Artigos, Homilias › 15/06/2017

Solenidade de Corpus Christi Junho de 2017

 

Caríssimos Irmãos e Irmãs:

Temos, com muita frequência, insistido sobre a realidade do espaço eclesial que cada batizado ocupa na Igreja. Porém, não obstante lugares distintos, temos uma única vocação: o seguimento de Jesus Cristo, na diversidade de formas, determinada pelo  lugar onde nos encontramos.

Entretanto, não somos ilhas isoladas num oceano religioso. Há um momento e um lugar bem precisos onde temos todos o mesmo espaço eclesial para a vivência de nosso batismo: quando celebramos a liturgia, sobretudo a eucarística, cumprindo assim o mandato do Senhor antes de sua paixão: “Fazei isto em memoria de mim”

   Com efeito, a Igreja, fidelíssima ao mandato do Senhor, celebra a Liturgia Eucarística desde tempos apostólicos, iniciando-se com a reunião dos batizados num mesmo local, pois a palavra eucaristia, que significa “dar graças” é feita em assembleia – povo de Deus reunido – como o fêz sempre Israel.

Os renascidos das águas lustrais reunidos em assembleia, num pirmeiro momento, são alimentados em sua fé, com a Liturgia da Palavra. Terminada esta, professam juntos o Símbolo Apostólico, síntese das verdades da fé católica e, em seguida, erguem súplicas a Deus por Cristo no Espírito Santo, a chamada Oração Universal.

A segunda parte dessa liturgia é propriamente a eucarística. Começa com um diálogo entre o presidente da celebração e a assembleia, pois aquele que a preside, em nome de todo o povo, dá graças  ao Pai pela salvação operada por seu Filho no altar da cruz e atualizada pela força do Espírito presente na Igreja.

O diálogo se inicia: “O Senhor esteja convosco.” E a assembleia responde “E com teu espírito”.

Para dar graças a Deus Pai – oração realizada por Jesus na última Ceia utilizando a“berakah” judaica, que faz memória dos prodigíos de Deus, sobretudo do evento fundante da fé do povo eleito que é a páscoa – é necessário reconher que o Ressuscitado, pelo seu Espírito, está presente em cada um dos participantes. Depois, “Corações ao alto”; um convite para, naquele momento, migrar do imanenete para o transcendete, do profano para o sagrado. Por isso, todos respondem com a afirmação: “O nosso coração está em Deus”. Conclui-se o diálogo com o “Demos graças ao Senhor nosso Deus”, com a resposta “É nosso dever e nossa salvação”  Sim, todos estão cientes que dar graças é um dever, pois Deus nos criou para glorificá-Lo e tal ação, nos concede a salvação eterna.

A oração eucarística, o dar “graças a Deus”, é sempre dirigida ao Pai e no Ocidente a chamamos de Prefácio. Seu conteúdo está relacionado ao mistério que celebramos naquele dia.

Inserida nessa grande oração da Igreja, há o relato da instituçõa da eucaristia, que não só faz memória do gesto de Jesus na última Ceia, mas nos concede a transformação do pão e do vinho em seu Corpo e Sangue pela invocação do Espírito Santo. O mesmo Espírito que fecundou a Virgem para que o Verbo tomasse nossa carne, transforma as espécies do pão e do vinho em Corpo e Sangue do Senhor.

Ao final, o presidente ergue, não mais o pão e o vinho, mas o Corpo e o Sangue do Senhor, colocando-os diante dos olhos do Pai. Com esse gesto, a Igreja continua apresentando o sacrifício do Cristo de forma litúrgica e sacramental. Então, de suma importância, todos respondem “Amém”, ou seja, aceitam o sacrifício realizado. Aliás, quem não responde ao Amém não deveria comungar.

Tendo sobre o altar a presença real do Senhor, em sacramento, todos são convidados a participar do sacrifício, comungando o Corpo e bebendo o Sangue do Cristo, como Jesus desejou. Para esse momento, os fiéis são preparados com a oração da fraternidade, o Pai nosso, o abraço da paz e em seguida a Igreja, pelas mãos do ministro recebem o sacramento da salvação.

Enquanto há a distribuição da eucaristia, canta-se uma antífona, sempre um trecho da Palavra de Deus, para que haja a compreensão de que a Palavra se fez e se faz carne, agora, pelo Sacramento realizado.

Despedindo o povo, o celebrante principal convoca todos os batizados à missão de dialatar o Reino: “Ide em paz; o mesmo “Ide” de Jesus aos Apóstolos no dia de sua ascensão.

Eis a celebração que nos oferece o Sacramento que faz a Igreja, Sacramento do amor, Sacramento da unidade entre os fiéis.

Hoje, porque professamos a fé na presença real do Cristo nas espécies do pão eucaristizado, vamos levá-Lo solenemente em procissão pelo nosso claustro para tomarmos consciência de que somos peregrinos, sendo Ele próprio o verdadeiro maná descido do céu; penhor da vida eterna.

Há um costume, quase habitual em muitas celebrações, onde devotos tocam com as mãos o Santíssimo levado em procissão pela Igreja, antes de terminar o rito eucarístico; um gesto quase de desespero. Pergunto-me: qual a razão dessa atitude na qual as pessoas fazem-no com tanta devoção. Parece-me uma aberração litúrgica, pois o Senhor que está no ostensório está dentro de nós que o comungamos. Deveríamos tocar nosso peito, nosso coração; somos ostensórios vivos. O que devemos fazer é contemplá-lo e saber que o Senhor que adoramos está dentro de nós.

         A Igreja recomenda aos fiéis que façam um exame de consciência para comungar mais dignamente o Corpo do Senhor. Neste dia, proponho a todos um exame de consciência muito orientado. O Sacramento da Eucaristia é o Sacramento da Unidade. Por conseguinte, precisamos nos perguntar: do lugar onde me encontro em minha família, na Igreja, no Mosteiro gero divisões? Um gesto, uma palavra e atos que dividem uma comunidade de fiéis, criando discórdias e escândalos não provém, certamente, de um distraído.

Que o Senhor nos abençoe a todos!

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