As sete grandes antífonas do Advento: grito, expectativa e esperança! Manuel González López-Corps, Pbro. Tradução Dom Anselmo Giaretta Osb.

antífona. Esse elemento da oração, na tradição latina, contribui grandemente para a compreensão do salmo. De fato, a antífona, às vezes, deriva textualmente do salmo mostrando o tema geral ou, se for necessário, o que a Igreja quer privilegiar em um salmo ou cântico. Em muitos casos, a antífona é a chave de leitura cristã de um texto. Em tantas outras vezes, a antífona propõe o núcleo do mistério celebrado convertendo assim o salmo/cântico em um Na salmodia cristã, o canto dos salmos e dos cânticos vem precedido de uma espaço de contemplação. Tal é a sua importância que a Instrução Geral da Liturgia das Horas prevê que, caso se julgue oportuno, se repita a antífona ao término do salmo/cântico (n. 123) e, inclusive, se pode intercalar a antífona depois de cada estrofe (n. 114. 125). A Instrução pós-conciliar manifesta como se concedeu antífonas próprias aos salmos dos dias centrais do ano litúrgico, bem como as ferias1 privilegiadas dos dias compreendidos entre 17 e 24 de dezembro (n. 116). Nestes dias, o cântico evangélico das Vésperas possui algumas antífonas peculiares de cuja origem nos vamos ocupar.

Os dias privilegiados do Tempo do advento:

Se, na primeira parte do Advento, os textos apontam para a espera escatológica, dos dias 17 a 24 de dezembro, tudo aponta para a iminência da Natividade a partir de um caráter histórico-profético. A celebração do nascimento do Redentor acentua a esperança última da Igreja.

A vida litúrgica na Espanha, já desde o século IV, ressaltou esse tempo de maneira peculiar. Assim, o Concílio de Saragoça (380), em seu cânon IV, decreta: “ninguém falte à Igreja entre os dias 17 de dezembro até a Epifania…”2.

Posteriormente, no ano 656, o Concílio X de Toledo instituiria em nosso país (Espanha) a solenidade de Santa Maria, que seria celebrada oito dias antes do nascimento do Senhor, começando suas Vésperas em 17 de dezembro. É a grande festa mariana do Advento na Igreja visigótica, perpetuando-se na liturgia dos moçárabes3.

As antífonas dos dias privilegiados do Advento:

Os sete dias anteriores ao Natal se distinguem pelas características antífonas de Vésperas denominadas “Ó”; textos que emolduram o Magnificat e que começam pela admiração que lhes deu nome. Essas foram qualificadas como gritos ardentes pelo Messias esperado4. Essas peças, além de terem a mesma melodia5, estão compostas seguindo um idêntico esquema:

a) Invoca-se o Senhor Jesus, designando-lhe com um título.

b) O título, geralmente simbólico, se desenvolve em uma frase teológica.

c) A conclusão é sempre a súplica apressurada “vinde”, seguida de um pedido.

Em cada uma delas se descobre uma harmoniosa relação entre o título cristológico e o objeto próprio de cada pedido, bem como entre o louvor e a súplica que cada uma delas contém. No louvor, que é, ao mesmo tempo, uma exclamação ou invocação, o suplicante se dirige diretamente ao Redentor esperado com um título veterotestamentário que é explicitado com diferentes referências da Sagrada Escritura e que, por sua vez, revelam a identidade daquele que há de vir6. Na súplica se pede de diferentes maneiras que realize sua obra salvífica nos homens: ad docendum, ad redimendum, ad liberandum, educ vinctum, illumina, salva, ad salvandum. Como se fez notar, a conclusão, precedida sempre pela súplica “vinde”, expressa, com eloquência reiterada, os sentimentos mais profundos da Igreja neste tempo de Advento, uma vez que manifesta a convicção de sua esperança.

As sete antífonas estão escritas em 2° modo gregoriano e iniciam de maneira idêntica. Sua melodia traduz com sóbria beleza a veemência do desejo que se concentra no antigo grito de toda a Igreja vem! (1Cor 16, 22; Ap 22, 17.20).

Diálogo de Deus com seu povo na celebração da Igreja

Relacionadas diretamente com o grande acontecimento, apresentam diversos títulos cristológicos – são os apelativos dados ao Messias pelos profetas – acentuando aspectos da missão divina daquele que há de vir7.

