Ato de Escutar: Abertura para Deus e para os irmãos/ Dom Paulo Lemos

Ato de Escutar: Abertura para Deus e para os irmãos

            |Ao iniciar esta reflexão, gostaria de apresentar a definição que o dicionário Aurélio nos dá do verbo Escutar: 1) Tornar-se ou estar atento para ouvir; 2) Aplicar o ouvido com atenção para perceber ou ouvir; 3) Atender aos conselhos de; 4) Prestar atenção para ouvir alguma coisa. Essas são algumas definições entre as várias que encontramos.

            Num mundo moderno e informatizado, onde a tecnologia cada vez mais coloca as pessoas fechadas num mundo particular, como se dentro de uma redoma, percebemos que as mesmas estão cada vez mais deixando de dialogar e senão o fazem, deixam também de Escutar uma as outras.

            Quando andamos de ônibus, trem e, nas grandes cidades de metrô, percebemos como as pessoas estão presas aos seus aparelhos celulares, como se somente eles existissem e nada mais a sua volta. Certa vez um casal amigo relatou-me que numa praça de alimentação olhava as pessoas a sua volta comendo e digitando, e chamou-lhes a atenção uma família ao lado, um pai, uma mãe e um casal de filhos, estavam digitando e fazendo sua refeição. Durante o tempo todo que estiveram ali, nenhuma palavra trocaram, a não ser quando o marido olha para a esposa e diz: “Recebeu ai minha mensagem…”. Como escutar alguém se não somos capazes de dialogar?

            Há um tempo, vendo um seriado de TV, deparei-me com uma cena que me chamou a atenção; em uma lanchonete, trabalhava um jovem rapaz de mais ou menos 22 anos que se colocou a conversar com uma idosa de 86 anos, falava de suas frustrações e de como seus amigos estavam ocupados com seus afazeres e somente lembravam-se dele quando precisavam de algo. Ao final da conversa ele disse a ela: “Que agradecia por aquele momento, por aquela conversa, pois era muito bom falar com uma pessoa, que não estivesse ao celular ou digitando e enviando mensagens”. Ela responde: “Entendo o que você quer dizer”. Afinal também ela tinha uma filha que estava preocupada com sua própria vida e frustrações que esquecia a própria mãe que vivia num asilo, sem que a mesma cobrasse algo da filha.

            Quando fazemos nossas orações, desejamos que Deus nos escute e nos atenda, porém, quantas vezes Escutamos a Deus em nossa vida? Vejamos em uma pequena reflexão a importância de Escutar, no Antigo e Novo Testamento.

            Quando Moisés inicia a Torá (Livro da Lei), diz ao povo: “Ouve (Escuta) Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um.” – (Shemá Yisrael Adonai Elohenu Adonai Echad) (algumas traduções traduzem Echad como Único, porém alguns tradutores colocam que o correto é UM) (Dt 6, 4-5). Este versículo que inicia uma das mais antigas e importantes orações do judaísmo é sua declaração de fé, e nesta é proclamada a própria essência do judaísmo, o que sempre diferenciou os judeus de outros povos: a crença na Unidade e Unicidade de Deus e a lealdade eterna de Israel para com seu Deus. Israel deve ouvir atentamente, prestar atenção, abrir totalmente sua percepção, silenciando completamente a mente, meditando o que estiver pronunciando, interiorizando e absorvendo a mensagem de tal forma que se torne parte de sua própria essência. Deus é Um, e Ele é nosso Deus. Por isso no Antigo Testamento o exercício que é proposto na Torá é o Shemá, Escuta. Vejamos então que antes do primeiro mandamento que é Amar a Deus, Moisés convida o povo a Escutar; escutar a Deus a ao outro com os ouvidos, com o corpo, com o coração, com a inteligência.

            Na sequência do texto Moisés continua: “Portanto, amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração.” (Dt, 6, 5-6).  Essa é a tradição que deve ser passada de geração em geração. As gerações vindouras passam a depender do testemunho transmitido de pai para filho para que o legado fosse mantido vivo. A primeira coisa que a criança deve aprender a pronunciar no judaísmo não é papai ou mamãe, mas sim Shemá, Yisrael. O que me lembra de que num dos textos que li sobre o tema, a historiadora Yaffa Eliach conta que, após a Segunda Guerra, um judeu americano de nome Liberman decidiu resgatar o maior número de crianças judias que haviam sido escondidas em Mosteiros e orfanatos durante o conflito. Foi à Europa, para realizar sua busca. Perguntavam a ele como iria reconhecer as crianças que eram judias, ele dizia para não se preocuparem, pois sabia como as reconheceria. Visitando os mosteiros, orfanato, e outras instituições, ao entrar em cada uma delas recitava o Shemá Yisrael. As crianças judias logo reconheciam as palavras e respondiam e assim eram reconhecidas.

            Dentro do Antigo testamento, diversas vezes encontraremos Profetas, chamando o povo a relembrar o Shemá, pois diversas vezes o povo foi infiel a Deus e não o escutava, esquecia-se que o Senhor Deus é Um. Abandonava a vivencia da fé, do amor a Deus (nosso primeiro amor) e ao semelhante, traia a Lei e a si mesmo. Deus, porém, em sua misericórdia nunca se esqueceu de sua promessa de enviar um Salvador, para resgatar seu povo.

