Homilia/Comemoração dos fiéis Defuntos 02 de novembro de 2019/Dom Abade Andre Martins

Finados

Comemoração dos fiéis Defuntos

Caríssimos Irmãos e Irmãs:

          A realidade da morte para os cristãos é expressa de forma privilegiada na liturgia com essas palavras: “Senhor, para os que crêem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível.” 1

          Portanto, para os renascidos das águas do Batismo, a morte é páscoa definitiva, cuja realidade extrapola toda e qualquer especulação racional, restando apenas a realidade da fé. Cremos, como São Paulo que “se com Ele morremos, com Ele viveremos.” 2 Com Cristo fomos sepultados nas águas lustrais no dia de nosso Batismo e das mesmas águas ressurgimos, filhos de Deus, regenerados da culpa original. E não só. Pelo Batismo somos filhos da Igreja que nos oferece a celebração pascal enquanto peregrinos rumo à gloriosa Jerusalém: “o maná descido dos céus”, o Corpo e o Sangue do Senhor. Terminada a nossa peregrinação, realizaremos a páscoa definitiva, o dia de nossa partida desta vida. Portanto, a morte é uma passagem; é uma páscoa; páscoa da ressurreição.

              Por conseguinte, não crer na ressurreição do Cristo e em nossa ressurreição com Cristo, já vivida sacramentalmente pelo Sacramento do Batismo e definitivamente com o término de nossa caminhada aqui neste mundo – “a vida não nos tirada, mas tranformada” – que sentido há para nós este Dia de Comemoração dos Fiéis Defuntos?

              Finados não é um dia de lúgubres recordações nem de dolorosas nostalgias nem ainda de revolta porque perdemos pessoas amadas nem o cultivo de vaidades nos cemitérios competindo com a beleza de tumbas ou arranjo de flores, mas um dia singular no qual professamos a fé na ressurreição e a esperança de que todos os falecidos aguardam o último dia para o julgamento final. Esse dia coincidirá com a parusia de Cristo.

              Enquanto os adormecidos em Cristo aguardam o último dia, a Igreja militante, que somos nós, suplica ao Senhor que sejam eles purificados de seus pecados e possam se unir, no fim dos tempos, ao Banquete dos Bem-aventurados.

              Entretanto, vivemos numa cultura onde Deus não tem espaço na vida das pessoas. Consequentemente, a realidade da morte é banida o mais possível do horizonte dos mortais, considerada um mal inevitável. Muitos ludibriados por recompensas imediatas procuram extorquir todas as possibilidades de prazeres de todos os tipos; engajam-se em ideologias que não levam o homem nem ao encontro consigo mesmo nem com Deus; orientam sua existência para atingir uma utopia ancorada em miragens. Quando o homem hodierno experimenta o fracasso de seus ideais, então atinge o óbito sem direito à prévia comunicação; outros já estão mortos, mas não sepultados. Quantos há sendo a morte antecipada pela falta de sentido da vida. Numa cultura sem Deus, é perfeitamente compreensível o suicídio. Por que prolongar os dias da vida?

              Nós que professamos a fé na ressurreição do Cristo e em nossa ressurreição com Cristo somos convocados a anunciar ao mundo sem Deus o sentido da vida e da morte. Esta não é um salto no vazio, mas nos braços misericordiosos de Deus, que nos criou para contemplarmos o espetáculo de uma aurora que não conhecerá ocaso.

              O púlpito para proclamar essa verdade da fé nós o temos em nossas celebrações litúrgicas, porém, em concorrência com tantos outros midiáticos mais eficientes pelo seu marketing. , logo urge proclamar a esperança da vida eterna num “modus vivendi”, com uma conversatio cristã. Hoje todos se sentem no direito de opinar sobre tudo, mesmo incapazes ou sem fundamento discursivo. Portanto, uma vida cristã, coerente com a fé que celebra: “a vida não nos é tirada, mas transformada” poderá não atingir multidões, mas será, com certeza, uma seta certeira no coração de muitos que buscam a verdade, o caminho e a vida. Consideremos, irmãos, que já não vivemos mais num regime de cristande.

              Viver como autênticos peregrinos que se encaminham para transpôr o Jordão e pisar na terra prometida, eis nossa conduta de vida cristã; eis nossa vocação de filhos de Deus.

Deus nos abençoe a todos!


1  MR, Prefácio dos Defuntos

2  2Tm 2,11