Essas antífonas compõem em latim, com as iniciais lidas, do mistério à preparação – ou seja, do dia 23 aos 17 – o acróstico EROS CRAS (estarei amanhã); Emmanuel, Rex gentium, Oriens, Clavis David, Radix Iesse, Adonai, Sapientia. “Estarei amanhã” (ero cras), se interpreta como a resposta do Messias ao pedido dos fiéis que imploram insistentemente sua vinda (Cf. Ap 22, 20).

Essas antífonas, em número de sete e segundo a ordem atual, parecem ser de origem romana8. Alguns quiseram remontá-las a São Gregório (+604)9. No Liber Responsalis gregoriano, as antífonas, em número de oito10, estão listadas abaixo da rubrica: Antiphonæ majores in Evangelio11. Pelo poema do anglo-saxão Cynewulf12, sabemos que eram conhecidas na Inglaterra já no século VIII13. De todos os modos se encontram bem testemunhadas em Alcuíno (+804)14, Amalário (+ 850)15, e no Ordo Romano XI16 do começo do séc. XII e depois na maioria dos livros litúrgicos medievais17.

Na Alemanha e na França se acrescentará às sete antífonas originais18, uma à Maria “O Vírgo virginum”19 e outra ao Arcanjo Gabriel “O Gabriel”20. Ao cair, anteriormente, a festa do Apóstolo Tomé, em meio às ferias maiores, algumas Igrejas não hesitaram em acrescentar uma em sua honra “O Thomas Didyme”. Em outros lugares se chegou, inclusive, ao número simbólico de doze21 – pelos profetas que anunciaram a Cristo22 – com uma dedicada a Cristo “O Rex Pacifice”, outra mais à Virgem “O mundi Domina” e, finalmente, a última dirigida, a modo de apóstrofe, à Cidade Santa (modelo da liturgia da Igreja) “O Ierusalem”23. Sem dúvida, foi no século XII que as diversas tradições fixaram em sete antífonas, conservadas até os nossos dias. De fato, Honório de Autun, no final do séc. XI, tentava expor ao povo o aspecto pneumatológico da presença do Verbo na realidade de nossa carne, relacionando cada título com um dos sete dons do Espírito Santo24. Dessa forma relacionava o que nos vem com o espírito de sabedoria, com o título de Sapientia. O que nos concede o espírito de inteligência, com Adonai. O que nos concede pelo espírito de conselho, com Radix Iesse. Aquele que tem em suas mãos as chaves do céu e da terra, em espírito de fortaleza, com claves David. Aquele que nos ilumina com o espírito de ciência, com Oriens. O que salva todas as gentes com espírito de piedade, com Rex Gentium. E, por fim, o que vem em espírito de temor, para ensinar-nos o mandamento do amor, com Emmanuel.

Celebrações Solenes

Comumente, essas antífonas eram cantadas na oração vespertina, contudo, encontramos não poucos testemunhos que mostram sua introdução na oração matinal25. De fato, segundo um antigo antifonário romano publicado por Tomasi26, em Laudes [as antífonas] eram intercaladas entre os versículos do Benedictus desde a festa de São Nicolau (6 de dez.) até a festa de Santa Luzia (13 de dez.). Porém, na Alta Idade Média, prevaleceu seu uso em Vésperas27, porque foi, ao entardecer do mundo, vergente mundi vespere, que veio o Messias. As mesmas são cantadas precedendo e concluindo as palavras evangélicas de Nossa Senhora, ressaltando claramente, o que anuncia a antífona de Tércia, durante o Advento: “Os profetas anunciaram que o Salvador nasceria da Virgem Maria!”.

Da mesma forma, como ainda hoje, em alguns mosteiros, paróquias e catedrais, o canto destas antífonas do Ó era acompanhado de diversos costumes populares28 e, sobre tudo, de uma particular solenidade (entoação por ministros especiais29, uso de incenso, toque dos sinos, velas, ornamentos festivos, etc.). Além da repetição da antífona depois da doxologia, em alguns lugares, inclusive, se repetia o canto da antífona uma vez mais antes do Glória30. Mais que entoar a antífona se chegou a falar de triunphare antiphonam (ou seja, entoar triunfalmente).