            No Novo Testamento, também veremos Jesus na pregação do Evangelho do Reino chamar o povo a Escutar, alguns exemplos: Mt 13,1-23 – Parábola do Semeador e sua explicação – Quem ouve a palavra e a rejeita – Quem ouve a palavra e a acolhe.: Mt 19, 16-22 – O jovem rico (já citado) – que guardava os mandamentos e vivia-os, porém quando o Senhor o convida a vender seus bens e chama-o a segui-lo, não consegue, o que se conclui: amar com o coração e a alma é um caminho mais fácil. Amar com as posses é muito difícil para um rico. Daí a conclusão: “É mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha, que um rico entrar no reino dos Céus” (Mt 19,24). Em Jo 3,1-21; 7,40-52; 19,38-42: Encontramos Nicodemos que aprendeu a viver o Shemá. Bom fariseu e intérprete popular da Torá. Homem que vai a busca de Jesus, o Escuta e torna-se seu discípulo.

            Ao final de algumas parábolas, Jesus termina dizendo: “Quem tem ouvidos que ouça”.  (Mt 13, 43). Lembrando sempre a seus discípulos a importância do Escutar, e assim vivenciar a Palavra. O que não aconteceu com Judas que não soube Escutar o Senhor e não está preparado para o Reino; ele come com o Senhor, participa da mesa mesmo sabendo que o trairá; depois com um beijo o trai e o chama de Rabi e, chamar alguém de Rabi no judaísmo é o mesmo que dizer: meu mestre, meu amado. Judas age ironicamente com aquele que lhe ensinou a vida em Deus. Porém Jesus o chama de amigo. O arrependimento de Judas pelo que fez e seu sofrimento. O Escutar não vivido em plenitude na pessoa de Judas revela a ironia do destino de quem não segue a Lei; ao entregar Jesus, ele entregou a si mesmo. Quem não escuta a Palavra e a segue, encontrará um caminho de morte sem retorno à vida: a forca, o suicídio como em Judas aconteceu. (Mt 26,20-25, 47-50; 27,3-10).

            Caminhando um pouco mais em nossa reflexão, desejo agora partir ao Século VI, quando Nosso Pai São Bento escreve a Santa Regra. Como sou beneditino, tenho que passar aquilo que a vida monástica me ensinou.

            São Bento quando inicia o Prólogo da Santa Regra escreve: “Obsculta, o fili, praecepta magistri, et inclina aurem cordis tui, et admonitionem pii patris libenter excipe et afficaciter conple, ut ad eum per oboedientiae laborem redeas, a quo per inoboedientiae desidiam recesseras”. (RB, Prólogo 1-2) – “Escuta, filho, os preceitos do Mestre, e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e excuta eficazmente o conselho de um bom pai, para que voltes, pelo labor da obediência, àquele de quem te afastaste pela dissidia da desobediência”.

            Como Moisés inicia a Torá com o “Shemá Yisrael” – São Bento inicia a Santa Regra com o “Escuta, filho”. Ambos chamando a Escutar, estar plenamente atentos ao que o Senhor irá falar. Ter a Deus com Um em nossa vida, e a Ele somente servir. Amar sobre todas as coisas e nada devendo antepor a esse Amor ao Senhor, a seu Filho Jesus e ao Espirito Santo.

            Como nos faz refletir a Santa Regra, a fé nasce em nós pela Escuta, tanto os monges como qualquer cristão devem escutar a Palavra de Deus e nela refletir, por isso, o silêncio é importante, deixar que a Palavra penetre em nosso coração, e assim atingir o Puritas Cordis (Pureza de Coração). Para atingir essa pureza, São Bento tem um capitulo especial, que seria o coração da Santa Regra, o Capitulo 07 – que trata da Humildade. Devemos sempre colocar-nos como discípulos, aqueles que escutam e obedecem. A Humildade é a condição sem a qual não acontece algo, sem ela não recebemos a graça e a santidade. Não somos mais que ninguém na vida, devemos seguir o grande exemplo de nosso Mestre Jesus: “Desse modo, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”. (Mt 20,28). Colocarmo-nos como discípulos, é sentarmos no banquinho para ouvir o Mestre, e sabermos o nosso lugar, sermos humildes é colocarmos a disposição do Espirito, oposta ao orgulho, a vaidade e a autossuficiência.

            Meus irmãos (as), poderíamos escreve um tratado ou falar horas sobre o “Escutar”, nem é nosso intuito fazê-lo, porém, que essa pequena reflexão nos leve a percebe, que apesar das tecnologias do mundo moderno, não devemos nos tornar escravos, viciados ou dependentes de WhatsAp, redes sociais e etc., mas devemos  parar para Escutar a Deus. Como citei acima no texto, quando elevamos nossa oração a Deus, desejamos que Ele nos escute, mas quantas vezes nos colocamos com humildade como discípulos, que desejam ouvir o que Deus quer nos falar. Devemos através de nossa oração, de nossa leitura continua da Sagrada Escritura, deixar Deus falar ao nosso coração. Escutar a Deus, também é escutar aos irmãos. Pois diz o mandamento: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. (Mt 22, 37-40). Se não somos abertos a escutar a Deus, seremos capazes de sermos abertos a escutar o próximo?

            Que possamos seguir o grande exemplo de Maria, Mãe de Jesus, ela que escutou o que o Anjo Gabriel lhe revelou, e prontamente acreditou e deixou que as maravilhas de Deus nela se operassem. Que possamos escutar o Senhor e deixar que suas maravilhas em nós se realizem. Que haja mais diálogos para assim acontecer mais escutas uns dos outros. Que não sejamos movidos pelas tecnologias, mas sim pela Palavra que nos salva e liberta, que nos faz caminhar para o Reino, para nosso grande retorno ao Pai.

Dom Paulo, OSB