INVESTIDURA DO HÁBITO MONÁSTICO IRS. PEDRO HENRIQUE, MAURÍCIO E GABRIEL

Investidura do Hábito Monástico

Irs. Pedro henrique, Maurício e Gabriel

07 de outubro de 2019

            Caríssimos Irmãos:

            Acabamos de escutar o livro do Êxodo que relata o combate dos israelitas em Rafidim. Josué, por ordem de Moisés, sai em campo de batalha para enfrentar Amalec. Moisés, Aarão e Hur, por sua vez, sobem ao topo da montanha para avistá-los na luta. E, enquanto Moisés tinha as mãos levantadas para o céu, Israel vencia, quando as abaixava, perdia para Amalec. Então Aarão e Hur colocaram uma pedra para que Moisés se sentasse e, um de cada lado segurava as suas mãos, que se tornavam pesadas com o passar do tempo. Ao pôr-do-sol, Josué derrotou Amalec.

            Podemos caros irmãos, comparar a vida Monástica Beneditina a Moisés. Este carregado de anos senta-se sobre uma pedra. Aquela, pesada pelos séculos, repousa alicerçada na rocha que é Cristo.

            A vida Monástica Beneditina existe, caros filhos, para que seus monges possam em seu Rafidim, lutar contra todo amalecita que os assediam, ou seja, seus inimigos, seus pecados, seus vícios, enfim, tudo o que separa de Deus para viver em plenitude a sua máxima “Nada antepor ao amor de Cristo”. [1]

Dom de Deus para a Igreja, a vida Monástica Beneditina envia seus Josués – os monges – a essa luta sem trégua, enquanto trilham seu Grande Retorno.

            Assim como Moisés fora sustentado por Aarão e Hur a fim de que Josué não fosse derrotado, assim também a vida Monástica Beneditina é sustentada por dois pilares, a Regra e o Abade, para que seus monges vençam seus amalecitas.

O binômio Regra-Abade constitui uma fórmula de governo completa e equilibrada. A lei serve de fundamento e de guia à autoridade do chefe, impedindo-o de decair ou de degenerar em tirania. Reciprocamente, a autoridade pessoal permite à lei permanecer a serviço da vida e do espírito, sem se tornar um obstáculo ou uma letra morta. Como o devir não cessa de trazer novos problemas e de modificar as condições em vista das quais a regra foi escrita, é indispensável que esta seja continuamente completada, interpretada, até corrigida, por uma pessoa viva.

A Regra, assim como o Abade pode e deve ser considerada como emanada do Cristo e representando-O. Uma e outro, Regula e Abbas, são dois modos da única presença do Cristo, sendo o Abade ministro da Regra, que deve ler e comentar para o postulante e impor à comunidade ao longo dos dias e dos anos. Nela, depois da Sagrada Escritura, encontra a principal fonte de sua doutrina.” [2]

Se o Abade, seja por qual motivo for, deixar de exercer sua função de ministro da Santa Regra não tornando-a uma norma de vida evangélica, as mãos de Moisés começarão a descer e apontarão para as coisas terrenas, caducas e transitórias.[3] Então seus monges serão inevitavelmente vencidos pelos amalecitas. Por outro lado, se os monges desacreditarem do texto da Regra, relativizando-a a tal ponto de apenas venerá-la qual uma peça de museu de arte sacra, também não conseguirão derrotar seus amalecitas.

Um bom mosteiro beneditino é aquele que a sua conversatio, tendo o Abade e a Regra efetivos em suas respectivas funções, não deixa suas mãos apontarem senão para os céus, assim como o fez Moisés.

Nossos postulantes recebem hoje o hábito de noviços, certos de que estarão dispostos a viver o Evangelho neste Rafidim, neste campo de batalha que é o nosso mosteiro onde enfrentarão seus amalecitas até o pôr-do-sol de suas existências. Contarão com seu Aarão e seu Hur, responsabilizando-se e colaborando para que o Abade tenha plena abertura à graça para manter uma conversatio digna e eficaz para homens de nosso tempo, que são reconhecidos como monges na Igreja porque professam solenemente sob a Regra de São Bento, sendo ela, nas palavras do próprio Autor “mínima Regra de iniciação, [4] enquanto se apressam para a pátria celeste.

            Partindo desta afirmação de São Bento, tão categórica, ouso comparar a Santa Regra a uma Cartilha chamada “Caminho suave” que utilizei quando garoto, para ser alfabetizado. [5]

Recordo-me do método utilizado. Cada letra do alfabeto trazia uma palavra que deveríamos aprender. Assim “a” de abelha, “b” de barriga, “c” de cachorro, “d” de dedo, etc.

A Santa Regra traz todas as “letras do alfabeto” que contém os grandes e imprescindíveis temas do monaquismo. Neste sentido está completa, mas não encerra toda a Tradição. Assim, aquele que ingressa na Escola do serviço do Senhor aprenderá a ser monge. Porém, é preciso ultrapassar a “cartilha” para ser fiel à proposta do autor. Jamais a abandonaremos, pois ultrapassar não significa abandonar nem desprezar. Será para nós um contínuo ponto de partida que não se abandona.

Conforme nossa tradição de receber um padroeiro e levar seu nome ao ingressar no noviciado, o nosso Pedro Henrique terá como padroeiro nosso grande São Gregório Magno, patrono da Scola Cantorum; Pe. Maurício levará o nome de nosso Redentor que veio habitar no seio da Virgem, Emanuel e Gabriel completará a lista dos Arcanjos tomando o nome de quem é como Deus, Miguel.

Sejam queridos irmãos Gregório, Emanuel e Miguel fiéis discípulos do Abade e da Regra e, com a graça de Deus, colaborem para que nossa conversatio monastica forme autênticos monges para o Reino de Deus que o Cristo o inaugurou em seu Mistério Pascal.

Deus nos abençoe a todos!


[1] RB 4,21

[2] De Vogue Adalbert, Sub Regula vel Abbate,in Collectanea Cistersiensiae, t. 33

[3] RB 2, 33

[4] RB, 73, 8

[5] Branca Alves de Lima, Caminho suave, ( 86 edição)