Homilias/Hospedes › 26/09/2017

Homilia do XXV domingo do Tempo comum

XXV Domingo do Tempo Comum.            Per ritus et preces

Is 55, 6-9; Sl 144 (145); Fl 1,20c-24.27a; Mt 20,1-16

Dom Jeronimo Pereira silva /Monge beneditino do Mosteiro de São Bento de Olinda (Pernambuco/Brasil)

 

No XXV Domingo do Tempo Comum de 2008 eu presidi a Eucaristia nesta sede, nesta casa, nesta comunidade, que me honra com a gentileza de outra vez me confiar a palavra e à Palavra. Mas devo admitir que tremi ao convite e rezei intensamente para que o Espírito Santo me desse uma palavra nova, diferente daquela de 2008 para que os irmãos não se chateassem ou, com razão se adormentassem, ao ouvir-me repetir as mesmas ideias, já que me concederam tamanha honra. Afinal de contas, como diz um grande teólogo norte-americano: “A quem honra, honra”.

A liturgia da Palavra deste domingo (lex orandi) está dentro da dinâmica dos ensinamentos de Jesus destinados à formação da mentalidade, da mens nova necessária ao homem novo, renascido das águas e do Espírito (conversatio). Essa nova mens forjada na sequela Christi tem três estágios fundamentais que se apresentam de maneira sucessiva somente por razões pedagógicas: a lex orandi, que coloca a Igreja numa perspectiva de “eterno catecumenato”, a lex credendi, que abre constantemente a Igreja ao mistério da vida da graça operante e a lex vivendi, que não corresponde à vida moral, mas à vida da graça na sua atuação, que se manifesta na “vida bondosa”, na transformação do batizado no bom odor de Cristo no mundo. Essa verdade está expressa tanto na oração sobre as oferendas, quanto na oração depois da comunhão da eucaristia de hoje. Para que o batizado viva uma vida nova, a vida da graça, ele necessita de uma nova forma de pensar, pois se pensa como pensa o mundo, nunca alcançará “a estatura do homem perfeito, Cristo Jesus” (cfr.: Ef 4, 13). A vida nova exige do crente uma mentalidade nova que se expressa num novo modo de agir.

Essa verdadeira catequese, que se trata de uma catequese verdadeira, começou há cinco domingos e está sistematicamente organizada. Observemos um pouco o seu progresso: no XXI Domingo nós vimos Jesus fundando a Igreja “sobre a profissão de fé na sua divindade” e assegurando que a Igreja nunca seria derrotada, por causa do seu fundamento; no domingo sucessivo, Jesus começa a desmontar a mentalidade mundana dos discípulos quando diz que seria “necessário” ir à “Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que deveria ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”. A este ponto Pedro intervêm impetrando que “Deus não permita tal coisa”, então Jesus o repreende dizendo basicamente o que ouvimos o profeta Isaías afirmar na I leitura de hoje: “Tu não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens”; “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos”. O que Pedro,  que nesse caso é imagem da mentalidade velha, não entendia era que, se o corpo, que é a Igreja, não pode ser derrotado, como poderia a cabeça, que é o próprio Cristo, conhecer o fracasso. A vitória dos membros depende unicamente da morte vitoriosa da cabeça e não dos seus esforços e projetos pastorais. Dizia, de fato a II leitura daquele domingo (Rm 12, 1-2): Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa maneira de pensar, para que possais distinguir o que é a vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito”. O versículo aleluiático, inspirado em Ef. 1, 17-18, pedia ao Pai, por Jesus Cristo, a sabedoria do Espírito.

No XXIII Domingo, o Ressuscitado, o vitorioso, aquele que a morte não pôde derrotar e que tem as chaves que aprisionaram o diabo e os seu anjos nos infernos, ensinou à Igreja a não ser mesquinha, de coração petrificado, fechado à voz do Deus misericordioso (Sl Responsorial 94), mas a viver da abundância do perdão que passa pela correção fraterna e a oração. A isso corresponde a justiça divina: a prática da misericórdia. De fato, o introito daquele domingo afirmava: “Vós sois justo, Senhor, e justa é a vossa sentença. Tratai o vosso servo segundo a vossa misericórdia” (Sl 118, 137.124). E no Domingo passado, o XXIV falou da gratuidade do Perdão: que a Igreja deve agir como age o seu fundamento: Quantas vezes devo perdoar o meu irmão? Até sete vezes? Em resposta Jesus diz que a Igreja deve ter a consciência de que ela foi perdoada por primeiro, e porque fez a experiência do perdão, não pode fazer outra coisa senão perdoar e perdoar sempre.

Hoje o Senhor está convocando a Igreja a viver, segundo a Palavra que ouvimos na II leitura, “à altura do Evangelho de Cristo” (Fl 1, 27a). A parábola que ouvimos no Evangelho de hoje que nos fala de operários da primeira e da última hora e pode ser comparada à parábola lucana do filho pródigo: os operários da primeira hora são o irmão mais velho, “o que está sempre em casa”, os da última hora são o irmão mais novo. O que os operários da primeira hora não entenderam foi a mesma coisa que não entendeu o filho mais velho, a mesma coisa que não entendeu Israel e a mesma coisa que nós, os crentes da nova aliança, somos tentados a não entender, isto é, que a eles, que a nós, foi dada a graça e a dignidade de estar mais tempo “com” o Senhor, em companhia do Senhor, a seu serviço, a seu dispor. Não tendo essa compreensão, acusaram o senhor de injusto, enquanto o salmista hoje nos lembrou: “O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura. É justo o senhor em seus caminhos, é santo toda obra que ele faz”. Não entenderam que, segundo a mentalidade nova, segundo a mentalidade do Reino, segundo a mentalidade do Evangelho, a recompensa, a única recompensa, é o RECOMPENSADOR.

Essa verdade nós a encontramos expressa na primeira palavra que ouvimos nessa eucaristia. A primeira frase do introito de hoje é: EU SOU A SALVAÇÃO DO POVO, DIZ O SENHOR. Trata-se dele mesmo. Essa salvação, que corresponde à vida eterna, da qual fala a coleta, confunde-se com a pessoa do próprio salvador. Por isso a insistência do profeta na I leitura: “Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto está perto; volte para o Senhor, que terá piedade, volte para o nosso Deus, que é generoso no perdão!”. Quem não entender essa dinâmica não entrou no processo longo, doloroso e glorioso da conversatio. Se não quisermos estar na categoria dos últimos precisamos tomar a consciência de que “a nossa herança é o Senhor”.