Homilias, Quaresma › 31/03/2019

Domingo Gaudete/Homilia do 4º Domingo da Quaresma – Ano C/ D.PAULO

Homilia do 4º Domingo da Quaresma – Ano C

Domingo Gaudete

 

Irmãos e irmãs, a liturgia deste 4º Domingo da Quaresma, chamado também Domingo Gaudete, convida-nos à descoberta do Deus do amor, empenhado em conduzir-nos a uma vida de comunhão com Ele.

A 1ª leitura de hoje do Livro de Josué, narra a entrada e a instalação do povo de Deus na Terra Prometida. A Páscoa não havia sido celebrada no deserto. Agora, a nova geração de hebreus se reconcilia com Deus, retomando a aliança e o projeto divino. A celebração da Páscoa na terra prometida é renovação da aliança e reinaugura o processo histórico salvífico para o povo de Deus. Embora o Senhor tenha sido sempre fiel, a aliança ficou parcialmente interrompida por causa da desobediência daqueles que saíram do Egito. Conforme o v. 9, a entrada na terra prometida faz que Deus remova definitivamente a vergonha do povo. Na expressão “opróbrio dos egípcios”, os mestres judeus interpretam que os egípcios escarneciam dos hebreus peregrinos no deserto, duvidando de que Deus lhes cumprisse a promessa. Nesta Festa, os hebreus celebram, principalmente, a gratuidade do Senhor, que apesar da desobediência de seus antepassados, os amou e os libertou da escravidão, os alimentou durante a sua jornada no deserto com o maná, e agora os alimenta com os produtos oriundos da terra prometida, terra onde corre leite e mel. Portanto nossa leitura convida-nos à conversão, princípio de vida nova na terra da felicidade, da liberdade e da paz. Essa vida nova do homem renovado é um dom do Deus que nos ama e que nos convoca para a felicidade.

É diante desta perspectiva que nos coloca a 1ª leitura, que o Evangelho apresenta-nos o Deus/Pai que ama de forma gratuita, com um amor fiel e eterno a seus filhos, apesar de nossas escolhas erradas e irresponsabilidades.

Nosso Evangelho de hoje é extraído do capitulo 15 do Evangelho de Lucas que podemos dizer ser o coração deste Evangelho. São três parábolas de misericórdia: as parábolas dos três perdidos: da ovelha perdida, da dracma perdida e do filho perdido ou filho pródigo. Esta parábola do Filho Pródigo podia ser chamada de parábola dos dois filhos e melhor ainda a do Pai misericordioso. É a mais bela e a mais longa das parábolas de Jesus, impregnado duma finíssima psicologia própria de quem a nos contou, Jesus, que conhece a infinita misericórdia do coração de Deus, que é o seu próprio coração, e que penetra na profundidade da alma humana, onde se desenrola o tremendo drama do pecado.

Podemos dividir nosso Evangelho em duas cenas: o filho mais jovem (15,11-24) e o filho mais velho (15,25-32). Estas são unidas pela ação do pai, o protagonista de todo relato. O ponto central é o encontro com o pai, comentado pelo refrão que sela toda a cena: “Este meu filho estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado.” (15,24).

Em nossa primeira cena temos a figura do filho mais novo, um filho ingrato e obstinado que exige do pai muito mais do que tem direito, (pois a lei judaica previa que o filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai, mesmo assim somente poderia tomar posse da herança após a morte do pai). A herança não significa exatamente somente os bens materiais, mas tudo o que sustenta a vida. O filho mais novo se distancia, rompe com o pai, abandona sua casa e seu amor e, vai para uma terra distante, aonde dissipa seus bens, imagem de egoísmo, de orgulho, de autossuficiência, de frivolidade e de total irresponsabilidade e, finalmente chega a uma situação desumana, pois cuidar dos porcos é o nível mais baixou que um judeu poderia descer em sua dignidade. Fato mais agravante é não poder alimentar-se sequer da ração destinada aos porcos. Inicialmente a fome que sente o impele a voltar para casa do pai, a lembrança da fartura é contraposta à sua situação de fome e miséria. Toma consciência da vida digna que poderia ter na casa de seu pai, mas, sabedor do seu erro, reconhece que não é digno de ser acolhido como filho, mas como um dos empregados, pois reconhece a bondade de seu pai para com estes, não os maltratando, mas, tratando a todos com dignidade. O pai, ao avistá-lo, corre-lhe ao encontro, movido de compaixão, envolve-o num abraço e cobre-o de beijos, o beijo é o sinal do perdão – ou seja, acolhe-o como filho amado. Ordena aos empregados que traga roupa nova, o anel é a restituição de todos os direitos e plenos poderes na família, as sandálias eram luxo dos homens livres, escravos não usavam tudo para que seu filho seja restituído em sua dignidade filial. Em seguida, exige que se celebre o retorno à vida. É a alegria pelo pecador que foi convertido, pelo perdido que foi encontrado. Aqui se justifica a atitude de Jesus em partilhar a refeição com os pecadores.

