Artigos, Monastica › 18/08/2017

PEDIDO PARA A PROFISSÃO SOLENE DE IR. ANSELMO 17 DE AGOSTO DE 2017

Caríssimos Irmãos:

            Na década de 60 houve um seriado de televisão de produção norte-americana em grande audiência nos USA e também no Brasil que se chamava “O Fugitivo”.

De 1963 a 1966, o seriado era apresentado em preto e branco; de 1966 a 1967, já a cores. A temporada contou com 120 episódios.

Tratava-se da história de uma personagem, o Dr. Richard Kimble, na pessoa do artista David Janssem, acusado, julgado e condenado pelo assassinato de sua esposa. Na noite anterior à prisão ele foge, pois a única chance de provar a sua inocência é encontrando o responsável pelo crime, um homem de um braço só que ele viu nas proximidades de sua casa quando retornava após uma discussão com a esposa. A partir daí ele é perseguido sem tréguas pelo obcecado tenente Gerard, e muitas vezes sua vida corre perigo quando sua identidade é desvendada ao ajudar outras pessoas em dificuldade.

A série sempre terminava com o Dr. Richard Kimble fugindo.

Hoje, caros irmãos, a palavra “fugir” tem para nós uma conotação um tanto negativa devida às noções e princípios de psicologia. Fugir significa não enfrentar uma situação e, concomitantemente, demonstração de fraqueza ou covardia.

Entretanto, na espiritualidade monástica fugir não denota, imediatamente, uma covardia, mas sim uma fraqueza, que o monge, com humildade, se reconhece como incapaz de enfrentar o perigo que se lhe apresenta.

No Prólogo da Santa Regra (48), pensando sobre a realidade da fuga, fui ao encontro da conhecida frase “não fujas logo tomado de pavor do caminho estreito”.  Um conselho que monge algum não poderá, ao longo de sua vida, olvidar.

De alguma forma, o monge, no seriado de sua vida, estará sempre fugindo de perigos, revelando sua fraqueza mais a Deus do que a seus irmãos, pois poderá muito bem camuflá-lo àquele que se encontra ao seu lado. Teme enfretar os perigos, porém, se bom monge, com humildade não se envergonhará em demonstrar sua fraqueza espiritual, primeiramente a Deus na oração pessoal, que já o conhece em suas entranhas e, depois, aos seus irmãos, com seriedade e respeito a si próprio e ao outro. Triste monge é aquele que se apresenta aos demais como incólume no caminho estreito do Evangelho, iludindo a si mesmo, mas não aos outros.

No mosteiro, queridos irmãos, vamos aprendendo a fugir de muitas coisas e situações até, possuidos pela graça, enfrentar o inimigo com as armas da humildade e da mansidão.

Mas o que há no caminho estreito do Evangelho que o monge poderá, tomado de pavor, fugir e se enveredar por tantos outros?

O Evangelho, proclamado na Eucaristia de hoje, vem nos desvendar a causa do medo: perdoar “até setenta vezes sete”[1]; ou seja, infinitamente.

Portanto, irmãos, o monge desejando trilhar o caminho do Evangelho não poderá fugir da verdade para perdoar, mas sempre da mentira; não poderá fugir da lembrança do fato acontecido para perdoar, mas da anestésica amnésia para a consciência; não poderá fugir da oração para perdoar, mas do monólogo em busca de sua inocência; não poderá fugir dos gestos de comunhão para perdoar, mas do desprezo; não poderá fugir da taciturnidade para perdoar, mas da loquacidade;  não poderá jamais fugir da lembrança de que foi perdoado por Deus e o será quantas vezes for necessário, mas nunca que será merecedor do perdão divino.

O velho homem estará sempre em luta com o novo homem, o Homem do Oitavo Dia, para vencê-lo. Mas, se o novo homem se deixar guiar pelo Evangelho e se abrir à graça não temerá permanecer no caminho estreito que se concretiza num processo de perdoar e se deixar perdoar, em suma, de amar.

O monge, pois, deve fugir de seu velho homem, como fugia Dr. Richard Kimble do obsecado tenente Gerard. Nessa fuga, muitas vezes sua vida correrá perigo quando sua fraqueza é desvendada ao ajudar outras pessoas em dificuldade; enredo e trama pungente do seriado

Nosso Ir. Anselmo fará neste momento seu pedido aos monges Capitulares para ser admitido à Profissão Solene. Se o faz, está nos confirmando o desejo de permanecer no caminho estreito do Evangelho, lugar para o imprescindível exercico do perdoar e se deixar perdoar.

Não haveria vida monástica nem sequer Igreja se o perdão não fosse uma realidade na vida do cristão e do monge.

Dou-lhe um conselho, caro Ir. Anselmo, fuja, não do inimigo externo que o teremos sempre e convidados, pelo mandamento do Senhor, a perdoá-lo, mas daquele que habita dentro de nós, o homem velho persistente em suas insinuações e seduções, desejando manter-nos cativo do orgulho, egoísmo, vaidade, mentira e da irresponsabilidade de nossos atos e conduta.

Sua vida, Ir. Anselmo como a de todo monge, de certa forma, é também um seriado do fugitivo. Como a personagem do seriado, Dr. Richard Kimble, seja sempre perseverante e criativo na busca da verdade, fugindo de tudo o que é contrário aos mandamentos Daquele que nos perdoou oferecendo-se ao Pai no altar da cruz.

O Senhor nos abençoe a todos!

[1] Mt 18,15-20)