Advento, Artigos › 21/12/2017

Reflexão dirigida à comunidade monástica/D. Anselmo

Reflexão dirigida à comunidade monástica aos

13 de dezembro de 2017

 

Meus caríssimos irmãos,

A existência dos Anjos, é uma verdade de fé da Igreja, na qual cremos e professamos no Símbolo Niceno-Constantinopolitano ao afirmar que Deus é criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; que, nesse particular, não se refere, absolutamente, embora faça alusão, aos microrganismos, também eles, naturalmente, criados.

Tais seres – os Anjos – dotados de inteligência e vontade, estão à serviço do Pai, seja para glorificá-Lo em sua Majestade, seja para servir-Lhe como mensageiros. Aliás sua denominação – Anjo – significa justamente mensageiro, logo, seu nome, deve-se à sua função e não à sua natureza.

Inúmeras são suas aparições na Sagrada Escritura, tanto no Antigo como no Novo Testamento, servindo, inclusive, de typós da Santíssima Trindade, quando, junto aos Carvalhos de Mambré, três deles apareceram a Abraão (Gn 18, 1ss).

Na liturgia do Advento, os Anjos, são assas realçados, devido às grandes “atividades” que tiveram na Encarnação do Verbo Divino, trazendo à luz a Luz da Luz.

Já o salmista havia dito: “Ele inclinou o céu e desceu, tendo aos pés uma nuvem escura; em seu voo [de descida] um Querubim o conduzia, sobre as asas do vento, Ele pairava” (Sl 17, 10-11). São eles, por conseguinte, criaturas maravilhosas que nos ajudam a percorrer e entender melhor o mistério do Natal.

A liturgia Siríaca, nesse aspecto, nos auxilia, pois que, nos seis domingos (e não quatro), por eles denominados domingos da Anunciação, por nós designado, Advento, detém-se na figura dos Anjos que anunciam ou revelam algo de tal mistério.

O primeiro domingo é dedicado a anunciação à Zacarias, manifestando claramente o poder de Deus, que jamais esquece seu Povo e cumpre todas as suas promessas. Poucos nascimentos, de fato, na Sagrada Escritura, são anunciados por Anjos: Isaac-Sansão (e outros no AT), João Batista (no limiar) e, por fim, Jesus. Aqui distinguimos claramente, aqueles que serviram de prefigurações do Verbo, o Precursor do Verbo e, por fim, o Verbo.

O segundo domingo é consagrado a anunciação à Virgem, celebrado por nós, a 25 de março. Eis aí o dia em que Aquele que criou o tempo, entra no tempo! inicia-se a Salvação, inicia-se a restauração do gênero humano, o retorno ao paraíso, ao estado Adâmico; eis aí o mistério da união da natureza divina com a natureza humana, na Pessoa do Verbo, aquilo que, na Teologia, denomina-se, união hipostática e que São Paulo consagrará como Kénosis, isto é, rebaixamento (Fp 2, 6).

No terceiro domingo, celebra-se a visitação da Virgem a Santa Isabel, para nós latinos, à 31 de maio. À pergunta da Virgem “como se dará isso?” (Lc 1, 34), o Anjo, após as devidas explicações, dá como sinal DO poder de Deus a gravidez de Isabel, igualmente milagroso. Assim, a visitação da Virgem à sua prima, põem em relevo a averiguação do milagre e a confirmação das palavras de Gabriel. Santo Efrém, em um de seus hinos, coloca em relevo a alegria do primeiro encontro entre Esposo e Amigo, quando diz: “Uma virgem grávida Deus, e uma estéril grávida de um virgem; o Filho da esterilidade exulta de alegria à gravidez da virgem”.

O nascimento de São João Batista, no quarto domingo, destina-se a fechar as portas da Antiga Lei e iniciar a Nova. O precursor foi anunciado pelo Anjo, o Esperado, também. O precursor “serve” àquele que, também é servido pelos Anjos. Lembremo-nos do ícone do batismo: João Batista de um lado, os Anjos de outro, sinal das duas naturezas e do serviço, prestado por ambos, ao Redentor.

O quinto domingo, conhecido por eles, como domingo do sonho, anuncia o sonho de José, trazendo à luz suas dúvidas, sua justiça, sua pureza e sua fé simples, sem grandes questionamentos. José só pôde ouvir e obedecer à voz do Anjo, por conservar seu sacratíssimo silêncio. (Ó Deus eterno e todo poderoso que nós monges possamos sempre fazer o silêncio de São José, simples e sem questionamentos, para não precisarmos fazer o silêncio de Zacarias. Amém!).

Por fim, o domingo destinado à genealogia de Jesus. Texto fastidioso e um tanto quanto pesado, revela-nos, no entanto, a ação de Deus na história, Ele que tudo governa, auxiliado por seus Anjos que anunciaram, em meio a tanta complicação – não por nada Israel é chamado: povo de cabeça dura – a vinda do Messias, filho de Davi.

Também a liturgia romana, que é a nossa, tão rica de detalhes, e que temos a honrosa oportunidade de celebrar integralmente, realça a figura dos Anjos nesse período de preparação. De uma maneira toda singular durante os dias que antecedem imediatamente à celebração do Natal, com as antífonas do Ó. Essa interjeição [“Ó!”] repleta de significados, de emoções, de sentimentos, que, se por um lado manifesta um apelo e um chamamento, por outro manifesta a estupefacta surpresa diante de grandes acontecimentos. Assim, se a vinda do Verbo foi um acontecimento estupendo, a Igreja reunida, apela tanto seu retorno na glória, como sua vinda no Hodie da Divina Liturgia.

Sabemos irmãos que os homens são chamados a realizar na terra a obra que os Anjos realizam no céu, isto é, louvar sem cessar a Deus. Esses homens, na verdade, formam o Corpo de Cristo: a Igreja! E ela, por seu turno, atualiza os mistérios salvíficos do Senhor no hoje da história. Assim, no tempo da Igreja ou no tempo do Espírito, que é o nosso, não são mais os Anjos que anunciam a vinda do Cristo ao mundo, mas, sim, a Esposa do Cordeiro que, em liturgia, atualiza os mistérios da Salvação.

Desse modo, no Ofício de Vésperas, cercado de singular solenidade e de importância, ao crepúsculo dos sete dias que antecedem a vinda do Salvador, porque foi, vergente mundi vespere, isto é, ao entardecer do mundo que veio o Messias, reunida na presença dos Anjos, como que, sentindo as dores do parto, a Igreja, aquela que espera a libertação, canta solenemente:

  1. Ó Sabedoria do Altíssimo, vinde!
  2. Ó Senhor de Israel, vinde!
  3. Ó Raiz de Jessé, vinde!
  4. Ó Chave da casa de Davi, vinde!
  5. Ó Sol nascente, vinde!
  6. Ó Rei dos povos, vinde!
  7. Ó Emanuel, vinde!

 

O Apocalipse de São João, caros irmãos, embora não estando classificado como livro profético, previu mui claramente quando escreveu: “O Espírito e a Esposa dizem Vem!” (Ap 22, 17).

Que a Virgem, Rainha dos Anjos, interceda por todos nós!

 

Dom Anselmo Giaretta, OSB