Artigos, Homilias › 28/11/2017

Homilia da Profissão Solene Dom Anselmo

Profissão Solene e Consagração Monacal de Ir.Anselmo.
26 de novembro de 2017.

Caríssimos Irmãos e Irmãs:
Nesta celebração vespertina, hora em que o Senhor se entregou por todos nós, nosso Ir. Anselmo fará sua Profissão Monástica e receberá a Consagração Monacal. Fará, pois, num rito o que já experimenta na vida, isto é, a configuração com Cristo em seu mistério pascal.
Ir.Anselmo foi o “operário que o Senhor chamou da multidão”, conforme a linguagem de NPS Bento presente no texto do Prólogo de sua Regra. Escutou e com liberdade aceitou o convite para ser monge em nosso Mosteiro. Aliás, nunca é demais sublinhar, a vocação é um convite, jamais uma imposição da parte de Deus. Aceitou o chamado, ou melhor, o dom da vocação monástica e teve a liberdade de escolher este mosteiro, porque sentiu e pressentiu ser aqui o lugar de seu “Grande Retorno”, a volta para Deus, que chamamos de processo de conversão.
Como Abraão, deixou sua terra, seus pais, seus familiares, seus amigos, a vida que então levava e se fez peregrino com outro grupo eclesial, com os irmãos desta comunidade. Aqui percebeu que seria possível ritmar seus passos de forma mais eficaz, rumo à Jerusalém do Alto.
Por Cristo foi Ir. Anselmo “alcançado”, conforme a Epístola aos Filipenses, que escutamos sempre ao celebrar a memória dos Santos Monges. E alcançado mesmo, pois ele bem sabe e pode com segurança dizer com as palavras do Apóstolo: “Irmãos, eu não julgo que eu mesmo o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está diante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Jesus Cristo.” Continua a Epístola: “Entretanto, qualquer que seja o ponto a que chegamos, conservemos o rumo.”
Ir. Anselmo, ancorado pela graça de Deus, que se manifesta na misericórdia de seus co-irmãos, chega a esse momento de sua vida aspirando conservar o rumo.
O que significa conservar o rumo? Significa “perseverar no mosteiro, sob sua doutrina, até a morte, participando, pela paciência, dos sofrimentos de Cristo, a fim de merecer ser co-herdeiro de seu Reino” (Pról. da RB).
Ir. Anselmo veio ao mosteiro para se configurar a Cristo em seu Mistério Pascal, por isso sua profissão se realiza no sacrifício da Missa. E para que essa participação seja efetiva, o mosteiro oferece meios para evitar qualquer desvio do rumo proposto, uma vez alcançado pelo Senhor.
Que meios são esses? Sãos os três votos que professamos: estabilidade, conversão dos costumes e obediência.
Os três votos mencionados na Santa Regra, podemos compará-los aos cravos que sustentam o monge à Cruz, pois não há configuração com Cristo se o monge não se ata à cruz que deve carregar, conforme o ensinamento de Jesus: Quem quiser me seguir, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”.
Por conseguinte, o primeiro cravo que o crava à cruz é a estabilidade. É o cravo dos pés. Promete o filho de São Bento estar unido a uma família monástica, para com ela ritmar seus passos no processo de conversão, o retorno a Deus.
O segundo cravo que o une à Cruz é a conversão dos seus costumes. É o cravo da mão direita. Conversão dos costumes é uma forma de viver o Evangelho na Igreja. Supõe dinamicidade. É a vida monástica em suas observâncias; pedagogia que herdamos da Tradição de nossos Pais. Pelo voto de conversão dos costumes o monge não é um espectador passivo, pelo contrário, atuante, como alguém que arregaça as mangas e põe a mão na massa, como dizemos normalmente. A mão direita significa participação ativa, trabalho, atuação em seu processo de conversão ao Evangelho e à evangelização.
O terceiro cravo é o da mão esquerda: o voto de obediência. É o lado do coração. O voto de obediência para o monge é muito mais do que executar ordens. Ele acontece primeiramente no coração. Porque a obediência é disposição interior, de alma. É próprio de quem aprende a “inclinar o ouvido do coração”. Constatemos que o lado esquerdo do homem é o lado do afeto. A obediência tem muito que haver com afeto. Obedecer, por causa do Cristo, é um gesto afetivo. Obedece-se por amor. Aquele que não ama, dificilmente saberá o que é obedecer; poderá até executar ordens, mas não é o suficiente.
Falta, entretanto, a coroa de espinhos para que o monge esteja completo na cruz, como o Cristo Rei nela entronizado.
A coroa recebe-a pela consagração monacal e da Igreja, por meio de seu abade em nome de todos os seus irmãos. Para sempre estará coroado. Mesmo deixando o mosteiro e tendo devidamente a dispensa dos votos – a coroa não mais usará – mas ficarão em sua fronte as suas marcas. Convém ressaltar, queridos irmãos, Deus, pelo rito da Igreja, consagra o monge a qual não conhece revogação.
Onde quer que o monge vá, seja lá o que faz, saberá sempre que traz nas mãos a perfuração dos cravos de seus votos e na cabeça as marcas da coroa, como o Cristo Rei.
Então, a vida monástica é uma Paixão, um sofrimento tão somente? Não, “É feliz quem escolheis e convidais para morar em vossos átrios” ( Sl 64). A felicidade não é apenas bem-estar. É pacificação interior; é a certeza sustentada pela fé de que fazemos a vontade do Senhor e não a nossa, mesmo carregando a cruz e suportando seu peso.
Tudo o que nosso Ir. Anselmo receberá da Igreja pela vida monástica de nosso mosteiro o auxiliará a manter os cravos que professou e a coroa que ganhou. Portanto, possa ele escutar do Senhor da Messe juntamente com seus irmãos, naquele dia vindouro sem ocaso: “Vinde benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que meu Pai vos preparou desde toda a eternidade”.
A Santa Mãe de Deus, rainha à direita do Rei dos reis, interceda por Ir. Anselmo e por todos nós.
Deus nos abençoe a todos!