nos diz o Livro das Revelações (Ap 5,10) que Cristo, o Cordeiro Imolado, “fez de nós, para Deus, Seu Pai, uma Realeza de Sacerdotes” e que, assim, “reinaremos sobre a terra”.

              Por isso, S. Paulo nos exorta “pela misericórdia de Deus, a oferecermos nossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, pois este é o nosso culto espiritual (cf. Rm 12,1); e oferecemos este sacrifício ouvindo Sua Palavra e realizando o que ela nos inspira, saindo de nosso eu fechado, sacrificando-o, a fim de abrirmo-nos para a vida, recebê-la como Dom do Seu Espírito e anunciar a Boa Nova de que Deus é Conosco e Vive em nós e em nosso meio. Com efeito, não temos mais, como outrora os judeus um único lugar para oferecermos culto a Deus, pois, Cristo, nossa Páscoa, que foi imolado, tornou-se nosso Templo, tal como na Jerusalém vindoura, que não tinha “nenhum templo, pois o seu templo é o Senhor, o Deus Todo-poderoso, e o Cordeiro” (Ap 21,22), e “é chegada a hora – e é agora em que os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e verdade” (cf. Jo 4,23).

              Neste sentido, Cristo nos diz no Salmo que “sacrifício e oblação não quisestes, mas abristes, Senhor, meus ouvidos; não pedistes ofertas nem vítimas, holocaustos por nossos pecados, e então eu vos disse: ’eis que venho!’ – sobre mim está escrito no livro: ‘com prazer faço a vossa vontade, guardo em meu coração vossa lei’” (Sl 39, 7-9); tal como Ele – abertos os nossos ouvidos – somos chamados a ir onde Sua voz nos chamar e cumprir com prazer sua vontade, guardando no coração Sua Lei, a Lei do Seu Espírito que “sopra onde quer” (Jo 3,8) e realiza o que é de Seu agrado. Também é neste sentido que S. Paulo, dirigindo-se aos Romanos (cf. 1,9), lhes diz que “Deus é testemunha de que [ele] celebra a fé dos romanos, Deus a quem [ele] presta um culto espiritual, anunciando o Evangelho de Seu Filho”, considerando o ministério apostólico como ato de culto prestado a Deus – a fim de que também “as nações se tornem oferta agradável, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15,16) –, assim como toda a vida cristã animada pela caridade (At 13,2; Rm 12,1; Fl 2,17+; 3,3; 4,18; 2 Tm 1,3; 4,6+; Hb 9,14; 12,28; 13,15; 1 Pd 2,5).

              Encerrando mais um ciclo do Ano Litúrgico, também nós somos chamados a “não nos conformar com este mundo, mas a nos transformarmo-nos, renovando nossa mente, a fim de podermos discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (cf. Rm 12,2), ou seja, a nos convertermos continuamente para Deus, deixando o que fica para trás, e, assim como Cristo, estarmos sempre voltados para a Face Divina que nos concede o hálito da vida que nos vivifica e nos enche de Seu Espírito, renova nossa mente e nos concede as luzes necessárias para bem agirmos no cotidiano de nossas vidas, nas mais diversas circunstâncias.

              Podemos, pois, assim, ouvindo Sua voz que nos chega através de Sua Palavra e alimentando-nos do Pão da Vida, que Ele nos concede, ter a plena certeza de que, conforme sua promessa, Ele “estará conosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28, 20).

Dom João Paulo Avelino Osb.

Abadia Da Ressurreição.