Advento, Artigos, Homilias › 25/12/2018

Natal do Senhor de 2018 Missa do Dia/ Dom Abade Andre

 

Caríssimos Irmãos e Irmãs:

Toda a nossa liturgia está centrada na Palavra no Verbo feita carne da carne de Maria, a Bela Ovelhinha, como a qualificou Melito de Sardes, numa de suas Homilias sobre a Páscoa.

         A palavra, caros irmãos, foi o meio pelo qual Deus entrou em contato com o homem. Por conseguinte, quando ela se tornou meio de comunicação entre Deus e o homem, tornou-se ao mesmo tempo divina e humana. Divina enquanto comunicação de Deus e humana enquanto linguagem do homem.

Deus para salvar o homem utilizou a palavra humana e a fêz sua palavra, tornado-a divina. Tal palavra humana-divina expressou a sua vontade, seus desígnios misteriosos de amor, gerando vida, alegria, esperança e eternidade.

Essa palavra humana-divina foi utilizada no culto judaico e, depois, pela Igreja em sua liturgia. Quando é proclamada em assembleia é Deus quem se dirige a nós seus ouvintes. Hoje nós a escutamos pelos lábios do profeta Isaías. Como todos os demais, emprestou a Deus a sua palavra, falando em seu nome. Essa palavra, agora divina-humana, existiu e existe para ser comunicada; é o que fez o profeta: “Como é belo ver pelos montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, mensageiro da felicidade que anuncia a salvação”. O mensageiro do Senhor, pois, existe para anunciar a paz e a salvação através da palavra. Por meio dela, o povo da Aliança soube o que desejava o seu Deus: a felicidade daquele que fez à sua imagem e semelhança.

Em Israel, a Palavra Divina tornou-se, então, narrativa histórica, lei, poesia e elemento fundamental do culto. Ela foi, igualmente, o critério de análise da história, dos acontecimentos e dos sentimentos. Para Israel ela foi, é e será a razão de existir como povo escolhido.

Na Epístola aos Hebreus, o autor procurou elucidar a um judeu-cristão sobre Jesus Cristo, a Palavra de Deus em Israel feita carne. Após a encarnação, é preciso escutá-Lo. Por disso diz: “Muitas vezes e de mododiversos falou Deus outrora aos pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho, à quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual fez os séculos”

Com a encarnação do Verbo, Deus não precisou mais de intermediário, o mensageiro para entrar em comunicação com os homens. O próprio Deus se comunicou em seu Filho Unigênito, a Sabedoria presente em tudo desde sempre. Em Cristo, caros irmãos, está toda a Sagrada Escritura de Israel.

O Evangelho de São João, por fim, vem confirmar toda profecia do Antigo Testamento; vem mostrar-nos que a salvação não mais se espera, já é um fato quando o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade.

Moisés havia dado ao povo a Lei. Jesus, o Verbo Encarnado, o novo Moisés, se dá a nós.

A graça que Dele recebemos, nada mais é do que a salvação, outrora prometida, agora uma realidade. Caberá a nós aceitar ou recusá-la. Efeito da graça, porém, é jamais recusá-la.

Maria é a cheia de graça; quela que já tinha em seu coração a Palavra e que aceitou, inspirada pela própria graça, ser a mãe do Salvador; ofereceu seu seio para a Palavra tornar-se a câmara nupcial entre o Verbo e a carne. A Bela velhinha silenciosa, que meditava todas as coisas repassando-as no coração, na plenitude dos tempos, deu ao mundo o Cordeiro Silencioso que não abriu a boca, quando se ofereceu como vítima pascal na ara da cruz.

Neste momento, atualizamos, pelo sacramento, o gesto salvífico do Cristo numa ceia, o memorial que Ele nos deixou como momento de nossa salvação. Na Eucaristia, a Palavra proclamada torna-se carne – presença real do Cristo – nas espécies eucaristizadas do pão e do vinho. Por isso, a Igreja uniu num só momento de celebração a proclamação da Palavra e a Fração do Pão.

Peçamos à Mãe de Deus que nos apresente ao Pai como filhos seus; nós que celebramos o mistério do Natal de seu Filho, a Graça Divina que veio nos salvar.

Deus nos abençoe a todos!