Monastica › 11/02/2020

A clausura monástica

A clausura monástica / por Dom Anselmo Giaretta Osb

Todos os anos os mais variados grupos visitam os mosteiros espalhados pelo mundo afora solicitando explanações sobre a vida monástica ou levadas por simples curiosidade e tantos outros por suas celebrações litúrgicas; há ainda os que os buscam para alguns dias de retiro em suas hospedarias ou então na busca de aconselhamento. Todos eles, independentemente donde e para que vêm, deixam transparecer o fascínio, mesclado com a curiosidade e o desejo de entrar na clausura.  Muitos, ao ouvirem falar de vida monástica, são remetidos de certa forma à Idade Média, a algo distante e obscuro, secreto e cheio de segredos. A clausura do mosteiro, por conseguinte, tende a acentuar essa visão, uma vez que, sendo essa reservada aos monges e sendo, a ela, o acesso mui restrito, reproduz essa atmosfera de mistério.

Como introdução a essa reflexão deve-se ainda considerar que, se tantos têm esse vislumbre pela parte reservada do mosteiro, tantos outros reagem de maneira completamente inversa, manifestando um repúdio total a algo que possa “impedir” o livre contato com o mundo exterior. E se for um mosteiro feminino com grades na Igreja e nos parlatórios, minha nossa!, aí que piora mesmo. Em face a tudo isso, desejou-se escrever um pouco sobre o grande valor espiritual da clausura, escrevendo algumas linhas a respeito.

Para compreendê-la melhor, é necessário regressar às fontes do monaquismo cristão. Sabe-se que até o início do séc. IV o rebanho de Cristo era perseguido por causa de sua fé. O fato de ser cristão era motivo suficiente para ser morto. Por isso, somente os que tinham uma convicção forte o bastante, mantinham firme a esperança depositada no Senhor. Eram poucos os cristãos, porém a fé desses era espantosa. Era a época dos grandes mártires da Igreja que deram a vida por amor a Jesus. Com o advento do Edito de Milão em 313, e com a posterior fixação do cristianismo como religião oficial do Império (398), houveram muitas conversões, mas os “convertidos” não tinham verdadeira fé, era por puro interesse político.

É nesse contexto que “florescem” os desertos com mulheres e homens de todas as regiões da Europa e do Oriente cristão, que, já não podendo derramar o sangue por Cristo, partem para lugares inóspitos e isolados, para aí buscarem a santidade mediante a luta espiritual contra os demônios e por uma vida ascética, auxiliados tão-somente por Deus. Que desejavam? Entregar a vida por causa do Reino, testemunhando o Evangelho, vivendo-o e não falando. Se já não eram mortos por anunciar a Boa Nova, morriam para o mundo, para poder fazê-lo.

Inicialmente viviam completamente sozinhos, em grutas, no meio de desertos, por vezes, com um discípulo, mas, em geral, sozinhos, não obstante terem algum contato com outros monges e pessoas que os procuravam. Vagarosamente formaram-se comunidades monásticas que, embora tivessem vida comum, mantinham vivo o desejo ardente de anunciar Jesus por uma vida de solidão, de oração e de trabalho. Assim se vai formando o que se denomina clausura, ou seja, o espaço físico reservado unicamente para os monges.

Se no deserto a própria geografia facilitava o afastamento do mundo, fora dele, a clausura passa a proporcionar tal solidão. Para os monges, a clausura é o deserto onde se busca Deus e se batalha contra as tentações. Por conseguinte, a clausura se torna o ambiente natural para o monge cenobita viver sua vocação: o de atalaia.

São Bento, em sua Regra, vai instituir que: “Seja o mosteiro, se possível, construído de tal modo que todas as coisas necessárias, isto é, água, moinho, horta e os diversos ofícios, se exerçam dentro do mosteiro, para que não haja necessidade de os monges vaguearem fora, porque, de nenhum modo convém às suas almas” (RB 66, 6-7). A vida fora da clausura não proporciona ao monge o recolhimento interior, fazendo com que sua alma se disperse das coisas divinas e venha a cair em pecado. Nesse sentido, São Bento, ao afirmar que as saídas da clausura não fazem bem à alma do monge, institui uma cláusula pétrea para uma boa vida monástica, a separação do mundo, em grego, anacorese.

