Artigos, Vida Monástica › 13/02/2018

O Incenso

O Incenso/ D. João da Cruz.

O incenso é uma resina gomosa que brota em forma de gotas de arbol Boswellia Carteri, um arbusto que cresce espontâneo na Ásia e na África. Durante a estação calorosa e seca (de Fevereiro a Março), faz-se sobre os troncos e sobre as ramas umas incisões, das quais sai continuamente a resina, que se solidificam lentamente com o contato com o ar. A primeira exsudação não tem nenhum valor e é tirada; a segunda é considerada como algo que se deteriora; a terceira é que dá o incenso verdadeiro e bom, da qual se selecionam três variedades, uma de cor âmbar – resina sólida amarelada, uma clara e outra branca.

 

 

Na antiguidade

 

         Era um uso antigo espalhar resina e ervas aromáticas sobre carvões acendidos para purificar o ar e alertar o perigo das infecções.

Em um primeiro momento, a fumaça teria um valor catártico (de purificação e de relaxamento) e também atropaico (de afastar e destruir as influencias maléficas, provenientes de pessoas, coisas, de animais e de acontecimentos). O uso desta resina perfumada não era exclusivo do culto religioso. O incenso não se queimava somente nos templos, mas nas casas e as incensações difundiam perfumes e ao mesmo tempo tinha uma finalidade higiênica.

        O incenso sempre foi considerado como algo muito precioso. Era usado em todas as cerimonias e funções propiciatórias, mas sobretudo queimado diante das imagens divinas nos rituais religiosos de muitos povos, e ao sublimar-se as concepções religiosas, o incenso, no caso de todos os cultos, se converteram em um símbolo da oração do homem que busca a Deus. No culto dos mortos, a fumaça era usada para omitir o mau cheiro de decomposição dos corpos, uma necessidade absoluta dos países mais calorosos. O incenso era usado como expressão de honra para os imperadores, e reis notáveis.

 

 

 

 

Nas Sagradas Escrituras

 

         Conta-se nas Sagradas Escrituras que a rainha de Sabá levou para visitar em Jerusalém o rei Salomão levando-lhe entre outros dons, uma quantidade extraordinária de um precioso incenso, que naquele tempo estava no centro de um comercio importante. No mais ao longo do itinerário do uso do incenso prosperaram povos e reinos míticos, como se lê na Bíblia, no coração e no livro etíope dos reis.

O incenso era parte da composição aromática sagrada, destinada unicamente a Deus (Ex 30,34), e se transformou em um símbolo de adoração. Em linhas gerais é símbolo de culto dado a Deus e de adoração: “Como incenso derramem o bom odor” (Eclesiástico 39,14). A oferenda do incenso e a oração são intercâmbios, ambos são sacrifícios apresentados a Deus, como nos diz o salmo 141, que proclama: “Suba a Ti minha oração como o perfume do incenso.” E é com essas palavras que o celebrante na Igreja do Oriente reza durante as vésperas e nas laudes matutinas e nos dias de festa, espalhando em torno a si o perfume do incenso.

Com a oferenda do incenso os magos do Oriente, adoraram o Menino Jesus (Mt 2,11).

No último livro do Novo Testamento, o Apocalipse, João viu vinte e quatro anciãos que estavam diante do Cordeiro de Deus, com harpas e turíbulos de ouro com grande quantidade de incenso: São as orações dos santos (Ap 8,3-4)

 

Entre os cristãos

 

         Os cristãos não usaram desde o princípio o incenso na liturgia, porque queriam distinguir-se, o mais claramente possível do paganismo. Desaparecido o paganismo em massa, o rito da incensação encontrou o seu lugar na liturgia cristã.

        A partir do século IV, a tradição cristã adaptou o incenso em seus rituais de consagração e o queima todavia para honrar o altar, as relíquias, os objetos sagrados, aos sacerdotes e aos fiéis, e para propiciar a subida aos céus das almas dos defuntos nos momentos das exéquias.

Primeiramente foram colocados turíbulos na Igreja do santo sepulcro em Jerusalém, logo também nas grandes basílicas do Ocidente, junto aos altares e diante das tumbas dos mártires.

Graças as bênçãos através do incenso e de seu uso, este chega a ser um sacramental (sinal sagrado que obtém efeitos espirituais).

Desde o século IX, se instaura o uso do incenso no início da missa e desde o século XI o altar se transforma no centro da incensação. O turibulo era levado na procissão junto com o Evangeliário. Seguidamente a incensação se estendeu as oferendas do pão e do vinho, que são incensadas três vezes em forma de cruz, da mesma forma que o altar e a comunidade litúrgica. Desta forma nasceu a tríplice incensação durante a missa, praticada todavia hoje de maneira regular no Oriente e entre nós nos mosteiros e nas comunidades em solenidades.

