Artigos › 05/10/2017

Investidura do Hábito Monástico

Investidura do Hábito Monástico de Ir. Ivan

e retomada do noviciado de Ir. Atanásio

02 de outubro de 2017

 

           Meus caros irmãos:

Acabamos de ouvir um trecho do livro do Gênesis relatando o encontro de Rebeca com Isaac.(Gn 24 61-67) Abraão, antes de morrer, se preocupa com sua descendência. O velho Patriarca não queria que seu filho tomasse como esposa uma filha dos cananeus. Chama então o servo mais velho de sua casa e lhe diz:”Irás à minha terra, à minha parentela, e escolheras uma mulher para meu filho Isaac.” (Gn 24,4) E o servo parte em direção à Harã, residência da família de Abraão. O enviado chegando ao destino, entra em contato com o pai e o irmão de Rebeca. Após as negociações matrimoniais, a jovem parte acompanhando o servo de Abraão para se encontrar com Isaac.

Isaac, por sua vez, após ter voltado do poço de Laai-Roí, sai a passeio pelos campos, ao pôr-do-sol. Entretido com a beleza do cair da tarde, erguendo os olhos vê chegar camelos. Rebeca ao avistar Isaac e, antes que ele a contemplasse com firmeza – olhos nos olhos – desce o véu velando-se como mandava o costume para as virgens, antes de contrair matrimônio. Seu véu seria retirado durante as núpcias, que consumariam o casamento.

Essa bela história do Patriarca Isaac nos serve de reflexão para esse momento da Investidura do Hábito Monástico de nosso Ir. Ivan.

Como Isaac, um noviço deve estar e mover-se sempre junto a um poço, o poço inesgotável da Sagrada Escritura. No deserto – a vida monástica – sem essa Àgua Viva noviço algum sobrevive. Sabe que ali está, para um dia, contrair matrimônio com a Rebeca que, misteriosamente, Deus a escolheu para si, conduziando-a até ela.

            O noviço, também um filho da promessa, porque em Cristo todos somos filhos de Abraão, se organiza e é educado para se inebriar da luz vermelho-cálido do pôr-do-sol. Tal atividade faz parte de sua formação.

O que significa o pôr-do-sol na formação do noviço de São Bento? Tão simplesmente que o noviciado é um tempo que passará muito rapidamente, como o sol ao se pôr no horizonte. Por isso, sendo esse período belo mas breve, deve desfrutá-lo generosamente, ou seja, passeando com prazer pelos campos do conhecimento sobre a vida cristã e monástica, passeando com prazer pelos campos da escuta da Palavra de Deus na lectio divina, da atenção em ouvir a Deus na salmodia do Ofício Divino, da serenidade na oração pessoal e contínua, da responsabilidade do trabalho e, também, do aprendizado, por vezes difícil, da convivência fraterna e filial com seu abade e seus irmãos.

Chegará o dia de receber Rebeca como sua esposa, isto é, a comunidade que abraçou na fé. Sabe que o anel que seu abade porta na mão direita representa a aliança que invisivelmente todos os professos solenes trazem em sua mão esquerda e que um dia disseram seu sim definitivo a essa esposa que deverá amá-la como Cristo ama a Igreja. Por isso, no dia de sua consagração monástica escutará da boca do abade a mesma frase que se encontra no rito do matrimônio dos cristãos, adaptada ao nosso Rito para consagração de monges: “Procura(i), então, ver Cristo em teu (vosso) Abade e em todos os teus(vossos) Irmãos, permanece(i) junto deles nos dias bons e também nos maus, no sofrimento e na alegria, para que Cristo nos conduza todos juntos à vida eterna.”

            Assim como Isaac desposou Rebeca velada e começou a conhecê-la após tê-la tomado como mulher, assim também o noviço inicia o noivado com sua comunidade velada, ou seja, aceitado-a como um mistério, conhecendo-a à medida que os anos vão se passando.

Certa vez, um monge me disse: “A comunidade na qual ingressei não é mais a mesma.” Eu lhe respondi: “Nem você é o mesmo quando se fez monge.”  De fato, não somente o noviço acolhe Rebeca velada, também sua comunidade o acolhe dessa forma, pois aquele que pede ingresso na fraternidade, igualmente, é recebido como um mistério, paulatinamente desvendado com o passar do tempo, ao contato com seu abade e seus irmãos.

        Em seu cotidiano e ao longo dos anos o monge, gradativamente, irá conhecer quem é verdadeiramente sua comunidade, pois o véu de seu mistério deslizará de seu rosto descobrindo-o à medida que as experiências vão se sucedendo. Como no matrimônio, porém, nunca a conherá totalmente. Amá-la-á ora na alegria com suas coisas boas e encantadoras ora na tristeza ao desvendar suas falhas e defeitos; amá-la sempre será uma deliberação necessária e responsável para ser-lhe fiel até que a morte os separe.

Hoje, caro Ir. Ivan, começa seu passeio ao pôr-do-sol para um dia receber Rebeca, sua futura esposa, nossa comunidade da Ressurreição.

O útimo dos Patriarcas na história da salvação, igualmente, desposou a Nova Rebeca, toda bela e toda pura, velada pelo mistério de sua pureza e de sua vocação: a Mãe do Salvador. Não a conheceu como um homem tem direito adquirido pelo casamento. Obediente à vontade de Deus, foi seu fiel protetor e companheiro e pai adotivo do Filho de Deus. Conviveu com a Virgem Santa no silêncio do mistério que abraçou na fé.

Ir. Ivan, será São José seu padroeiro e, doravante, levará seu nome. Que ele interceda por todos nós que acreditamos nesse matrimônio inefável: desposar a Rebeca, isto é, a comunidade que Deus escolheu para nós.

Peçamos, igualmente, por nosso Ir. Atanásio que hoje retoma seu noviciado. Seja, igulamente, fiel à vocação que Deus lhe concedeu. E, juntamente, com Ir. Ivan inicia o noviciado, o tempo de seu noivado com a Rebeca que Deus lhe concedeu, a nossa comunidade. Que ele não desperdiçe esse momento de graça.

Deus nos abençoe a todos!