Artigos › 03/11/2017

Solenidade de todos os Santos/ D. João Batista

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

Conferência para a Comunidade

01-11-17

 

  1. Sentido Teológico da festa dos Santos.

 

O que significa celebrar uma festa litúrgica? Para falar sobre a Solenidade de Todos os Santos essa pergunta deve ser feita em primeiro lugar. Pois, para falar de uma festa litúrgica específica, é preciso primeiro compreender o que significa celebra uma festa litúrgica.

Para responder a esta pergunta, ninguém melhor do que Cipriano Vagaggini . Ele, expressando o que a Igreja ensina, diz que a Igreja celebra em sua liturgia tão somente o único Mistério de Cristo (Vagaggini, p. 172), que é o Filho eterno do Pai, que se fez carne no seio da Virgem Maria, nasceu, conviveu com os homens, nos salvou padecendo a morte, ressuscitando e subindo ao céu, enviou o Espírito Santo e voltará para concluir a história.

Porém, dada a nossa limitação, nós não podemos penetrar de uma só vez todo mistério de Cristo. Aliás, o mistério de Cristo é inesgotável, nunca o abarcaremos. Portanto, a Igreja nos apresenta o único mistério de Cristo de modo sucessivo, enfatizando diferentes aspectos deste único mistério (Vagaggini, p. 172). Isso significa celebrar uma festa litúrgica: colocar em relevo uma faceta, um aspecto, do único mistério de Cristo, de modo pedagógico, para nosso melhor aproveitamento.

Por isso a Igreja elaborou dois ciclos de celebrações (Vagaggini, p. 172): ciclo do tempo (advento, natal, quaresma, páscoa, tempo comum) e o ciclo dos santos: no ciclo dos santos, a Igreja celebra o mistério de Cristo fazendo memória daqueles que seguiram Jesus, configurados com Ele pelo batismo viveram sob a ação do Espírito Santo; A santidade de todos aqueles que a Igreja comemora no ano litúrgico é a santidade mesma de Cristo e de sua Esposa (Catellano, p. 327). Portanto, não se trata de dois ciclos distintos, mas, tanto no próprio do tempo como no próprio dos santos a Igreja celebra unicamente o mistério pascal de Cristo (Augé, p. 326).

Estes dois ciclos têm seu ponto culminante na celebração da Eucaristia. Na missa, sob o véu dos sinais sensíveis e eficazes, se concentram todas as fases do mistério de Cristo: o passado, o presente e o futuro. Em toda missa é o mistério total de Cristo que é celebrado (Vagaggini, p. 173).

Portanto, maravilha da Salvação que Cristo operou na história não está na liturgia como algo do passado, mas como uma realidade atual. A Glória futura e a liturgia da Jerusalém celeste também estão presentes pelos sinais litúrgicos, também como uma realidade atual (Vagaggini, p. 86).

Na liturgia o passado e o futuro são significados nos sinais litúrgicos como em um supra-temporal, acima do tempo. Toda a história da salvação, no seu passado e futuro se concentram no presente através dos sinais litúrgicos (Vagaggini, p. 86).

Portanto, a liturgia torna presente o mistério de nossa salvação que aconteceu na história definitivamente no mistério Pascal de Cristo; esse mistério, a paixão, morte e ressureição de Cristo, tem um efeito em nós, pelos sinais litúrgicos, portanto, as personagens da história da salvação somos nós, nós somos salvos. E a liturgia também antecipa a glória futura (Vagaggini, p. 87), e é isso que significa celebrar a festa de todos os santos.

A festa de todos os santos coloca em relevo os modelos da redenção de Cristo entre os homens e o aspecto escatológico do mistério de Cristo, a Jerusalém celeste, o termo último do mistério da salvação, do mistério da Igreja. Essa realidade já está presente sinteticamente em cada missa (Vagaggini, p. 174).  Ao celebrar os santos a Igreja reconhece e proclama a vitória do único Redentor e espera o pleno cumprimento da salvação em nós (Augé, p. 330), assim como os santos já estão em plena posse do dom da salvação.

A liturgia, principalmente a celebração da Eucaristia, é um lugar de encontro por excelência da Igreja peregrina com a Igreja purificante e triunfante. É na liturgia que se realiza a comunhão dos santos. Eles intercedem por nós e nós rendemos graças a Deus pelas maravilhas de salvação que realizou na vida dos santos. Quando a Igreja celebra os santos ela os propõem como exemplos para esse tempo em que esperamos um dia junto com eles desfrutarmos da glória da Jerusalém celeste e a eles realmente nos unimos na liturgia. (Vagaggini, p. 305).