O incenso deve envolver todos em uma atmosfera sagrada de oração que, como uma nuvem perfumada, se eleva para Deus. O agitar do turíbulo em forma de cruz nos recorda principalmente a morte de Cristo, e ao movê-lo em forma circular manifesta a intenção de circunscrever os dons sagrados e de consagrá-los a Deus.

O incenso é muito usado na liturgia fúnebre. Os defuntos permanecem membros da Igreja, já santificados pelos sacramentos. Por tanto seu corpo morto é honrado com o incenso, como as santas mulheres, na manhã da Páscoa, queriam honrar o cadáver de Jesus com a unção de óleos preciosos.

         Na reforma litúrgica, depois do Concilio, em muitos lugares se renunciou ao uso tradicional do incenso, da mesma maneira que se sucedeu com outros sinais muito antigos.

Na consagração solene de um altar, depois da unção da mesa, se queima incenso e outros aromas sobre os cinco pontos do altar. O bispo interpreta esse gesto com estas palavras: “suba para ti Senhor, o incenso de nossa oração; e como o perfume enche esse templo, assim tia Igreja expanda pelo mundo o suave perfume de Cristo”.

 

Entre os diversos povos

 

         Em um templo junto aos ídolos, os romanos, como também os gregos, tinham um altar para o incenso (foculus), em sinal de homenagem e de adoração. No culto ao imperador, a incensação possuía um valor de reconhecimento da religião e do estado, do imperador enquanto deus.

Entre os etruscos, o grande sacerdote, o único que podia conhecer os sinais dos acontecimentos, anunciavam com um toque de trombeta o final de um período e propiciava um novo tempo queimando o incenso sagrado em braseiros preciosos e decorados.

Na Grécia se incensava a vítima sacrificial para fazê-la mais aceitável a divindade. Se fazia arder perenemente em braseiros como oferendas aos deuses, protetores da família, e aos antepassados e também o queimavam nas habitações dos enfermos, com fins terapêuticos. Hipócrates, o famoso médico grego (600 a.C), o usava para curar a asma e aliviar as dores de parto.

       Em Israel era de grande importância o incenso no culto divino. Com incenso, mesclado com outras substancias oleosas, o sumo sacerdote entrava uma vez ao ano no Santo dos Santos, quer dizer, no espaço mais reservado e sagrado do templo.

No Egito o uso do incenso se remonta a uns quinze séculos antes de Cristo. Os egípcios usavam este perfume dos deuses, como o chamavam para os rituais do templo, convencidos de que o incenso podia fazer chegar a divindade os desejos dos homens. Também o definiam como “o suor dos deuses que cai sobre a terra”.

Na Índia, é queimado durante as meditações de yoga, a fim de que facilite o encontro com a divindade; perfuma os fornos crematórios, como rito de passagem da vida terrena aquela ultraterrena, ademais se utilizava contra reumatismos e enfermidades nervosas.

    Na África o incenso ainda hoje é usado para acalmar as dores de estômago e para melhorar o funcionamento do fígado e a circulação do sangue.

Na Europa, em alguns povos da Áustria e Suíça, é queimado nas casas no período compreendido entre Natal e Epifania para assegurar a boa saúde de todos aqueles que as habitam. É considerado boa sorte queimar o incenso durante banquete de bodas e também em bodas de prata, de ouro e de diamante.

Na América central, os maias associavam esta resina a lua, símbolo feminino portador de vida, como o sangue, a linfa, a chuva, e queimavam o incenso para exorcizar a seca.

 

Relaxa, embriaga e purifica

 

         Investigações científicas colocam claro que, quando se queima o incenso, ele exala tetraidrocanabinol (THL), substância com notável poder desinfetante, porem embriagante e anestésico, capaz por exemplo de atenuar o mal de cabeça e dos dentes. O fenol exalado pela fumaça do incenso atua na correnteza cerebral (sede da consciência e da elaboração da informação) e sobre o sistema neurovegetativo (respiração, ritmo cardíaco, funções digestivas e intestinais). O THL tem sido comprovado que estimula a serotonina (substância produzida pelo cérebro que pertence ao grupo biológico das aminas). Doses básicas como por exemplo, exalações durante uma cerimônia religiosa, aumenta o nível de serotonina, que por sua vez atenua os impulsos nervosos e baixam a frequência cerebral, criando um estado psicofísico que facilita a capacidade de concentração. A serotonina ademais está dotada de uma ação anti-hemorrágica e é protetora dos capilares. O incenso com seu poder embriagante, se pensa que tem a capacidade de ajudar a concentração, despertando a vontade psíquica, levando paz ao coração, aplacando as tensões e incendiando aos ânimos aquele fervor que permite entrar em contato com a divindade. Ademais, estimula notavelmente o olfato do homem, sublinha o caráter solene de uma celebração, e finalmente desinfeta e purifica os ambientes.

 

CENTRO RUSSIA ECUMENICA     Cuad Mon 132 (2000) 53-59

  Tradução: D. João da Cruz OSB