Artigos, Quaresma, Textos › 29/03/2018

Jejuar para abrir-se a Deus

Jejuar para abrir-se a Deus

Tradução do Frances.. Prier, janvier-fév.2015  / D. Bruno Almeida Osb.

 

Por Adrien Bail

 

Em voga por suas virtudes terapêuticas, a ascese do jejum é um auxílio para reencontrar uma relação justa com Deus e com o próximo.

 

Um arraigamento bíblico

 

Esta prática universal encontra-se presente no Antigo Testamento. Moisés jejua antes de receber a Torá (Ex 34,28); o povo hebreu implora dessa forma o perdão de Deus (Lev 16,29); Jesus jejua quarenta dias no deserto como preparação para Sua missão (Mt 4,2) e convida os discípulos a jejuar porque “dias hão de vir em que lhes tirarão o esposo” (Mt 9,15). Os primeiros cristãos se abstêm ainda de alimentos às quartas e sextas-feiras (em memória da traição de Judas e da Paixão de Cristo) durante a Quaresma e antes de cada Eucaristia.

 

O porquê da abstenção de alimentos

 

Para Georges-Emanuel, animador do centro espiritual do Hautmont, França, a resposta é evidente: “Nosso elo com o mundo passa pela alimentação. Descobri o jejum contra minha vontade: estive doente. Meu corpo rejeitava todo o alimento ingerido. Experimentei grande mister de silêncio, de caminhada. Rezar tornou-se mais simples”. Se o abster-se da televisão, por exemplo, tem um sentido, isso provém depois do jejum alimentar. No dizer do Pe. Jean-Luc Souveton, sacerdote da Diocese de Saint-Étienne, França, “vencer a fome mostra-nos que ‘não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’ (Mt 4,4). Compreendemos que nossa energia provém outrossim do interior. Fisicamente, recorremos às reservas de gordura existentes em nosso corpo para que ele funcione. Espiritualmente, isso põe em causa nossa procura inquieta de preencher um vazio interior. Descobre-se em si, não o vazio, senão a vida”. 

 

Prescrições da Igreja a respeito do jejum

 

Desde 1966, a Igreja Católica prescreve aos fiéis que gozam de boa saúde a abstenção de carne às sextas-feiras (particularmente durante a Quaresma) e o jejum na Quarta-Feira de Cinzas e Sexta-Feira Santa, por outra, tomar apenas uma refeição sem consumo de carne nem de álcool e uma refeição ligeira à noite.  Ela pede igualmente que o fiel se prepare para a Eucaristia abstendo-se de todo o alimento, pelo menos, uma hora antes de comungar. A tradição ortodoxa prescreve esse jejum já desde a noite da véspera: uma forma de despertar nossa fome de Deus e nossa consciência d’Aquele que vamos receber.

 

Atitude interior

 

Na tradição cristã, jejuar não é um fim em si, senão um meio espiritual para tornar-se “discípulos e filhos de Deus”. Para o Pe. Souveton, “assim como Cristo é tentado no deserto, jejuar revela-nos os combates que temos de empreender para nos libertar de nossa sede de poder, de nosso orgulho…” Este passo determina todo o ser. Jesus pede primeiramente que se o efetue discretamente, por outra, que se perfume a cabeça, se lave o rosto e não se o desfigure! (Mt 6,16).  Tal passo é acompanhado por uma oração mais intensa e por um cuidado pelos demais, que pode ser traduzido pela esmola. Assim, estabelecimentos escolares em França que propõem refeições “pain-pomme” ou “prato de arroz” oferecem o preço da refeição jejuada em prol de causas solidárias.

 

Práticas mais radicais

 

Existem centros espirituais que propõem uma experiência mais radical. Assim, o centro espiritual dos jesuítas de Châtelard, situado nas proximidades de Lyon, França, propõe seguir os exercícios espirituais   de Santo Inácio com abstenção total de alimentos, segundo o método de Büchinger, à base de água, caldos e suco de frutas. Uma experiência de silêncio e de oração sustentada pelo grupo de retirantes. “Receava que o jejum me tornasse menos disponível. E sucedeu o inverso:  acolhia as reuniões quais presentes, tinha mais energia e deixava-me conduzir pelo Senhor”, assim testemunha a Ir. Colette, de 70 anos de idade.

 

Uma experiência paroquial

 

O jejum cristão é vivido de forma privilegiada para preparar as grandes festas litúrgicas. E por isso a Paróquia de Chesnay, Yvelines, França, organiza todos os anos um jejum durante a Semana Santa ou no início da Quaresma. Durante esse período, os paroquianos reúnem-se para um tempo de adoração. Findo esse, tomam conjuntamente chá e levam para casa a porção de pão que será sua única refeição do dia seguinte. Ao longo dessa semana, suas orações são feitas à luz do Evangelho e dos salmos. Segundo o testemunho de uma paroquiana, Élisabeth Siewert, “esta experiência tornou a paroquia mais fraterna. Rezamos uns pelos outros, descobrimos novos rostos que ousam testemunhar o que vivenciam durante esse período de jejum. E no último dia cada um traz algo para a preparação da festa!”

 

Testemunho de uma esposa e mãe, participante do jejum paroquial

 

“Desde há quatro anos participo de um jejum paroquial. Durante uma semana, como diariamente meu pedaço de pão sozinha em silêncio, em família ou em companhia de uma amiga. À noite, reencontro, com grande alegria, a igreja cheia de fiéis. Para mim, é uma experiência extremamente simples e espantosa: a experiência de que Cristo nos reúne em nosso cotidiano, de uma intimidade que muda tudo o que fazemos, assim como o modo como vemos o mundo. Em casa, vivo com mais simplicidade; aprendo a não exigir demais de meu esposo; meus filhos me auxiliam. Muitas vezes, vivenciei, durante esse jejum, reconciliações em minha família. Estou muito mais aberta à escuta da Palavra. ‘O pão nosso de cada dia nos daí hoje’ obtém uma ressonância muito diferente quando se faz a experiência do que é o pão nosso de cada dia!”

 

 

Fonte: Prier, janvier-fév.2015