Pedido para a Profissão solene dos Irmãos Roberto e Paulo 29 de junho de 2018

Pedido para a Profissão solene dos Irmãos

Roberto e Paulo

29 de junho de 2018

 

A Vida Beneditina é uma escalada de montanha.

 

Há um livro que nos USA teve mais de um milhão de exemplares vendidos. Seu autor é um Rabino. Chama-se Harold Kushner. O título de seu livro é “Quando tudo não é o bastante.

O Rabino Kushner comenta o livro do Eclesiastes, considerado por muitos biblistas como um livro altamente pessimista. Conforme o autor, tal adjetivo depende do ponto de vista de quem o lê.

No terceiro capítulo, trata da busca do sucesso, que o Eclesiastes menciona assim: “Construí casas e plantei vinhedos…Tive criados…” [1] Exatamente comentando esse fato da busca do sucesso, o autor relata um episódio muito interessante.

            “Um turista americano estava na Índia num dia dedicado à peregrinação ao topo de uma montanha sagrada. Milhares de pessoas se preparavam para a íngreme subida. O americano, acostumado a exercícios físicos e se julgando em boa forma, decidiu participar da experiência. Vinte minutos depois, completamente sem fôlego e quase incapaz de dar mais alguns passos, viu passarem facilmente por ele mulheres carregando bebês e frágeis velhinhos apoiados em bastões. “Não consigo compreender”, disse ele a um amigo indiano! “Como é que essa gente consegue e eu não?”O amigo respondeu: “É porque tem o hábito tipicamente americano de ver em tudo um teste. Você encara a montanha como um inimigo e se dispõe a derrotá-la. A montanha, naturalmente, também luta e é muito mais forte que você. Nós não vemos a montanha como um inimigo a vencer. Nosso objetivo é uma unidade com a montanha e, assim, ela nos levanta e nos carrega pelo caminho.”

  A vida monástica com sua peculiar “conversatio” pode ser comparada a essa montanha sagrada dos indianos que nós, por vocação batismal, escalamos. Seu objetivo é nos conduzir aos “maiores cumes da doutrina e das virtudes”. [2] A forma física que temos e a roupa apropriada que endossamos são importantes, mas não o suficiente para subir à montanha, que podemos identificá-la à vida monástica.

O fundamental é reconhecer que, ao longo dos séculos, monges e monjas santos a escalaram com dificuldade, mas perseverantes, pacíficos, passo por passo, confiantes no auxílio da graça, conforme São Bento: “quando encetares algo de bom, pede-lhe com oração muito insistente que seja ele plenamente realizado…” [3] Assim agiram porque não viam na vida monástica um teste a ser vencido e superado, como o nosso americano. Não passaram a vida brigando com a montanha, ou seja, com a vida monástica, que eles aceitaram escalar, sobretudo quando lhes faltaram o fôlego, isto é, o entusiasmo. E é perfeitamente normal faltar o fôlego depois de um tempo de escalada e em muitas situações conflitantes. A causa desse fenômeno poderá ser cansaço, frustrações inevitáveis, mas também fé insipiente por não ter sido alimentada devidamente.

Nunca subimos a montanha apenas sustentando a nós mesmos, isto é, carregando no colo a criança que somos, por vezes mais pesada do que qualquer outra pessoa ou coisas. Como somos koinonia carregamos no colo, igualmente, os irmãos que Deus nos escolheu para a subida, irmãos que precisamos sustentar e que também por eles somos sustentados. E mais, como existimos na Igreja e para a Igreja carregamos amigos, pessoas que se confiam às nossas preces e, não podemos deixar de mencionar os inimigos, fardo extremamente penoso, que sempre os temos.

Outras vezes, os tropeços acontecidos pelos pecados cometidos ou acalentados no mais profundo do coração, as possíveis vertigens ao olharmos para trás e darmo-nos contas de que o tempo passou muito rapidamente e o medo de não atingir a meta sonhada, forçam-nos a utilização de bastões, apoios que não nos permitiríamos usar em outros momentos de nossa vida, um tanto auto-suficientes. Bastões da boa palavra que deverá vir do abade e dos irmãos[4], da correção paterna e fraterna, [5] da

condescendência da Regra ao considerar a idade e a fraqueza em relação à alimentação e ao seu horário[6], etc.

Por isso, a vida monástica, a nossa montanha, de nós exige adesão, unidade e, assim, ela nos levanta e nos carrega pelo caminho. Ela continuará sempre montanha a ser escala, portanto um legítimo desafio com sua legítima fadiga.

O Grande Retorno ao qual fomos convidados a realizar ao sairmos da piscina batismal e fazê-lo na vida monástica da comunidade que abraçamos com uma tradição milenar só será frutuoso e real se não fugirmos tomados de pavor do caminho estreito, do desafio da vida monástica comparada a essa montanha sagrada que os indianos escalam com fé.

Que o bom Deus, nos abençoe nessa escalada.

Caros Irmãos Roberto e Paulo, não tenham medo; não subimos sozinhos. Ora cantando ora chorando, ora pesados ora estimulados caminhamos juntos. E entre nós o Senhor, que prometeu-nos permanecer conosco até o fim dos tempos.

Deus nos abençoe a todos.

[1] Ecl 2, 4-8

[2] RB 73,9

[3] RB Prol, 4

[4] RB 31,14

[5] RB 64,11

[6] RB 37,2