Artigos, Monastica, Textos › 17/12/2018

Sob o olhar de um monge, o fenômeno atual e a cultura de Paz

Sob o olhar de um monge, o fenômeno atual e a cultura de Paz

As pressões sociais e econômicas que nos cercam por todos os lados levam-nos a confundir o que queremos com o que de fato necessitamos. As medidas usadas pela cultura para medir sucesso fazem-nos querer mais dinheiro, mais propriedades, mais poder, mais sucesso… com isso, o inconsciente coletivo ressona com o ritmo da publicidade do consumismo. A mídia nos encoraja a ter os mesmos pensamentos e opiniões. A produção em massa estimula nos a restringir nossa faixa de gostos, enquanto a publicidade de massa faz o que pode para promover o que são esses gostos limitados; é a cultura da moda. As pessoas estão “presas” em um banco de informações virtual, conectadas em redes sociais, salas de bate-papo e meios de comunicações que as conectam a um mundo de transferências de dados e as desconectam do real. O mundo e as pessoas passaram a ouvir, sentir, tocar e ver simplesmente por uma “tela”, onde eles não sabem sequer o que desejam, perdendo assim a liberdade e assumindo os valores e referências características da pós-modernidade: mudanças rápidas de conhecimentos pelo questionamento de valores, pelo fenômeno da globalização, pela confiança nos sistemas abstratos, pela obsolescência e descartabilidade de objetos, pessoas e relações, certo menosprezo pelo valor da vida. Fazemos parte de uma cultura que valoriza o consumo desenfreado de bens e até de relações, e que a exigência da perfeição do corpo humano, a beleza e a juventude, é valorizada como modelo de saúde, tornando o homem incapaz de lidar com a dor e sofrimento, com o envelhecimento e finitude. Vivemos numa sociedade urgente, rápida e ansiosa. O fenômeno atual do século é a chamada hiper construção de pensamentos: excesso de estímulos, atividades, brinquedos, propagandas, uso de Smartphone, videogames, TV e de informação escolar saturada. Nunca as pessoas tiveram uma mente tão agitada e estressada. Paciência e tolerância a contrariedades estão se tornando artigos de luxo. Quando o computador demora para iniciar, não poucos se irritam. Quando as pessoas não se dedicam a atividades interessantes, elas facilmente se angustiam. Raros são os que contemplam as flores nas praças ou se sentam para dialogar nas suas varandas ou sacadas. Estamos na era da indústria do entretenimento e, paradoxalmente, na era do tédio. É muito triste descobrir que grande parte dos seres humanos de todas as nações não sabe ficar só, se interiorizar, refletir sobre as nuances da existência, se curtir, ter um auto-diálogo. Essas pessoas conhecem muitos nas redes sociais, mas raramente conhecem alguém a fundo e, o que é pior, raramente conhecem a si mesmas e uma vez que damos prioridade a relacionamentos em “redes”, os quais podem ser tecidas ou desmanchadas com facilidade e sem que isso envolva nenhum contato além do virtual, não sabemos mais manter laços a longo prazo e isso é fatal para nossa capacidade de amar não apenas nas relações amoras e vínculos familiares mais também na nossa capacidade de lidar com a humanidade está prejudicada, desrespeitando a vida e a natureza. No campo da política, a tragédia está instalada. No palco, a “palhaçada” da corrupção e desonestidade toma conta da cena. A cada ano político, com seus discursos e promessas, percebemos que o roteiro é o mesmo, a piada não muda e o resultado do espetáculo continua na triste cena da realidade da vida: desigualdade social, aumento da violência, falência do sistema de saúde e educacional, desemprego, o descaso com a população, descompromisso com a verdade e a vida, o desrespeito com o meio ambiente … Porém, estamos bem próximo
de uma transição de governo em nosso país, por isto precisamos ser otimistas e não podemos perder a esperança. Mais uma vez vamos apostar nossas poucas fichas e fazer a nossa parte. De outro lado, grupos extremistas gritando por direitos insustentável, gastando tempo e desperdiçando energia e, muitas vezes usando de meios sem fundamento. Sem perceber, a sociedade moderna está adoecendo coletivamente. Crianças e adolescentes estão perdendo a ingenuidade, a criatividade, a capacidade de superação dos conflitos e de adaptação às adversidades. Alguns jovens só conseguem perceber algo errado em sua vida quando se tornam adultos frágeis, inseguros, dependentes, ansiosos, cujos sonhos foram enterrados nos becos da história. Alguns pais só conseguem perceber a crise familiar depois que suas relações com os filhos estão esfaceladas, sem respeito, afeto e amor. Alguns casais só percebem que sua relação está falida depois que vivem o desastre dos atritos. Alguns profissionais só conseguem perceber que não são produtivos, proativos, criativos depois que perderam o encanto pelo trabalho, quando estão na lama da frustração. Entretanto, muitas vezes, nosso corpo grita através de fadiga excessiva, insônia, compulsão, tristeza, dores musculares, dores de cabeça e outros sintomas