Síntese histórica da Regra de São Bento

Síntese histórica da Regra de São Bento, por Ir. Daniel Sousa, OSB.

“Eis a lei sob a qual queres militar: se podes observá-la entra; mas se não podes sai livremente” (R.B. 58, 9)

São Bento, desejoso de viver somente para Deus, inicia seu caminho de conversão abandonando os estudos que iniciou em Roma. Refugia-se em Subiaco, onde inicia sua história monástica como eremita numa gruta, à estilo de Santo Antão; foi amparado por Romano, que guardando segredo, o revestiu com o hábito monástico e o auxiliou no que podia. Impelido pelo Espirito de Deus e influenciado pela grande afluência de discípulos, Bento funda mosteiros, entre eles a abadia de Monte Cassino. Estes mosteiros foram o primeiro espaço físico em que se colocou em prática a doutrina ascética proposta por este mestre venerável.

A regra de São Bento foi redigida dos anos 530, um ano após sua instalação em Monte Cassino, até sua morte (+547/560). A disposição dos capítulos da regra não segue um critério organizativo de um livro comum, mas surge como reflexo das experiências concretas de sua vida: a renúncia, ao deixar Roma e os estudos; os primeiros sinais do chamado de Deus em Enfide; sua purificação, vivida intensamente nos três anos que passou em Subiaco; sua experiência cenobítica, antes mesmo de chegar a Monte Cassino. Além do mais, entre os séculos V e VI, a sociedade civil encontrava-se perturbada pela queda do Império Romano e pela invasão dos novos povos. À luz do contexto geral da época compreendemos que a grande eloquência de São Bento se deve à ordinária intervenção de Deus que se faz atuante em todos os momentos da história.

As regras monásticas contêm em si valores comuns, pois compreendem uma mesma tradição. Entretanto, a regra de São Bento é caracterizada pelo notável aprimoramento dos valores recebidos, isso fez com que ganhasse um reconhecimento evidente em sua época. A linguagem e o estilo de São Bento são próprios de quem elaborou sua doutrina a partir das Sagradas Escrituras. Em seus ensinamentos está impresso um extraordinário discernimento que confere a regra um tom de moderação, um justo equilíbrio que tem como objetivo o respeito à individualidade de cada monge. Instrui seus monges a reconhecer em cada pessoa o Cristo, a enxergarem com os olhos da fé, o que chamamos em nosso mosteiro de visão sacramental. Trata-se de uma característica própria do cristão, onde o aspecto visível não basta para atingirmos o termo de nossa busca de Deus. É preciso estar aberto à graça de Deus que me fala de diferentes formas e em distintas faces. O conhecimento que Bento ensina nos setenta e três capítulos da regra é imagem de sua originalidade, de suas virtudes, de sua expressão moral.

Passados cinquenta anos da morte do santo monge as lembranças de suas exortações, dos milagres a ele atribuídos estavam ainda presentes na memória das pessoas, sobretudo na florescente Ordem religiosa por ele fundada. A tradição oral permitiu que Gregório Magno tomasse conhecimento da história e dos milagres de São Bento, e nos diz: “Foi de anciãos muito veneráveis que ouvi o que posso contar” ¹ . Assim surgiu a fonte mais importante da vida de São Bento, o segundo livro dos diálogos de São Gregório Magno, no qual dedica o capítulo de número trinta e seis a explanar brevemente a regra. Qualifica-a como: “Notável pelo espírito de discernimento e clara pela linguagem”. E afirma que “o santo homem de modo nenhum pôde ensinar outra coisa senão o que ele mesmo viveu” ².

A regra de São Bento teve grande dilatação com Bento de Aniano. Ao tornar-se abade do mosteiro de Saint-Seinne fez uma fundação devido à divergência de mentalidades entre ele e os monges. Até então seu mosteiro seguia as regras de Pacômio e Basílio. Em 787 torna a regra de São Bento como norma única do mosteiro, por aponta-la como a melhor de todas as regras. Grande número de mosteiros aderiu as suas concepções e Carlos Magno determina que os mosteiros da Aquitânia sigam a regra de São Bento. Bento de Aniano gozava de grande autoridade, inclusive o imperador o havia posto a frente de todos os mosteiros do reino.

Com a finalidade de por fim a uma degenerada forma de vida em alguns mosteiros e obter uma mesma profissão e um mesmo estilo de vida, através da sugestão de Bento de Aniano, o rei Ludovico Pio, no sínodo monástico de Aquisgrán (816-819), impõe a observância da regra de São Bento em todos os mosteiros do reino romano-germânico. Os mosteiros que não se sujeitassem à Regra de São Bento deveriam aderir à vida de cônegos regulares, pois ainda não havia ordens religiosas na Igreja.  Este foi o momento histórico em que a regra de São Bento teve grande expansão e colaborou imensamente, através do monaquismo, na evangelização da Europa.

O tempo cronológico não pode degradar aquilo que é considerado como valor. Não obstante a regra de São Bento ser datada do século VI, sua substância espiritual é atual e continua a ser alimento para os monges e monjas que militam sob ela. De fato, há pontos que não são observados – “ipse litteris” – pois estão condicionados pelo tempo, ou fazem parte da abertura dada por São Bento, como no capítulo dezoito ao referir-se à distribuição dos salmos. Mas a regra não pode deixar de ser um referencial.

Na história do monaquismo notamos inúmeros mosteiros que foram impedidos de viver valores inerentes à Tradição por imposições estatais. Cabe a cada mosteiro de nosso tempo, dentro da “liberdade religiosa” que é-nos dada, estimar os valores da santa regra e vive-los de acordo com cada realidade. Se houve algum declínio na qualidade de vida de determinados mosteiros é porque desviaram o olhar de elementos fundamentais, que são responsáveis pela eficácia da vida de uma comunidade monástica. O Opus Dei, a obediência, a anachorese, o discipulado, a lectio, o trabalho manual, a acolhida dos hóspedes e outros aspectos da regra são sempre atuais e possíveis de ser vividos.

Hodiernamente falando, o que rege os mosteiros de Tradição negra é os costumeiros; são eles muitas vezes escritos ou, simplesmente, fazem parte da vida prática da vida de uma comunidade. O costumeiro é a interpretação da regra de São Bento e da Tradição monástica, por parte do Abade e da comunidade orgânica. Um mosteiro do século XXI que deseja ser fiel à regra deve estar aberto à redescoberta de valores e observâncias, estar disponível à convicção da mortificação do homem de nosso tempo e abraçar com liberdade a conversatio que tem como finalidade a busca de Deus.

Notas:

1 – Prefácio de São Gregório Magno aos quatro livros dos diálogos, n°10.

2 – Livro II dos diálogos de São Gregório Magno, capítulo XXXVI.