Esta admiração diante do admirável intercâmbio de Deus, que vem para divinizar o homem, se prolonga durante o tempo do Natal: nas II Vésperas de 1° de Janeiro, oitava do Natal, se canta a belíssima antífona O admirabile commercium31.

Não é demais acrescentar que com uma antífona do Ó, (O Rex Gloriæ)32, cantada com a mesma melodia das que estamos vendo, também celebramos o mistério do começo da liturgia celeste: a Ascensão do Senhor33. É significativo que, nas celebrações pascais, haja uma relação tão expressiva entre as antífonas do Magnificat que pediam sua presença com as que acompanham seu retorno ao Pai34.

… até retonar.

As sete antífonas maiores proclamam com eloquência e beleza a espera da humanidade na salvação de Deus. Natal faz referência à Páscoa, o oitavo dia, em que Deus, “cumpriu as promessas feitas ao povo de Israel e realizou de modo inefável, a esperança das nações”35. Através delas, entramos no espírito da liturgia da Igreja que se dirige a seu Esposo (Ap 22, 17) e nela seguimos celebrando a vinda do Senhor; a memória de sua presença, cumprindo as profecias de Israel; e sua presença permanente na Igreja, até que venha glorioso do céu.

Tradução

Dom Anselmo Giaretta, OSB


1  Ferias ou dia ferial é o nome que, no calendário litúrgico – edição típica -, se dá aos dias que seguem o domingo em que não se comemora festa especial. Alguns dias durante o ano litúrgico são privilegiados, pois têm precedência a outras celebrações obrigatórias. É o caso dos dias entre 17 e 24 de dezembro, chamada semana do Ó ou das antífonas do Ó.

2  J. VIVES, Concílios visigóticos e hispano-romanos, Barcelona-Madrid 1963, 17.

3 As antífonas que estudamos não aparecem na liturgia dos visigodos. Atesta-se, contudo, na Igreja da Espanha, o costume, depois do Magnificat e na semana que precedia o Natal, de introduzir um grito de pedido, prolongando a interjeição Ó, sem outras palavras, como expressão do desejo ardente da vinda do Salvador e, às vezes, como admiração por sua presença (Septem O admirando potius queam vocando cantatur). O primeiro grito tinha lugar no dia de Santa Maria em dezembro que passou popularmente a denominar-se “Nossa Senhora do Ó”. Cf. H. THURSTON, The Great Antiphons, Heralds of Christmas, em the Month 498, dezembro 1905, 626.

4  Cf. D. DUFRASNE, Les sept derniers cris d’Advent, en L’Advent, le temps du long désir, Marne 1991, 157-183.

5 Cf. ANTIPHONALE MANOASTICUM PRO DIURNIS HORIS…, Paris-Tournai-Roma 1934, 208-211.

6  T. J. KNOBLACH,The “O” Antiphons, em Ephemerides Liturgicae 106 (1992) 177: Each one of the O antiphons focuses on a different Messianic title and forms a rich deposit Christology… The O antiphons present a picture of the identity of Christ that is a result of the great Christological investigations and theology the patristic age. They are fine example of the principle “Lex orandi, lex credendi”.

7 Sabedoria, Senhor e Pastor, Raiz de Jessé, Chave da casa de Davi e Cetro da casa de Israel, Sol e Resplendor da Luz eterna, Rei das nações, Desejado dos povos e Pedra Angular da Igreja, Emanuel, Rei e Legislador, Esperança das nações e Salvador dos povos.

8  Cf. A. NOCENT, El Año Litúrgico, Celebrar a Jesus cristo. I. Introducción y Adviento, Santander 1981, 150.

9  Cf. E. FLICOTEAUX, Fêtes de Gloire: Avent, Nöel, Epiphanie, Paris 1951, 62.

10  A oitava será O Virgo virginum da qual também faz menção Amalário (+ 850).

11 Cf. PL 78,732. Contudo, esta recompilação de origem galicana, a conhecemos somente por um manuscrito muito posterior ao papa Gregório.

12  O poema dedicado a Cristo e que reúne a temática das diversas antífonas, foi publicado em 1900 pelo professor da universidade de Yale, A.E. Cook.

