Artigos, Homilias › 19/04/2017

Páscoa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Missa do Dia de 2017

Páscoa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo

Missa do Dia de 2017

 

Caríssimos Irmãos e Irmãs:    

Hoje no relato de São João, encontramos uma vez mais Maria Madalena que vai de madrugada ao túmulo e não encontrando o corpo do Senhor, corre ao encalço de Pedro e do Discípulo amado. Estes se apressam para averiguar o local e o acontecido.  Lá chegando, vêem as faixas de linho no chão e o sudário enrolado num lugar à parte.

Nessa narrativa há dois detalhes importantes: o Discípulo Amado corre mais depressa e chega primeiro ao túmulo. Pedro logo atrás. Este é o primeiro detalhe.

O segundo, é que o discípulo Amado não entra no sepulcro, espera a Pedro e dá-lhe a vez; depois ingressa juntamente com aquele que fora escolhido por Jesus para ter a primazia entre os Apóstolos.

Desde o Domingo de Ramos insistimos sobre uma realidade dos humanos: a disparidade na intensidade da vivência do amor.

Não somos iguais, não somos vasos comunicantes no projeto do amor a Deus e ao próximo. Cada um de nós corre ao encontro do Amor, que é Deus, com o corpo que herdou, com a história que acumulou, que os sentimentos que abraçou, com os sonhos que acalentou, com os contatos humanos que experimentou, com os pecados que praticou, com as virtudes que conquistou e com a fé recebida da Igreja que conserva, alimenta e celebra. Deus não clonou ninguém! Somos muito diferentes uns dos outros.

Quando assumimos essa realidade – somos desiguais – então a disparidade na intensidade da vivência do amor deixa de ser um problema, um drama, uma revolta, para tornar-se apenas respeito pela singularidade do outro.

O apóstolo São Paulo já tinha bem compreendido essa realidade quando disse: “Carregai os fardos uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo.” [1]

Que peso para João, podemos conjecturar, tendo Pedro correndo com pouca agilidade. Que fastio para Pedro não tendo João ao seu lado, mas à sua frente, correndo sem considerar sua condição física. Como eram desiguais!

Entretanto, diante da porta do sepulcro permanecem juntos, um ao lado do outro, e João dá precedência ao apóstolo Pedro, depois, ambos ingressam no sepulcro.

Essa corrida dos dois discípulos simboliza a nossa vida comunitária, familiar e eclesial. Estamos juntos correndo rumo ao encontro do mesmo objetivo, porém em passos e velocidade distintos, porque somos desiguais. E se o somos, a disparidade na vivência do amor é um fato e devemos assumi-la na fé, mais do que na razão.

Maldade de nosso século é gerar a ilusão nas pessoas por uma vida em comum, familiar ou religiosa, na qual todos podem se amar entre si e a Deus na mesma intensidade. Quanto desânimo, quanta frustração, quanto abandono do compromisso assumido na Igreja e para a Igreja por causa dessa fantasia.

Meus irmãos e irmãs, somos peregrinos da Jerusalém do Alto, onde Cristo com sua ressurreição nos abriu as portas. Não façamos exigências aos nossos irmãos que caminham ao nosso lado; eles não poderão ou não desejarão nos dar o que deles exigimos, ou seja, a intensidade do amor que gostaríamos de receber.

Sim, o ideal seria se todos tivessem a mesma intensidade de amor entre si e para com Deus. Contudo, o real é bem distinto. Somos João e Pedro correndo na mesma direção, mas não paralelamente. Mas, então, não estamos juntos? Estamos sim! Mas cada um segundo suas capacidades. Quem está à frente espere quem vem atrás, ou melhor, quem, pela colaboração com a graça, tem maior intensidade de amor ame mais aquele que está lutando para crescer no amor. Quem se encontra muito aquém da vivência do amor não inveje a seu irmão nem o faça tropeçar, antes, bendiga a Deus.

Quando então, estaremos um ao lado do outro? Quando teremos a mesma intensidade no amor a Deus e ao próximo? Ao pisarmos o patamar da Jerusalém gloriosa, assim como João e Pedro um dia estiveram à porta do túmulo do Ressuscitado.

Peçamos ao vencedor do pecado e da morte que aumente nossa fé. Supliquemos Àquele que hoje ressuscita dos mortos possa nos ajudar a lavar os pés uns dos outros na intensidade de amor que, no momento, possuímos. Imploremos ao que está à direita do Pai que nos sustente quando somos impotentes no amor do próximo crucificado em sua dor. Roguemos, com todas as nossas forças, para que o Cristo nos auxilie em nossa caminhada de cristãos, pois desejamos contemplar a Luz Deífica, vibrar de incomensurável alegria, jamais interromper o louvor diante do Trono do Cordeiro e nunca mais darmo-nos às costas uns para os outros. Seremos entre nós um face-a-face, olhos nos olhos, mãos entrelaçadas, passos conjuntos, vozes uníssonas, corações harmonizados, lábios que se tocam transmitindo o casto amor. Semelhantes ao Cristo Ressuscitado que está diante do Pai e do Espírito Santo estaremos nós, pois nosso velho homem será nova criatura, vivos para Deus, em Jesus Cristo. Na glória eterna, todos nós estaremos em plenitude do amor.

A Eucaristia que celebramos já antecipa em sacramento o banquete da Jerusalém gloriosa, no qual, apenas aqueles que durante a peregrinação nesta terra quiseram e se deixaram conduzir pelo amor de Deus, poderão tomar seus lugares, pois a disparidade na intensidade do amor não será mais uma realidade, mesmo desiguais.

Conta-se que S.Teresa de Lisieux teve uma percepção dessa realidade de maneira singular. Comparava-se à sua irmã de sangue, a Madre Inês. Teresa a via como um grande jarro para ser repleto de santidade e ela, apenas, um dedal. O importante, mesmo desiguais em suas naturezas, que estivessem plenas de amor.

Deus nos abençoe a todos!

[1] Gl 6,2