Artigos, Textos › 18/04/2018

Ora et labora

Ora et labora/Ir.Mauro Osb.

O contexto “ora et labora” é parte integrante na vida do monge beneditino, segundo a Regra de nosso Pai São Bento. O Apóstolo Paulo em suas cartas já nos adverte que: “ Quem não quer trabalhar, também não deve comer”(2Ts3,10b). O salmo 127,2a também nos exorta: “Do trabalho de tuas mãos hás de viver”. A vida no mosteiro, por ser toda ela organizada em vista de nossa busca de Deus, almeja a harmonia entre todas as atividades imprescindíveis à vida do homem; entre elas, o trabalho que cada monge exerce, designado por seu abade, tem seu momento muito bem estabelecido em nosso dia.

É importante ressaltar que nós não somos profissionais no ofício que empreendemos, porém o exercemos na obediência: não somos hortelãos, padeiros, culinaristas, contadores, alfaiates, marceneiros, etc.; e a formação profissional de cada monge, por sua vez, nem sempre incidirá sobre a tarefa a qual será responsável em seu mosteiro. O trabalho deverá ser sempre interpretado à luz da vocação monástica, ou seja, não terá fim nele mesmo, mas será meio indispensável ao estado de contínua busca de Deus, pelo qual cada irmão está empenhado. Assim, salientamos também que no momento em que estamos realizando nosso trabalho, não deixamos de estar em oração, mas fazemos as duas atividades concomitantemente, e isso só é possível quando se realiza um trabalho manual, o que sempre foi tão apreciado pelos Padres do deserto e também por nosso Pai São Bento, já que a vida do monge deve ser uma oração contínua. O coração do monge deve estar em constante sintonia com Deus. Esse foi e será sempre o ideal do monge: “Orar sem cessar”, como nos diz o Apóstolo Paulo (cf. Ts 5,17).

Dentre os vários trabalhos exercidos em nosso mosteiro, temos aquele que é desenvolvido na horta, do qual falaremos um pouco.

Como nosso mosteiro se encontra à margem do centro urbano, temos o privilégio de ter um maior contato com a natureza, contemplando, assim, as maravilhas que Deus nos proporciona diariamente.

Temos um bom espaço físico para cultivar hortaliças. Geralmente as mudas nos são oferecidas por um de nossos amigos, que sempre as disponibiliza com generosa solicitude. Em nossa horta cultivamos, para o consumo de nossa comunidade: alface, acelga, almeirão, escarola, beterraba, couve, rúcula, repolho, pimentão e temperos verdes como salsa, coentro e cebolinha. Também temos: mandioca, batata doce, banana, acerola, limão, chuchu, maracujá, etc. Nossos trabalhos são realizados no período da manhã e quando não há aulas ou alguma outra atividade, também realizamos à tarde.

Optamos por usar esterco orgânico de nosso curral e galinheiro e também fazemos compostagem com materiais orgânicos; não utilizamos agrotóxicos, pois acreditamos que teremos uma melhor qualidade de vida nos servindo de produtos naturais. A água que utilizamos para regar as plantas é proveniente das chuvas e armazenada em um grande açude que chega a um reservatório dentro da própria horta. Tudo é muito simples e não temos sistema de irrigação, já que não iremos fazer grandes investimentos nesse atual terreno. Nossa meta principal é a construção do novo mosteiro em Itaiacoca.

O estar em contato com a natureza no dia a dia de nossa vida, nos traz uma grande gratificação, pois nos possibilita meditar na prática a palavra de Deus, onde o Apóstolo nos diz que: um planta, outro rega, mas é Deus quem faz crescer (cf. ICor 3). O próprio Jesus, ao instruir seus discípulos, serviu-se das coisas do campo em sua pedagogia; entre outras coisas falou da figueira, da videira, do grão de mostarda, das espigas de milho, etc.

Entrementes, aqui em nossa região sofremos um pouco com as intempéries da natureza, e nessa época do ano o frio é muito rigoroso. Gostaria de concluir essa pequena meditação salientando que não devemos esquecer nunca que a mão de Deus está sempre sobre nós e que Ele age mesmo nos menores acontecimentos. Partilho com você o fato ocorrido há alguns dias atrás: Por três dias consecutivos tivemos noites e dias muito gélidos e com eles uma geada intensa, cobrindo de gelo as verduras que já estavam prontas para consumo e as que tinham sido plantadas recentemente. Ao me dirigir à horta e olhar aquele cenário, pensei comigo: perdemos tudo e agora nada nos resta senão esperar o tempo melhorar e plantar tudo novamente. Qual não foi minha surpresa ao me dirigir até lá após os dias de geada e ver que a Providência de Deus, que nunca nos falta, não permitiu que nossas hortaliças fossem totalmente prejudicadas!

São nessas pequenas coisas que vemos claramente a graça de Deus agir em nossa vida.