13 Cf. E. FLICOTEAUX, Fêtes de Gloire…, 63.

14  CF. H. LECLERCQ, o (Antiennes), em DACL XII (1936) 1817-1819.

15 De antiphonis quæ in principio habent O (PL 105, 1265-1269).

16  Aqui, além das sete antífonas, aparecem outras antífonas do Ó, desde 6 de dez. até as vésperas do Natal.

17  Os antigos Missais de Sarum e York as iniciam em 16 de Dezembro. Também aparecem no Book of Common Prayer anglicano. Cf. H. THURSTON, The Great Antiphons…, 618.

18  Aparecem nos ritos locais de Arras, Autun, Colônia, Le Mans, Sens, Sienne, Tours, etc.

19  Nesta antífona tem lugar um diálogo entre Maria e as filhas de Jerusalém, o que faz desta antífona uma peça totalmente singular: “O Virgo virginum, quo modo fiet istud? Quia nec primam similem visa est Nec habere sequetem. Filiæ Jerusalem, quid me adiminamini? Divinum est mysterium quod cernitis.

20  O manuscrito da Bibliothèque Nationale de Paris, ms. Lat. 17436. O mesmo fenômeno novenário está testado em Lieja e em diversas dioceses alemãs. A antífona acrescentada às oito gregorianas pode ser: O summe artifex, O Sancte sanctorum, ou inclusive O pastor Israel. No simbolismo medieval o número nove fazia referência aos nove coros angélicos que se admiram ante a entrada do Verbo de Deus no mundo.

21  Assim aparece no manuscrito da biblioteca de San Gall ms. 390-391 e outros testemunhos que recolhe Martène em De antiq. Ecclesiæ ritibus, III, IV, c. X, 30.

22  CF. DURANDO DE MENDE, Rationale divinorum officiorum I, VI, II, 5. Esta quantidade [de 12] também recorda aos autores da Alta Idade Média a graça da Santíssima Trindade que se difunde nas quatro partes do mundo “três vezes quatro – doze”. (Cf. Sacramentarium 65 PL 172, 779, Gemma animæ III, 5 PL 172, 644).

23 Cf. P. GUERANGER, El año Litúrgico. I. Adviento y Natividad, Burgos 1954, 633. O texto destas antífonas, que se acrescentaram às sete, pode-se encontrar em um comentário no magnífico artigo de C. CALLEWAERT, De Groote Adventsantifonen O, em Liturgisch Tijdschrift, 2 (1911-1912) 1-13.

24 Gemma animæ III, 5 PL 172, 644).

25 Ordo Romanus XI, Cf. H. LECLERCQ, o (Antiennes)…, 1818.

26  Cf. H. LECLERCQ, o (Antiennes)…, 1817.

27 Ordo Romanus XIII, Cærimoniale Romanum Gregorii X.

28  Nos mosteiros e cabidos catedrais havia refeições especiais e festas particulares na semana das antífonas maiores. Temos diversos testemunhos, entre eles o de San Swinthun em Winchester ou o de Salisbury. O mesmo ocorria entre as monjas da Santa Cruz de Poitiers, que difundem o costume de degustar doces nestes dias.

29 Lista dos dignatários que nas catedrais de Rouen na Normandia o na abadia de Bury St. Edmunds na Inglaterra, que deviam entoar as diversas antífonas aprece em H. THURSTON, The Great Antiphons…, 628.

30 Assim aparece em Lyon e em Rouen. Segundo mostra Tomasi no Liber Responsalisdo séc. XI (Opera IV, 27) o mesmo fenômeno ocorria na Itália.

31 É lamentável na que na versão Espanhola da Liturgia das Horas se tenha retirado a interjeição Ó, que expressa a admiração ante o mistério e impedindo uma significativa relação da antífona das I vésperas da oitava de Natal com as da oitava preparatória.

32 Ó Rei da Glória, Senhor do universo, que hoje subis triunfante ao céu, não nos deixes órfão. Envia-nos do Pai a tua promessa, o Espírito da Verdade. Aleluia!

33 Cf. ANTIPHONALE MONASTICUM…, 512.

34 Na carta a Cuthwin, São Cutberto conta a morte de seu mestre São Beda (+735), e nela diz o monge inglês: “Era o dia da Ascensão, a hora de Véspera, querendo se unir ao ofício no momento de sua agonia, entoou a antífona do Magnificat: Ó Rex gloriæ”.

35 Prefácio da Anunciação do Senhor no Missal Romano.