Artigos, Textos › 29/03/2018

Rancor/Por D. Mateus Osb.

RANCOR

 

Desde a queda original são inumeráveis as paixões desordenadas que podem paralisar a ascensão espiritual de uma pessoa que busca sinceramente a Deus. Um antigo monge do Egito, Evágrio Pôntico († 399), profundo conhecedor dos obscuros abismos do inconsciente humano – muitos séculos antes da psicologia moderna –, elencou oito “pensamentos” (em grego, loghismoi), que resumem todas paixões: a gula (gastrimarghía), a luxúria (pornéia), a avareza (philarghyría), a tristeza (lýpe), a cólera (orghé), a acédia (akedía), a vanglória (kenodoxía) e o orgulho (hyperephanía). Há uma concatenação entre os pensamentos: quando se acolhe voluntariamente um, este já leva ao seguinte e assim por diante, até o último, o orgulho, que é o pior de todos. Longe, porém, do moralismo ocidental que transformou os pensamentos em pecados – os célebres “sete pecados capitais” (unindo-se a vanglória e o orgulho no pecado da soberba, o número foi reduzido a sete) –, Evágrio distingue com clareza: “Que todos esses pensamentos perturbem a alma ou não a perturbem, isso não depende de nós; mas que eles se demorem ou não se demorem, que eles desencadeiem as paixões ou que não as desencadeiem, isso depende de nós”[1]. Assim, podemos dizer que não há pecado em sentir, mas em consentir em uma paixão desordenada; não na sugestão de um “pensamento”, mas em seu acolhimento voluntário. Ou seja, não há pecado na tentação – até Jesus foi tentado –, mas em ceder a ela. Daí a súplica que fazemos na oração que o Senhor nos ensinou: “não nos deixeis cair em tentação”.

E a paixão do rancor, onde se encaixa nesse elenco dos loghismoi? O rancor (mnesikakía) é uma das multíplices manifestações da cólera. Tal como um intenso braseiro ardendo sob as cinzas, é uma cólera (ou ira) interiorizada e escondida, estável, alimentada e “ruminada”, que aumenta de intensidade cada vez que se lembra de sua causa – é uma cólera que veio para ficar. Sob a forma de rancor, o loghismós da cólera pretende ser uma expressão da virtude da justiça (por conseguinte, algo bom), na expectativa de que a “punição”, ou seja, a desgraça da pessoa que o suscitou, aplaque e extinga essa paixão corrosiva da alma. “Um tribunal se estabelece em nosso espírito, onde somos procurador, presidente, juiz e jurado; raramente advogado a não ser em causa própria. Expõem-se os erros; pesam-se as razões; pleiteia-se; justifica-se; condena-se o ausente. Talvez elaborem-se planos de desforra, ou intrigas vingativas”[2]. Com a demora da consumação do castigo, essa ideia de vingança – justiça pelas próprias mãos – pode se exacerbar. Não raramente o “réu” é inclusive um defunto já falecido há muitos anos, mas que continua bem vivo e atuante na memória e na emoção do rancoroso. Além disso, esses “culpados” vão se amontoando sem cessar ao longo dos anos, até, por vezes, formarem uma enorme multidão, azucrinando cada vez mais o infeliz que acolheu e acalentou esse loghismós, deixando-se aprisionar por ele. Cumpre notar que não raramente os traumas causadores do rancor são objetivos, reais, não imaginários – o rancoroso pode, de fato, ter sido severamente machucado por traições terríveis, decepções angustiantes, tristes desilusões afetivas, rejeições ou agressões de todo tipo, intencionais ou não. O problema é que essas chagas permanecem abertas e doloridas, não fecham mais, e são sempre cutucadas e revividas, impedindo a cicatrização e fazendo com que o desgosto sofrido produza o ressentimento (“sentir de novo”), com sua típica sensação de impotência amarga diante da dor – com efeito, alguém disse, com razão, que “guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que outra pessoa morra”. O ressentimento, por sua vez, rememorando continuamente as injúrias, “se instala” na alma e evolui até se tornar rancor. O rancor é o ressentimento perpetuado.

