Advento, Artigos, Homilias › 25/12/2017

Homilia da Noite de Natal

Natal do Senhor de 2017

Missa da Vigília

 

Caríssimos Irmãos e Irmãs:

 

O belo costume de intercâmbios com presentes na Noite de Natal tem sua origem nesta realidade: a humanidade recebeu de Deus um presente incomparável a nenhum outro por sua natureza: o Verbo Eterno nascido da Virgem. Esta deu à luz Jesus Cristo, o Salvador.

Jesus era um presente esperado. Muitas gerações do Antigo Israel haviam se prepararado para receber o Messias. Os profetas tinham-No anunciado, em especial Isaias.

Durante essa espera, muitos haviam estudado, sonhado, imaginado e fabricado um tipo de Messias. Acreditavam que o Esperado das nações, da família real de Davi, viria em uma situação de nobreza, riqueza e, talvez, em fausto palaciano. Não foi assim, suas expectativas foram frustradas.

José, o pai adotivo de Jesus, era, de fato, da descendência de Davi. Todavia um homem simples e da Galileia. Os galileus estavam distantes de Jerusalém, da corte e da casta sacerdotal. Não eram bem vistos, havendo, inclusive, suspeitas de heresias por seus costumes próprios. Contudo, seus pais se deslocaram de Nazaré para Belém e Deus faz seu Filho nascer na terra natal da família do Rei Davi, para que as profecias se cumprissem.

       Os anjos, naquela noite fria, apareceram aos pastores para anunciar-lhes o grande acontecimento. Tais homens eram pouco considerados pelos piedosos do tempo, pois, por profissão, estavam muito ausentes das obrigações cultuais. Eles, como todos os demais filhos de Abraão, esperavam o Salvador de Israel, porém eram bem mais livres em suas expectativas. Sendo pobres, tudo o que Deus propusesse ou oferecesse já era o bastante. Não tinham condições de nada exigir, além da salvação. Bem sabemos: quem pouco ou nada tem, o que recebe é muito, é mais do que o suficiente.

Se os anjos aparecessem aos sábios e doutores de Israel teriam que discutir com eles os planos de Deus, pois já tinham cálculos, pesquisas e inventários elaborados onde e como nasceria o Messias. Não estavam livres para nenhuma novidade.

O Filho de Deus nasce e é adorado pelos mais humildades e simples. São seus pais e os pastores que o acolhem, são os pobres de IHWH. E Jesus levará até às ultimas consequências essa realidade de Belém. Ao longo de sua vida terá preferência pelos simples, pobres, humildes, pecadores; aqueles de quem Deus não desiste. Aliás, Deus não desiste dos que nós rapidamente desistimos, bem alicerçados em nossos raciocínios lógicos e fatos incontestáveis. O Altíssimo é o eterno contumaz em seus desígnios de amor.

Caros irmãos, o Natal do Salvador nos propõe esse ensinamento: Deus irrompe em nossas vidas de forma sempre inédita. As Sagradas Escrituras nos preparam para constatar a presença do Cristo e de seu Reino entre nós, como havia preparado o povo da Antiga Aliança para receber o Messias. Porém, acumular informações do livro Sagrado ou sobre ele não nos garatem sabedoria nem o verdadeiro encontro do Deus. Faz-se mister, com o auxílio da graça, o imprescindível trabalho para a aquisição da humildade. Abordar as Sagradas Escrituras sem humildade poderá ser para nós e para o mundo todo um desastre, até justificativa para homicídios e genocídios. Em nome de Deus os homens se matam.

Quando esperamos um presente e ele não corresponde às expectativas à qual havíamos criado, precisamos de muita liberdade interior e humildade para aceitá-lo com um bem. Precisamos ter a simplicidade dos pobres de IHWH.

O orgulhoso, ao contrário do humilde, se projeta em tudo, sem possuir a capacidade de perceber Deus e sua ação em si mesmo, nos outros e na história. Por sua inteligência, fabrica o seu deus. Alguém assim, jamais acolherá um presente que não premeditou ou planejou receber. Tudo o que recebe achará merecido e quem lho oferece estaria sujeito a essa obrigação. Um ser humano desse feitio, não tem capacidade para aceitar o presente, o dom gratuito do nascimento do Salvador.

Deus olhou para a humildade de sua serva Maria. Agora, a tão humilde filha de Sião olha para a humildade de Deus em seu recém-nascido, deitado numa mangedoura. Ela, por sua materna intercessão, nos ajude a alcançar a humildade necessária para acolhermos a sempre inaudita ação de Deus em nossas vidas.

Deus nos abençoe a todos!                       

 

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