Há, igualmente, outro lugar do mosteiro, mais reservado ainda, que seria, por comparação, a gruta em meio ao deserto, isto é: a cela. Assim como cada um tinha sua gruta para viver a sós, também na vida monástica comunitária ou cenobítica, o monge tem sua “gruta”. Se a clausura é reservada somente aos monges, também a cela o é somente a seu habitante. Se a clausura é restrita, igualmente a cela será, ficando essa reservada unicamente ao irmão que aí reside. Por isso a cela (quarto) em que reside o cenobita, em nada tem a ver com um quarto como nas casas domésticas. A cela do monge, embora funcionalmente seja um quarto de dormir, deverá ser sempre um lugar sacro e que favoreça o recolhimento interior. A cela, por conseguinte, é um espaço sóbrio, com o mínimo necessário, com um espaço destinado à oração e ao estudo, para que o monge possa “habitar consigo mesmo” (cf. II Diálogos de São Gregório Magno Cap. III).

Os claustros do mosteiro são, por isso mesmo, construídos de maneira muito apropriada, sendo que suas laterais são fechadas, em geral por colunas, enquanto a parte superior é aberta, indicando justamente que se mantêm fechados para o mundo que os cercam, para que se abram ao infinito. O habitante do mosteiro, que, por incontáveis vezes, transita pelos claustros, terá, por conseguinte, diante dos olhos essa realidade, misteriosa, mas bem-aventurada.

São Bento prescreve aos seus monges três votos, sendo um deles o de estabilidade. Professando esse voto, o monge compromete-se a viver até o fim da vida em sua comunidade, ou seja, não mudar de mosteiro. Isso por que a transferência de um para outro poderá ser, desgraçadamente, uma fuga do religioso que, encontrando dificuldades em conformar sua vida ao Evangelho, e não conseguindo mudar os irmãos a seu gosto pessoal, foge para outro lugar. Assim, o voto impõe que permaneça no mesmo monastério que ingressou, para que, com as alegrias e dificuldades que aí se encontram, possa trilhar o caminho do bem. A clausura, naturalmente, ajuda o religioso a lembrar-se de que, são os claustros do mosteiro e a estabilidade na comunidade as oficinas onde se executam diligentemente os instrumentos das boas obras, pelos quais, se forem postos em ação, ser-se-á recompensado com aquele prêmio que o Senhor mesmo prometeu: a vida eterna. (Cf. RB 4, 75-78).

É preciso, no entanto, vigiar-se constantemente, pois a clausura física não é, não foi e não será a garantia de uma vida de santidade. A existência da clausura visa ser um instrumento a mais para se viver plenamente a vocação monástica.  Poderá, porém, ser mitigada a ponto de, na prática, já não existir. É por essa razão que, hodiernamente, faz-se profunda reflexão sobre os meios de comunicação social nos mosteiros, pois esses poderão ser, por exemplo, um meio evasivo da clausura. Longe do mundo, mas em contato com todos! São eles, os monges, no entanto, chamados a estar separados do mundo e a todos unidos, na oração.

A vida monástica não é um fim em si mesmo, senão uma escola para aprender a servir a Deus, cuja colação de grau se dará no céu. Por isso, a clausura que se quer é aquela que faz com que o coração fique totalmente preso, por “inenarrável doçura de amor” (RB Prol. 49), ao Senhor Jesus. A clausura física não é, por conseguinte, uma prisão, mas uma dilatação da alma, que capacita ver o mundo inteiro num só raio de sol, tal como, um dia viu, o Santo Pai Bento (Cf. II Diálogos de São Gregório Magno Cap. XXXV).

Recentemente, uma madre abadessa francesa, questionada sobre qual seria a diferença, na prática, entre um mosteiro e uma prisão, deu por resposta uma das mais belas definições da clausura, essa é nossa opinião, que já se ouviu. Disse ela: “Em um presídio facilmente se entra – basta cometermos um crime – mas, de lá, dificilmente se sai. Em um mosteiro, ao contrário, dificilmente se entra, mas com facilidade se sai – por que estamos livres”.

Deus nos abençoe a todos!

Dom Anselmo Giaretta, OSB