A Vida Beneditina é fundamentalmente cenobítica. por ocasião da Solenidade de São Bento. por Dom Abade Andre Martins.

Caros Irmãos:

O ingresso no noviciado de um religioso pode ser realizado com um rito sumário, contendo apenas o essencial para que a Igreja o considere válido.

Poderíamos, tendo como testemunhas o Prior e o Subprior ou mesmo outros monges, convocar o postulante na abadia, perguntar-lhe se está disposto a iniciar o noviciado de livre e espontânea vontade, vesti-lo, ou então, propor-lhe endossar o hábito em sua cela. Entretanto, os monges, orientados pela palavra de São Bento, e este herdeiro de uma Tradição, sempre realizaram um rito de investidura de seu hábito monacal, todavia no momento de emitir os votos, conforme a Santa Regra: “Portanto, seja logo no oratório despojado das roupas seculares com que está vestido, e seja vestido com as roupas do mosteiro”. [1] Paulatinamente, os monges foram elaborando um rito próprio para esse momento da formação, o noviciado, tempo de preparação para a profissão monástica.

Salientamos, muitas vezes, em nossa comunidade o lugar aonde se realiza o rito da Investidura do Hábito Monástico: na Sala Capitular. Esta sala – afirmamos sem constrangimento algum – simboliza o útero da comunidade. É nesse lugar que se inicia a lenta gestação de um monge.

Por conseguinte, assim como o feto precisa da placenta da mãe para ser protegido, sobreviver e se desenvolver, analogamente, são os irmãos que constituem esse órgão imprescindível no processo de gestação de um futuro monge, que durante o rito permanecem nos bancos junto às paredes da sala. Devem proteger e auxiliar no desenvolvimento do jovem iniciante à vida beneditina. São chamados a sustentá-lo transmitindo-lhe o alimento da sabedoria evangélica e monástica, do conhecimento intelectual, do estímulo à responsabilidade na vida que abraçam, do amor à castidade e ao jejum,[2] do trabalho manual e fraterno nada diletante, da necessidade do equilíbrio entre solidão e comunhão, da vocação à oração pessoal e contínua, do alegre e generoso acolhimento de hóspedes e da vibração na liturgia, primeira forma de anúncio do Reino que uma comunidade beneditina realiza, ao celebrar o Ofício Divino solene e publicamente. Porém, se os irmãos se encontrarem espiritualmente doentes, e muitas vezes assim o estarão sob vários aspectos sendo a murmuração a mais comprometedora dentre eles tão condenada por São Bento, [3]com certeza, comprometerão a saúde espiritual daquele que está sendo gerado no seio da comunidade.

Outro aspecto que me chama à atenção é o cordão umbilical, que na criança tem a função de uni-la à placenta. Esta envia os nutrimentos necessários ao desenvolvimento do feto através desse órgão fundamental.

A partir dessa realidade entre mãe e filho, gerado em seu útero materno, parece-me interessante ressaltar: aquele que está sendo gerado no ventre de sua comunidade dever ter “seu cordão umbilical” ligado a essa comunidade. Não faz sentido buscar alimento alhures, nutrindo-se de outras espiritualidades estranhas a de seu mosteiro. Não quero dizer com isso que devamos ser refratários ao que poderá vir do exterior e de boa qualidade. Mas, o natural, o normal e o exigido será o formando se alimentar do que o mosteiro lhe oferece.

Essa reflexão que acabo de partilhar-lhes faz-me pensar numa realidade básica para um monge, que deve compreender e aceitar. Na vida monástica temos apenas uma mãe, a comunidade à qual estamos ligados pelo voto de estabilidade. Podemos ter “tias” – dispenso os comentários das “tias monásticas” – mas, mãe uma só. Se o monge não se considera e não se comporta como filho de sua comunidade, não considerará seus confrades como irmãos, então algo está muito errado e com sérias implicações em sua vida pessoal e fraterna.

A criança é alimentada e também recebe oxigênio através do cordão umbilical ligado à placenta.

Não tenhamos dúvidas, a comunidade como um todo é formadora. Todavia, cada monge que a compõe poderá asfixiar ou dificultar a oxigenação do noviço. Isso acontece de muitas formas, mas constato a mais contundente, isto é, aquela na qual o irmão mais velho toma o noviço para si, roubando-lhe o direito de ser da comunidade. A esse infeliz faltar-lhe-á oxigênio que provém de todos; estará, para seu próprio prejuízo, apenas respirando o ar do irmão que o mantém cativo. Isso é um desastre numa comunidade. Por conseguinte, um monge “problemático” poderá ter sido vítima desse período de formação inicial. Pensemos sobre isso. Os membros de uma comunidade devem ter consciência dessa responsabilidade para uma sadia gestação desse futuro monge.

Deus nos abençoe a todos!

Dom Abade Andre Martins Osb.


[1] RB 58,26

[2] RB 4,64, 13

[3] RB 5,14; 34,6, 41,5; 53,18;

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