Artigos, Textos › 01/03/2018

O perfeccionismo

O perfeccionismo/Ir. Eduardo, OSB

 como um obstáculo à vida cristã

Dentre os obstáculos que impedem uma fé madura e uma espiritualidade sadia, apresentados por muitos cristãos, o perfeccionismo é o mais frequente.

Segundo o dicionário (HOUAISS, 2009), perfeccionismo significa: “tendência de obstinar-se (agarrar-se com firmeza a uma ideia) em fazer as coisas com perfeição” e para as psicólogas Miriam Elliott e Susan Meltsner “isso pode se tornar numa obsessão do indivíduo em todas as áreas da vida, incluindo a carreira profissional, relacionamentos humanos, autoimagem e esforços religiosos”. (ELLIOTT e MELTSNER, 1993, p. 16)

Muitas vezes o perfeccionismo começa na infância. Desde cedo, tais pessoas foram desafiadas a ser “crianças-modelo”, internalizando aquelas vozes, pronunciadas ou não, que exigiam: “Seja bom!  Faça o melhor! ” Foram crianças, cujos pais cobraram dos filhos a ter alto desempenho e recompensaram de alguma forma o trabalho bem feito ou em alguns casos, com uma punição se não alcançaram o resultado esperado. Para não perder o amor dos pais, a criança aprende a satisfazer as necessidades e expectativas do pai ou da mãe; porém isso fá-la perder sempre mais o contato com os próprios sentimentos, necessidades e com o verdadeiro si mesmo. Pode também suceder que a criança, desde cedo, haja sido privada da infância, sendo então obrigada amiúde a assumir responsabilidades de “um adulto” na família.

Uma pessoa perfeccionista geralmente se esforça para alcançar resultados de acordo com um padrão ideal, estipulado na maioria das vezes por ela mesma. No caso das realizações, o perfeccionista pode ser dominado pela contínua sensação interior de que poderia ter feito melhor. Uma vez que para ela a questão é atingir 100%, seu lema é tudo ou nada. O perfeccionista não dá margens a erros, por isso está sempre em uma tensão, não desliga, que pode ser fonte geradora de ansiedade e estresse elevados.

À primeira vista, o perfeccionista parece ser algo positivo, porque pode ser usado como uma força para o bem, já que são pessoas, em geral, detalhistas, meticulosas, exatas e caprichosas em suas ações. No desempenho social é valorizado alguns traços comuns dos perfeccionistas, como por exemplo, a responsabilidade, a pontualidade, o esmero…

Contudo, o universo pessoal do perfeccionista pode ser tomado por frustrações contínuas, o que conduzem a um estado de tristeza, de culpa e até mesmo de autodesprezo.

Uma pessoa obcecada pela perfeição carrega sempre alguns fardos característicos. Em primeiro lugar, há o medo de errar. Cometer um erro moral ou material pode tornar  a vida mais pesada, devido às suas cobranças de somente acertar e isso pode impedir uma leveza; medo do imprevisível e medo de arriscar; o medo do ridículo faz com que a pessoa leve a vida com muita seriedade e não lhe permite tolerar uma situação na qual ela mesma é objeto de uma brincadeira, perdendo o bom –humor; medo de mudanças daquilo que já é padrão em seu estilo de vida, e isso não permite uma abertura a novos desafios e oportunidades, tornando a vida demasiado rígida. O perfeccionista, com base em um plano sistemático, move-se sabendo a cada momento exatamente para onde está indo. A segunda característica do perfeccionista está intimamente relacionada com a primeira, ou seja, com a incapacidade de aprender com as próprias falhas. O perfeccionista não consegue lidar com as adversidades, como se a vida fosse algo que ocorre de forma mecânica e controlável. Uma terceira atitude característica do perfeccionista é a ênfase excessiva no que deveria ser feito, ao invés das realizações obtidas. A quarta característica do perfeccionista é a contínua autocomparação com aqueles que foram bem-sucedidos a seus próprios olhos.

Os estudiosos apontam diferentes causas para a atitude perfeccionista, ressaltando, contudo, um denominador comum entre aqueles que são obcecados pela perfeição: a construção do valor próprio.  Os estudos são unânimes em indicar que “a baixa autoestima aflige virtualmente todos os perfeccionistas”. (ELLIOTT e MELTSNER, 1993, p. 29). Para eles a autoestima é essencialmente dependente de padrões externos, por outra, o valor que lhes é atribuído por seus atos e realizações. Na tentativa de se preservarem das críticas dos outros, os perfeccionistas decidem que a perfeição é a única defesa plausível.

Podemos ressaltar alguns aspectos do relacionamento com Deus que é diretamente afetado por uma perspectiva perfeccionista da santidade cristã. O primeiro problema da versão perfeccionista sobre a santidade é que ela resulta em um sentimento de insegurança quanto ao amor de Deus. No caso do perfeccionista, o amor é sempre algo a ser conquistado e merecido. O segundo prejuízo do perfeccionismo à santificação é que ele produz uma visão errada do próprio Deus, pois geralmente Deus será, para um perfeccionista, um soberano excessivamente rígido e castigador. O quarto prejuízo do perfeccionismo ao relacionamento do cristão com Deus é que ele furta temporariamente da pessoa a alegria que Deus lhe promete em Cristo. Nos momentos em que poderia regozijar-se, consegue apenas pensar no próximo desafio e na próxima tarefa. Por último, o perfeccionismo pode ainda resultar na desarmonia da comunidade, pois o cristão perfeccionista geralmente se inclinará a cobrar dos outros aquilo que ele mesmo estabeleceu como alvo. Assim, ao invés de fortalecer e auxiliar os outros, o perfeccionista acaba sendo um desmotivador e orgulhoso espiritual.

Jesus Cristo conhece nossa humanidade e leva em consideração nossos limites. Dado Ele conhecer o ritmo de nossa caminhada, não exigirá algo acima de nossa própria capacidade. A perfeição não equivaleria a uma condição legal que garantiria a impecabilidade do cristão, senão a uma experiência humana que passa pela realidade, capacitando-a a lutar contra o pecado.

Procure superar suas próprias fraquezas e melhorar em alguns pontos que necessitam de ajustes, buscando progredir na santidade, respeitando o seu tempo e limite.

Além disso, observe igualmente o que você e o seu próximo fazem de bom, mesmo que sejam coisas pequenas. Afinal, você não precisa ser perfeito para ser muito bom em algo. Enquanto enxerga o seu lado bom e o do próximo, esforce-se também para crescer com as falhas. Afinal, todos nós erramos; o erro faz parte do processo para alcançar a perfeição. Procure, portanto, aprender com seus erros e, claro, evitá-los; porém não se flagele quando os comete, pois você é humano.  Permita, todavia, que os outros o vejam exatamente tal como você é, e abra mão do escudo protetor do perfeccionismo para que você possa expressar a sua vulnerabilidade.

Quando me abro à realidade, posso tornar-me mais clemente e compreensivo na vida cotidiana em relação com os meus próprios limites, bem como com os dos outros e da vida, entrando assim em contato com suas múltiplas fragilidades; e isso ajuda a celebrar a vida em todas as circunstâncias e saboreá-la com suavidade e leveza.

Referências

ELLIOTT, M.; MELTSNER, S. Perfeccionismo: como aprender a conviver com as imperfeições de um mundo real. São Paulo: Saraiva, 1993.

HOUAISS, I. A. Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa: Objetiva Ltda, 2009.