Artigos, Textos › 21/06/2018

“Por que este medo, gente de pouca fé?” Ir. Eduardo.Osb

“A fé é uma reflexão que acompanha

 a docilidade” (Santo Agostinho)

 

São Mateus, no capitulo 8, 18-22, relata o chamado dos primeiros discípulos com tônica forte e direta: “Segue-me”. Porém, esse seguimento de Jesus traz consigo condições que vão dando direção a esse caminho: a disponibilidade para a missão e o risco de uma vida completamente livre de qualquer apoio ou segurança.

Logo após a esse chamado e adesão dos discípulos ao seguimento de Jesus, confrontamos com um relato muito interessante que ilustra de forma bem concreta o tema do seguimento, a passagem bíblica “Tempestade acalmada”(Mt 8,23-27). Tal imagem nos coloca diante do olhar uma realidade transmitida por Mateus aos seguidores de Jesus ao embarcarem rumo à missão e destino daquele que os chamou, indicando pontos importantes que, sem fé e confiança, o seguimento vacila perante os desafios e que o ímpeto da tormenta não é maior que a presença de Jesus; porém, o medo nos deixa cegos diante dessa realidade. A barca é o símbolo da Igreja, a comunidade que estaremos em comunhão nesta caminhada rumo a Jerusalém do Alto.

A fé não é um sentimento, uma sensação ou uma emoção nem tão pouco uma opinião individual. A fé é uma adesão pessoal do Homem a Deus e Suas revelações, uma resposta livre dele à iniciativa de Deus que se revela, no entanto não como um ato isolado. A fé é simultaneamente um dom e uma virtude ou, em outros termos é ao mesmo tempo um ato da graça e um ato humano. Por isso, é preciso, no primeiro instante, que o Homem também seja dócil para acolher as verdades de fé, a fim de que o intelecto possa abrir-se a essas verdades transcendentes ao inteligível.

E aqui encontramos três fortes inimigos da fé: o apego exagerado ao conhecimento natural, o medo e a dúvida. O apego ao conhecimento natural entrava a ação da fé e impede de crer na sua eficácia, já que isso pode prender o homem a seus raciocínios lógicos. O medo enfraquece a fé e priva o Homem de seus frutos, e a dúvida equivale a não crer nas promessas de Deus. É a dúvida que gera o medo; esse é o começo do enfraquecimento da confiança em Deus, e o medo que a segue é o total enfraquecimento de Deus.

Para os judeus, o mar era lugar da morada dos monstros e dos poderes da morte e forças do mal, onde a frágil vida do Homem estava em constante perigo; era um lugar que causava medo. A tempestade era típica daquela região. Porém, a situação meteorológica que coloca em perigo a vida dos discípulos, percebe-se nas palavras de Jesus Cristo o medo dos discípulos associado à falta de confiança: “Por que este medo, gente de pouca fé?”(Mt 8, 26). Tudo isso se torna grande obstáculo no seguimento e perseverança nos dias de hoje. Muitas das vezes somos como os discípulos que, no meio das provações, olvidamos quem é o Senhor da Vida ou temos a sensação de que Jesus “dorme”, ou seja, que Ele não está atendo à nossa luta ou dificuldade. Jesus acorda, senão por causa da tempestade, mas por causa do medo dos discípulos.

Medo é o sentimento de ser intimidado ou levado a sentir-se inseguro a respeito de uma situação, emoção ou de um objeto e três causas principais são:1-Medo das percepções de outras pessoas. A maioria das pessoas se preocupa a respeito do que as outras pensam delas; 2- Medo de danos físicos. A ameaça de danos físicos pode ser suficiente para nos debilitar e fazer com que evitemos certas situações como ato de autopreservação; 3- Medo do malogro e também de atingir nosso potencial. Muitos acreditam que a maior causa de medo é a possibilidade de fracasso; igualmente o medo do sucesso desempenha papel idêntico.

O medo pode ser, até certo ponto, positivo porque nos nos ajuda a conhecer nossas limitações e garante que ajamos com alguma restrição. Todavia o medo é fundamental para a vida já que, diante do desconhecido, chega até a ter função estimulante, lançando adrenalina nas veias e excita a capacidade orgânica; medo é sinal de vida. Por outro lado, o medo altera a maneira pela qual vemos a realidade, podendo fazer com que esse indivíduo paralise ante uma situação que lhe causa esse sentimento. O medo, enquanto algo negativo em nossa vida, pode transformar-se em desespero, o que nos tira a lucidez, a capacidade de reflexão e afasta-nos da fé tirando-nos a esperança. O desespero é a realidade do orgulho insensato e obstinado. A prova está no fato de que aquele que se entrega ao desespero prefere incorrer numa condenação eterna seguindo o seu propósito com orgulho e obstinação, a submeter-se a Deus, com humildade e abandono, acolhendo de suas mãos as doçuras e amarguras da vida.