A segunda cena é a do filho mais velho. Este se ressente porque o pai acolheu o filho mais novo sem reservas. O ressentimento o leva a manter-se fora, a não comungar com a atitude paterna, e por isso até critica o pai. Este sai ao encontro desse filho também e suplica-lhe que entre, pois é necessário alegrar-se e festejar o retorno do filho mais jovem. Contudo, o filho mais velho está enciumado porque não mantém com o pai uma relação afetiva, mas, sim, serviçal.

Diante destas duas cenas o personagem central é o pai. Trata-se de uma figura excepcional, que conjuga o respeito pelas decisões e pela liberdade dos filhos, com um amor gratuito e sem limites. Esse amor manifesta-se na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se esse filho mudou a sua atitude de orgulho e de autossuficiência em relação ao pai e a casa. Trata-se de um amor que permaneceu inalterado, apesar da rebeldia do filho; trata-se de um pai que continuou a amar, apesar da ausência e da infidelidade do filho. Por isso ao final da narrativa o pai convida ao filho mais velho a celebrar o retorno de seu irmão, um pecador arrependido e que não devemos nos guiar somente pela justiça dos homens e sim também pela misericórdia na linha de Deus. Jesus mostra que o Pai sai à busca dos perdidos e festeja porque são resgatados. Essa era também a atitude de Jesus e deve ser a nossa.

Na mesma temática da 1ª leitura e do Evangelho, Paulo na Epístola aos Coríntios desenvolve o tema da reconciliação. Paulo acusado de não ter sido um apóstolo que viveu com Jesus, mostra que o Evangelho não é simples história de Jesus e sim anúncio de sua morte e ressurreição que reconcilia o homem com Deus e inaugura um novo tempo. O importante é a novidade que Deus nos traz, a reconciliação em Cristo. Ele restaurou sua obra corrompida pelo pecado. Se alguém está em Cristo é nova criatura. Deus não levou em conta os pecados dos homens e por meio de Cristo ele reconciliou o mundo consigo. A leitura convida-nos a acolher a oferta de amor que Deus nos faz através de Jesus. Só reconciliados com Deus e com os irmãos podemos ser criaturas novas.

Queridos irmãos e irmãs, o Tempo de Quaresma é um tempo de conversão e reconciliação. A liturgia de hoje nos faz refletir sobre isso. Em primeiro de um Deus Pai que nos ama e nos respeita diante de nossas atitudes e decisões, mesmo que absurdas, pois como o filho prodigo queremos por muitas vezes buscar as facilidades, comodidades da vida, fugindo de uma austeridade que nos leve a Deus. Alerta-nos também para uma vida sem sentido e de frustrações para quem vive longe do amor do Pai, no egoísmo, no materialismo, na autossuficiência. Convida-nos a reconhecer que não é nos bens deste mundo, mas é na comunhão com o Pai que encontramos a felicidade, a serenidade e a paz. E finalmente a exemplo deste filho que reconheceu seu erro e humildemente volta à casa do Pai, a liturgia nos convida a não nos deixarmos dominar pela lógica do que é “justo” aos olhos do mundo, mas pela “justiça de Deus”, que é misericórdia, compreensão, tolerância e amor.

Que a Santa Mãe de Deus nos ajude e interceda por nós junto ao seu Filho Jesus para que tenhamos uma Santa Quaresma e busquemos constantemente a conversão, a reconciliação com Deus e os irmãos.

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