Estive doente e me visitastes. Dom Anselmo Giaretta osb.

“Estive doente e me visitastes”

Breve reflexão sobre o capítulo 36 da Santa Regra

São Gregório Magno, ao elogiar a Regra de vida que nós, monges beneditinos, seguimos, a Regra de Nosso Pai São Bento (RB), fá-lo afirmando que essa é “insigne pelo espírito de discernimento e clara por sua forma de linguagem” (Cf. II diálogos Cap. 36). São Bento dispôs, de fato, dessa forma sua Regra, a fim de que não fosse cometida alguma incúria na vida cotidiana do Mosteiro, preservando, contudo, o discernimento (discrição) nos pormenores.

Esse grande discernimento, percebemo-lo em toda a Regra, quer em cada capítulo, quer inclusive em cada versículo. Hoje gostaríamos de deter-nos sobre o capítulo 36 da RB, em que ele orienta seus monges em relação aos irmãos enfermos. Esse é muito breve, formado apenas por três parágrafos, de modo que queremos analisá-los um a um.

Inicia São Bento, como de costume, fundamentando-se na Escritura, a fim de justificar seu posicionamento. De fato, o monge é chamado ao deserto para, afastado da balbúrdia do mundo, escutar a voz do Pai. São Bento, grande monge, soube escutar essa voz e por isso, ao dispor a vida de seus monges, não soube fazê-lo sem estar fundamentado na Sagrada Escritura. Assim, no princípio do capítulo, alerta a todos que os enfermos são sacramentos do Cristo no cotidiano do Mosteiro, ou seja, os enfermos são sinais visíveis do Cristo em nossa vida, apelando para tal às palavras de Jesus: “Estive enfermo e me visitastes” (Mt 25, 36). O fundamento de tudo, como já aludido, é o Evangelho; é ele que nos orienta e ilumina nossos passos.

A preocupação do Santo Patriarca reside em que os monges, antes de tudo, sigam os conselhos evangélicos. Não obstante, tendo olhar atento e, conhecendo a fundo o coração do homem, logo em seguida dirige-se aos enfermos empregando um linguajar um tanto severo: “Mas os próprios enfermos considerem que são servidos em honra a Deus e não entristeçam com sua superfluidade os que lhes servem”. São Bento adverte igualmente aos enfermos que o serviço a eles prestado dá-se em honra de Cristo. Os profissionais da área da saúde hão de concordar conosco que os enfermos, privados da saúde do corpo, amiúde se tornam desejosos de atenção; de fato, quando não nos encontramos fisicamente bem, aumentam nossas carências psíquicas e afetivas; é notável, por conseguinte, que muitos enfermos hospitalizados e mesmo os de nossos lares tornam-se, em muitos casos, extremamente exigentes e, por vezes, até exagerados, pois solicitam a presença dos que os assistem a tempo inteiro, normalmente com algum pedido a ser feito, porém quase sempre desnecessário, movidos unicamente pelo desejo de gozar da presença de outrem. Em hipótese alguma, São Bento dirá que isso seja maldade dos doentes, mas adverte-os para que também eles prestem atenção a esse aspecto. Tanto é assim que, ao concluir o parágrafo, relembra aos irmãos responsáveis pelos enfermos que estes deverão ser suportados pacientemente.

No segundo parágrafo, São Bento, à primeira vista, abandona o aspecto “espiritual” do cuidado do enfermo para versar sobre os aspectos práticos desse cuidado. Contudo não é o que sucede. A impressão que temos é que São Bento, embora fosse um excelente médico espiritual, não o era quando o assunto dizia respeito a enfermidades físicas, uma vez que ele se limita somente a dois aspectos práticos, que seguem: “Haja uma cela e um irmão para cuidar dos enfermos”; os demais aspectos dispostos, como se verá mais adiante, encontram-se no campo espiritual. Ao falar sobre o enfermeiro do Mosteiro, dirá em primeiro lugar, que esse deverá ser temente a Deus. Embora possa haver no Mosteiro diversos irmãos com prática no cuidado de enfermos, se não temem a Deus, estarão vedados desse serviço, dado que muitas das enfermidades físicas decorrerem de problemas espirituais; hoje, amplamente difundido e pesquisado pela ciência médica, esse aspecto é tido como verdadeiro e, por vezes, a cura da moléstia dá-se a partir desse campo. Somente um irmão temente a Deus poderá fazer um justo juízo de até aonde vai a doença física e onde principia a enfermidade espiritual. Além disso, caberá a esse irmão diligente e temente a Deus discernir se de fato o irmão está enfermo ou se, tentado pelo antigo inimigo, deseja afastar-se da observância da Regra, utilizando para seu intento o pretexto de enfermidade. Também neste caso, o enfermeiro poderá ajudar o “enfermo” através de sua oração ou mesmo declarando tal situação ao pai espiritual da comunidade. De qualquer modo, o mais importante para São Bento não é a cura do corpo físico, matéria destinada à morte a qual ninguém está livre, mas, ao contrário, da cura da alma, imortal e destinada à salvação eterna.

A ulterior parte do segundo parágrafo evidencia a nossos olhos o discernimento de São Bento acerca da qual falávamos no caput do presente artigo. Os banhos e o consumo de carnes vermelhas eram tidos como prejudiciais à vida espiritual, visto que aquele acontecia em termas públicas com a presença de pessoas estranhas à vida cristã, o que deixavam os monges sujeitos à luxúria, e além do mais, acreditava-se que os banhos relaxavam o corpo amolecendo-os para a ascese corporal; e quanto a este, acreditava-seque fomentava as paixões. E aqui se encontra, justamente, a discrição da RB em relação a outras regras monásticas: enquanto as demais não permitiam em hipótese alguma o uso de banhos, assim como o consumo de carnes, salvo raras exceções, São Bento prefere contar com a Graça de Deus e com o bom senso dos irmãos permitindo tais práticas à medida que essa favoreça a recuperação da saúde (que também é dom de Deus). Porém, restabelecida essa, suspenda-se de imediato tanto uma como a outra.

Por fim, São Bento exorta ao abade o máximo de cuidado com os enfermos, pois, caso ocorra alguma negligência, a culpa ser-lhe-á creditada. Soa-nos um tanto estranho o fato de a RB responsabilizar o abade por falhas do enfermeiro e/ou do celeireiro, porém, na Santa Regra, o abade detém todos os encargos e é ele quem distribui esses múnus aos demais irmãos da comunidade. Nessa perspectiva, São Bento adverte que o abade deverá ter cuidado na hora da escolha do irmão enfermeiro, pois este deverá “abnegar-se a si mesmo para seguir a Cristo” (RB 4, 10).

Os demais irmãos do Mosteiro, por sua vez, também estão implicados na atenção aos enfermos, pois são convidados a praticar os instrumentos das boas obras e, consequentemente, a “visitar os enfermos” (RB 4, 16).

Que São Bento, varão ilustre por sua sabedoria e discernimento, interceda por nós, que trilhamos seu caminho e seguimos seus ensinamentos, a fim de que possamos, por Deus assistidos, “suportar pacientíssimamenteas fraquezas, quer do corpo, quer morais” (Rb 72, 5), dos nossos irmãos mais necessitados e ouvir um dia de sua boca: “o que fizestes a um desses pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 40).

Dom Anselmo Giaretta, OSB