Paradoxalmente, apesar de ser um sentimento extremamente desagradável, o rancor proporciona uma espécie de prazer – se não o fizesse, não existiriam rancorosos. É o que ensina São João Clímaco († cerca de 649) em sua famosa Escada do Paraíso: o rancor, diz ele, “é uma dor sensível e penetrante que é amada por causa da doçura que se encontra no próprio azedume da cólera”[3].

“Não se ponha o sol sobre o vosso ressentimento”, ordena a Palavra de Deus (Ef 2,26). Você não consegue praticar esse mandamento? “Virou a cara” para alguém? A lembrança de determinada pessoa azeda o seu dia? Seus ofensores povoam sua memória e, dia e noite, você discute acerbamente com eles, despejando uma torrente de “verdades” que eles não gostariam de ouvir? Essa situação perdura por semanas, meses ou anos a fio? Bem, este é um sintoma inequívoco de que você se tornou presa do rancor, fruto de um outro loghismós, a tristeza. Ou, pensando melhor, não será o contrário? Não será justamente o rancor que leva à tristeza? É interessante constatar que João Cassiano († cerca de 432-435), o monge latino que trouxe para o Ocidente a doutrina e o ideal do monaquismo do deserto egípcio, ao tratar dos loghismoi segue Evágrio muito de perto, quase literalmente, mas aqui, curiosamente, muda a ordem: para ele, a cólera antecede a tristeza ao invés de sucedê-la[4]. Experiência própria? Isso não importa muito: de certa forma, o rancor é uma “cólera triste” tanto quanto uma “tristeza colérica”. Realmente, escreve São Máximo, o Confessor († 662): “A tristeza e o rancor vão juntos. Se o espírito sente tristeza ao representar o rosto de um irmão, é evidente que guarda rancor contra ele”[5].

Em todas as suas vítimas, mas especialmente naquelas que têm o temperamento irascível ou melancólico (que, aliás, podem se somar), o rancor é uma doença espiritual de cura demorada, que exige empenho e perseverança na terapia – sim, há uma terapia e há uma cura, e é preciso acreditar nelas para que se efetivem. É o que ensina São Cirilo de Jerusalém († 387), dirigindo-se aos catecúmenos: “Não ultrapassam teus ferimentos a experiência do sumo médico. Entrega-te tão-somente com fé. Mostra ao médico tua doença”[6]. Assim, antes de tudo, é preciso crer que a cura de uma enfermidade espiritual é primordialmente um dom gratuito de Deus, não o resultado do esforço humano ou de alguma técnica psicossomática. Por isso é necessário pedir insistentemente ao Senhor essa graça e abrir o coração para recebê-la com humilde docilidade: “Cura-me, Senhor, e serei curado, salva-me e serei salvo” (Jr 17,14). Qualquer cura vem do Pai, por meio de Jesus Cristo – pois “pelas suas chagas veio a cura para nós” (Is 53,5; cf. 1Pd 2,24) –, pelo poder do Espírito Santo. Dito isto, é fundamental, por outro lado, que o enfermo empreenda um diligente e perseverante esforço, que consiste na sinergia, na colaboração, na cooperação com o Médico divino, a fim de cumprir o mandamento da Escritura: “Não te vingarás e não guardarás rancor contra os filhos do teu povo” (Lv 19,18). “Se o médico, a medicina, os remédios, têm por auxiliar a vontade do doente, eles triunfam sobre a doença”, afirma São João Crisóstomo († 407)[7]. Podemos enumerar algumas dessas práticas terapêuticas:

1) Silenciar é fundamental, pois o ato de falar de alguém que nos magoou agrava a irritação. Se nos calamos, porém, o autodomínio é mais facilmente conservado. É o que ensina ainda São João Clímaco: “O começo da vitória sobre a cólera é o silêncio dos lábios quando o coração está agitado”[8].