O Homem contemporâneo não sabe para onde se dirige, navega à deriva e, por essa razão, está incapacitado para as tormentas da vida: sofrimento, dor, doença, fracassos, contrariedades, perda de beleza, sintomas de velhice e, em ultima instância, a morte. Falta-lhe um sentido fundamental para a vida e para a morte.

Quatro pilares fundamentais para superar o medo:

  1. Aceitar-se a si mesmo: Não se supera o que não se reconhece. No monaquismo, o processo de amadurecimento passa pelo caminho do encontro consigo mesmo. Por outro lado, quem não se aceita, nunca, nunca terá a paz que dá a unidade interior, estará sempre em conflito consigo mesmo. No campo da batalha da sua consciência, irão digladiar-se permanentemente o Homem o que ele é na realidade e o homem que ele imagina ou finge ser. Esta aceitação serena da realidade leva-nos ao encontro das nossas limitações humanas;
  2. Perder o medo de errar: Quando tomamos consciência das limitações, conseguimos transformar o fracasso em terra fértil para novo desafio.
  3. Confiar em Deus: A nossa fraqueza pede a fortaleza de Deus. O Apostolo Paulo já dizia: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13). A tempestade apavora com todas as manifestações de insegurança. Quanto mais a pessoa perde Deus de vista, mais medos irão assaltá-la. Esses sentimentos surge quando o Homem não encontra os elementos necessários para defender a sua frágil vulnerabilidade, e é nesse momento que a fé consegue diminuir a força de todos os medos e proporcionar uma confiança em Deus;
  4. Abrir-se aos outros:A abertura do Eu para o amor gratuito, incondicional libera imensa força energética que faz explodir os estranhos “mecanismos de defesa”, ampliando o horizonte. E isso implica um “esvaziamento” de si próprio por um motivo superior: o amor.

A afirmação “Deus é amor” (1Jo 4,8) não é uma definição puramente abstrata da essência divina, mas trata-se prioritariamente da revelação que Deus fez de Si mesmo ao longo da história e que culmina em Jesus Cristo, a própria fonte de agua viva que brotou do seu lado direito, na Cruz.

Quando nos abrimos a esse amor, a esperança nos encoraja, rasga possibilidades, aumenta as forças, incentiva as energias, catalisa a capacidade, revitaliza o ânimo, fortalece o espírito de luta e termina por criar condições favoráveis ao bom resultado do empreendimento. O que parecia árduo torna-se acessível e, por fim, nos ajuda a viver os desafios da vida com mansidão, paciência e perseverança.

Temos, como maravilhoso exemplo de perseverança, Maria Madalena. Ela, que tendo ido ao sepulcro, não encontrou o corpo do Senhor e, julgando que fora roubado, foi avisar aos discípulos; porém “voltaram para casa” (Jo 20,10). E depois acrescenta-se: “Entretanto, Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando (Jo 20,11).

Esse fato nos leva a considerar quão forte era o amor que inflamava o espírito dessa mulher, que não se afastava do túmulo do Senhor, mesmo depois de os discípulos terem ido embora. Ela começou a procurar e nada encontrou; continuou a procurar e conseguiu encontrar. Na verdade, a eficácia das boas obras está na perseverança, tal como afirma as Escrituras: “Quem perseverar até o fim, esse será salvo (Mt 10,22).

Quanto ao medo, esse vai acompanhar nos até a nossa entrega definitiva; todavia já  não nos terá como reféns. Em meio a nosso medo, podemos ouvir a palavra consoladora, animadora e libertadora de Jesus: “Coragem! Sou eu. Não tenhas medo!”(Mt 14, 22-23). Conforme o ensinamento do: “para viver, crescer e perseverar até o fim na Fé, devemos alimentá-la pela Palavra de Deus; devemos implorar ao Senhor que a aumente; ela deve ‘agir pela caridade’, ser carregada pela esperança e estar enraizada na fé da Igreja”(CIC 162).