psicossomáticos, e, mesmo assim, não procuramos ajuda. Para Viktor Frankl, “O típico paciente dos dias de hoje sofre… de uma abismal sensação de ausência de sentido. Dessa crise emergem os sintomas de tristeza, irritabilidade e melancolia. A tendência à depressão tem sido cada vez maior. Ouso dizer que nada no mundo contribui tão efetivamente para a sobrevivência, mesmo nas piores condições, como saber que a vida da gente tem um sentido”. Assim o homem contemporâneo vive a angustia de uma existência que já não tem sentido, que a nada conduz, levando-o a um extremo vazio! “O vazio existencial manifesta-se principalmente num estado de tédio, causando uma sensação de aborrecimento ou cansaço, muitas vezes sem causas objetivas claras”. (Victor Frankl) A única possibilidade para continuar a “viver” é por meio dos “refúgios ou compensações”. Quando se sentem vazias, as pessoas podem ir buscar alívio numa discoteca, no consumo de álcool e de drogas, exagero nas compras, na busca de prazer desenfreado, enchendo o tempo com atividades constantes para substituir o silêncio.: “esquecer, não querer mais pensar”. Além disso, deixam-se levar pelos acontecimentos sem saber o porquê, vivendo a inocência do animal, a fim de se libertarem do peso de um empenho consciente. Mas é improvável que esse tipo de reação satisfaça a necessidade do sentido, a integridade pessoal e necessidades em nível mais profundo. Vivemos a vida como se ela fosse interminável. Mas entre a meninice e a velhice há um pequeno intervalo de tempo. Para as pessoas superficiais, a rapidez da vida estimula a viver destrutivamente, sem pensar nas consequências dos seus comportamentos. Em quase todas as coisas perdemos a medida e constantemente temos a sensação de que o tempo foge de nós. Para os sábios, a brevidade da vida convida-os a valorizá-la como um diamante de inestimável valor e a Regra de São Bento com a Tradição dos monges antigos, nos aponta alguns aspectos de como podemos reaprender hoje viver comedidamente conosco mesmos, uns com os outros e com a natureza. São Bento nos dá um caminho interessante, que ele chama “discretio”, a virtude da moderação ou o dom do discernimento, mãe de todos as virtudes, que não se trata de apelos morais, mas de uma via que leva a promoção do respeito à vida. A “discretio” é a capacidade de discernimento na hora de tomar uma medida e estipular medidas, a consideração pelo ser humano e por sua índole, o ato de tomar medidas com ponderação.
Quando um ser humano aprende a se colocar no lugar do outro ele se torna um gênio na inteligência emocional e é uma boa forma de minimizar os fantasmas que criamos. A abertura do Eu para o amor gratuito, incondicional libera imensa força energética que faz explodir os estranhos “mecanismos de defesa”, ampliando o horizonte. Quando nos abrimos a esse amor, a esperança nos encoraja, rasga possibilidades, aumenta as forças, incentiva as energias, catalisa a capacidade, revitaliza o ânimo, fortalece o espírito de luta e termina por criar condições favoráveis ao bom resultado do empreendimento. O amor é capaz de nutrir e sustentar a construção de um mundo melhor. Uma estrutura organizacional, tal como exigida pela ética, pode ser um auxilio a fim de que as coisas dê certo. No entanto, podemos constatar que no crescente mundo “sem Deus”, a espiritualidade tem perdido sua força. Espiritualidade não é sentimento, ela é resultado de uma experiência de fé e que se traduz em atos concretos, por meio de mudanças de atitudes, valores e comportamentos, despertando em nós a honestidade, generosidade, solidariedade, compromisso com a verdade, senso de responsabilidade e justiça. Na pessoa de Jesus Cristo e suas ações podemos encontrar a capacidade de perdoar, respeitar, compreender mas, principalmente, foi brilhante na habilidade de amar e podemos citar alguns desses exemplos: a cena da mulher (Lc 7, 36,50) que se aproxima de Jesus enquanto está à mesa na casa de um fariseu é o macro perfeito destas capacidades. Jesus é objeto de crítica pelo legalismo dos fariseus, pois recebe cobradores de impostos e pecadores para ensiná-los e Zaqueu é uma das figuras que nos materializa esse contexto. Valorizar o homem é servir ao Reino, a causa de Deus. O homem está no centro Ele está acima das leis e das instituições. O sábado é feito para o homem e não o homem para o sábado. Jesus não foge das prostitutas, mas devolve-lhes a sua dignidade. Ele acolhe a adultera, passando por cima dos preceitos da época. A Parábola da moeda perdida, a moeda de pouco valor representa toda essa gente que os “bons” do judaísmo oficial vinham deixando se perder e que nem mesmo os preocupava. Na dinâmica do reino, essa moeda de pouco valor é na realidade o “tesouro” de Deus; encontra-lo é levar à realização a proposta de Deus encarnada no reino proposto por Jesus. No seguimento de Jesus Cristo temos alguns pontos importantes que, sem fé e confiança, o seguimento vacila perante os desafios e que o ímpeto da tormenta não é maior que Sua presença, Ele que é Senhor da vida.