2) A mansidão é um remédio eficaz contra a cólera, mesmo quando esta se apresenta sob a forma de rancor, pois é a virtude que lhe é contrária. Mas como adquiri-la? São Francisco de Sales († 1622), um especialista no assunto, ensina que a própria prece dirigida a Deus para que conceda essa graça deve ser feita com tranquilidade: “Advirto-te que faças essa oração com uma suave atenção e não com um esforço violento do espírito; esta é a regra geral que se deve observar em todos os remédios contra a cólera”[9]. O santo bispo de Genebra recomenda em seguida que as faltas cometidas pela cólera sejam logo reparadas por atos de brandura para com a pessoa ofendida, pois “as feridas recentes são, como se afirma sempre, mais fáceis de curar do que as antigas”[10]. Efetivamente, a caridade tem grande poder curativo, pois “nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor” (1Cor 13,5). E é um bálsamo para a alma a invocação incessante: Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso.

3) Oração por aqueles que nos magoaram: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,44). É precisamente este tratamento evangélico que é recomendado por um grande mestre espiritual do século VI, São Doroteu de Gaza, para eliminar até mesmo a cicatriz deixada pela ferida do rancor: “Como podemos aí chegar? Rezando de todo o coração por aquele que nos fez sofrer e dizendo: ‘Ó Deus, socorre meu irmão e a mim por suas orações!’ Desse modo, um, por um lado, reza por seu irmão –, o que é um testemunho de compaixão e caridade – e por outro, humilha-se, pedindo auxílio pelas orações desse irmão. Ora, onde se encontram compaixão, caridade e humildade, como poderiam prevalecer a cólera, o rancor ou qualquer outra paixão?”[11]. Assim, o ofensor é retirado da cadeira dos réus e conduzido pelo próprio ofendido aos pés do Crucificado. Lá, ambos se refugiam e se unem à súplica do Senhor: “Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Consequentemente, o “tribunal” é desmantelado e, sem delongas, o “juiz”, o “promotor”, os “jurados” e, quem sabe, até um eventual “carrasco” são despedidos. Depois disso, o “culpado”, logo que surge na memória, passa a ser visto não mais com os olhos simplesmente humanos da “vítima”, mas com os olhos misericordiosos e compassivos de Deus.

4) Perdão. O rancor não sabe perdoar. Muitos se queixam que são incapazes de perdoar porque não conseguem esquecer. Ora, perdoar não é esquecer – isso é impossível –, mas é relevar a ofensa recebida, é desculpá-la (“tirar a culpa”), o que é feito por um ato de vontade. É o que Deus faz conosco através da redenção operada por Cristo: “Ele nos perdoou todas as nossas faltas: apagou, em detrimento das ordens legais, o título de dívida que existia contra nós; e o suprimiu, pregando-o na cruz” (Cl 2,13-14). Se Deus fosse rancoroso, o que seria de nós? Portanto, somos, sim, capazes de perdoar o próximo porque nós mesmos somos cotidianamente perdoados por Deus. Aliás, o perdão divino é condicionado pelo nosso, conforme a oração ensinada por Jesus: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Segundo o mártir São Cipriano († 258), “não podemos conseguir o que pedimos para os nossos pecados, se não fizermos o mesmo em relação aos nossos devedores”[12]. Muito difícil, na prática? Sem dúvida! Mas, felizmente, torna-se mais fácil perdoar quando nos damos conta de que nós mesmos, com certeza, também estamos sentados no banco dos réus em outros tantos “tribunais” por aí afora, pois igualmente ofendemos numerosas pessoas, quiçá com gravidade. Se reconhecemos com franqueza nossas próprias faltas, é menos penoso perdoar as dos outros. A Imitação de Cristo aconselha: “Procura sofrer com paciência os defeitos e quaisquer imperfeições dos outros, pois tens também muitas que os outros têm de aturar. Se não te podes modificar como desejas, como pretendes ajeitar os outros à medida de teus desejos?”[13].