Essa realidade de comunhão é atualizada (está presente em ato) na liturgia sob o véu dos sinais litúrgicos. A Solenidade de Todos os Santos concretiza de modo eficaz essa realidade: realidade de nossa união com os santos e a união de nossa liturgia com as multidões festivas dos bem-aventurados no céu. A nossa liturgia terrena é um início, um eco e uma sombra da liturgia que se realiza eternamente na Jerusalém celeste (Vagaggini, p. 305) . Na verdade, isso ocorre em toda a celebração litúrgica da Igreja, porém, porém, ela é enfatizada na solenidade de Todos os Santos.

Como fica bem claro na Anáfora eucarística quando fala de juntar nossas vozes a dos anjos e dos santos. Cito um único exemplo,  Prefácio da Páscoa I, dentre inúmeros que poderiam ser citados: Transbordando de alegria pascal, nós nos unimos aos anjos e santos, para celebrarmos a vossa glória, cantando a uma só voz. Essa união com os santos acontece de fato na liturgia, e juntos louvamos a Deus, pois somos uma só Igreja. Portanto, a liturgia que os anjos e os bem-aventurados realizam na Jerusalém do alto, dela tomamos parte na nossa liturgia terrena através dos sinais litúrgicos sensíveis, associando nosso hino ao dos bem-aventurados no céu.

Portanto, a liturgia da Igreja é uma semente que torna presente a realidade futura, e isso é colocado em relevo na solenidade de todos os Santos.

 

  1. Esboço Histórico 

 

A Solenidade de Todos Santos teve seu desenvolvimento histórico como todo as festas litúrgicas. Esta é uma das festas, por assim dizer, “importadas” do Oriente, onde ela nasceu e se concretizou.

A ideia de uma comemoração litúrgica coletiva de todos os santos mártires se fez presente principalmente em três lugares. Em Antioquia onde era celebrada no primeiro domingo depois de Pentecostes. Em Edessa, onde esta festa era celebrada no dia 13 de maio. E também Síria Oriental que a celebrava na sexta-feira da oitava de Páscoa.

Esta tríplice tradição oriental influenciou o Ocidente, principalmente a igreja de Roma, onde prevaleceu a data de 13 de maio. No século VII, precisamente em 609, o Papa Bonifácio IV escolheu esta data para transformar o edifício do Panteon  em uma basílica cristã. Neste dia, 13 de maio, Bonifácio IV depositou na basílica numerosas relíquias de mártires e a dedicou em honra de S. Maria ad Martyres. Esta solene dedicação era comemorada todos os anos com extraordinária afluência de peregrinos. O papa presidia a missa, durante a qual, se fazia cair da cúpula sobre os fiéis, uma chuva de flores e pétalas de rosas.

Mais tarde, em 714, o papa Gregório III deu mais um impulso ao culto de todos os santos (agora não apenas dos mártires) ao construir em São Pedro um oratório a todos os santos.

Foi o papa Gregório IV, em 835, que estabeleceu a data de 1 de novembro para a celebração de Todos os Santos e a estendeu por toda a Europa latina. A partir de então, Todos os Santos, que era uma festa local de Roma e de algumas igrejas particulares, tornou-se uma festa geral.

Não se sabe as razões que levaram Gregório IV a estabelecer a dada de 1 de novembro como dia da festa de Todos os Santos. O que se sabe é que na Irlanda, na Baviera e em algumas igrejas da Gália, por volta do ano 800, se celebrava no dia 1 de novembro uma festa chamada solenidade de todos os santos da Europa e era precedida por três dias de jejum. Sabe-se também que a afluência de peregrinos em Roma por ocasião de festa de 13 de maio era tão grande que o abastecimento dos cidadãos e dos peregrinos era cada vez mais difícil. Este teria sido o motivo pelo qual Gregório IV a transferiu para 1 de novembro depois da época das colheitas.

Atualmente, por motivos pastorais, quando o dia 1 de novembro ocorre durante a semana, a Solenidade de Todos os Santos é transferida para o Domingo seguinte.

  1. João Batista

 

 

Bibliografia

 

Augé, M. (2004). Liturgia. São Paulo: Ave Maria.

 

Catellano, J. (1994). El año litúrgico Memorial de Cristo e Mistagogia de la Iglesia. Barcelona: Biblioteca Litúrgica.

 

Righetti, M. (1955). Historia de la Liturgia I. Madid: BAC.

 

Vagaggini, C. (2009). O sentido teológico da liturgia. São Paulo: Loyola.