5) Reconciliação. O momento por excelência para dar e receber o perdão é durante a celebração eucarística, antes da comunhão, no ósculo da paz, cujo sentido é explicado por São Cirilo de Jerusalém, falando agora aos recém-batizados: “Não suponhas que este ósculo seja como os que os amigos íntimos se dão na praça pública. Este ósculo não é assim. Mas este ósculo une as almas entre si e é para elas penhor de esquecimento de todos os ressentimentos. É sinal de que as almas se unem e afastam toda lembrança de toda injúria”[14]. Quem recusa a reconciliação não deveria receber a comunhão – algo que o autor da Didaqué (século I) considera um verdadeiro sacrilégio: “Todo aquele que vive em discórdia com o outro não se junte a vós antes de se ter reconciliado, a fim de que o vosso sacrifício não seja profanado”[15]. João Mosco († 634) conta uma historinha de um santo monge da Tebaida (Egito), Aba Isaac, que havia comungado por três domingos seguidos sem se reconciliar com um irmão com quem se desentendera. Enquanto tentava, em vão, corrigir um erro em seu trabalho manual, um “menino” apareceu em sua janela e lhe disse: “Eu sou o demônio do rancor, e agora tu és meu!” [16]. Isaac, então, deixou imediatamente a sua cela, ajoelhou-se diante daquele irmão, pediu-lhe perdão e restabeleceram a paz. Mas…, e se “o outro” não quiser a reconciliação? Afinal, é óbvio que esta não pode ocorrer plenamente senão mediante o consentimento mútuo daqueles que romperam entre si os laços do amor. Diante, porém, da recusa de um, o outro poderá se reconciliar interiormente com ele diante de Deus, que conhece os corações e, assim, livrar-se de culpa. Cristo ama um e outro, infinitamente.

Embora aparentemente seja “justo”, o rancor não provém de Deus, mas do Maligno. De alguma maneira, é o demônio que faz você relembrar com amargura as ofensas que sofreu ao longo da vida. O “príncipe deste mundo” procura inserir-se sorrateiramente em sua memória, sem que você perceba, a fim de dominá-lo, afligi-lo, infernizá-lo. Não lhe dê atenção. Unindo-se a Jesus, expulse-o impiedosamente: “Vai-te, Satanás!” (Mt 4,10). Dirija contra ele, energicamente, a única cólera que é “boa”, isto é, aquela ira que não é voltada contra o próximo, mas contra o “pai da mentira”, contra o Inimigo primordial: “Se Eva tivesse se encolerizado contra a serpente, ela não teria sido dominada por esse prazer passional”, observa o santo bispo Diádoco de Fótice († cerca de 474)[17]. Feito isto, invocando com fé a intercessão dos anjos e dos santos – seus amigos e protetores –, recorrendo principalmente à Santíssima Virgem, “Causa de nossa alegria”, peça fervorosamente ao Senhor que lhe dissipe inteiramente o rancor e “nos conduza juntos à vida eterna”[18]. “Ele é a nossa paz” (Ef 2,

 

 

 

[1] Tratado Prático 6.

[2] Dom E. Chenevière, OCSO, As portas do silêncio, trad. do Carmelo da Sta. Face, Mairinque, SP.

[3] Escada do Paraíso 9,2.

[4] Cf. Instituições 8-9.

[5] Centúrias sobre a caridade 3,89.

[6] Catequeses pré-batismais 2,6; trad. de Frei Frederico Vier, OFM.

[7] Explicação dos Salmos 6,3.

[8] Escada do Paraíso 8,4.

[9] Filoteia ou Introdução à vida devota 3,8; trad, de Frei João José P. de Castro, OFM.

[10] Idem.

[11] Instruções 8,94; trad. das monjas beneditinas do Mosteiro da Santa Cruz, Juiz de Fora, MG.

[12] A Oração do Senhor 23; trad. de Dom Timóteo Amoroso Anastácio, OSB.

[13] Imitação de Cristo 1,16,2; trad. de Frei Tomás Borgmeier, OFM.

[14] Catequeses Mistagógicas 5,3; trad. de Fr. Frederico Vier, OFM.

[15] Didaqué 14; trad. de Urbano Zilles.

[16] Prado espiritual 161.

[17] Centúria 62

[18] Regra de São Bento 72,12.