Artigos, Quaresma, Textos › 20/02/2018

Espiritualidade Quaresmal

Espiritualidade Quaresmal  / D. João Paulo.

O tempo litúrgico da Quaresma, teologicamente, deve ser interpretado a partir do Mistério Pascal, o qual é celebrado no Tríduo sagrado, e com os sacramentos pascais que tornam presente esse Mistério, para que seja vivido e participado. É, portanto, um tempo de experiência mais viva da participação no Mistério Pascal de Cristo: “participamos dos seus sofrimentos para participarmos também de sua glória” (cf. Rm 8,17). Esta é a lei da Quaresma e daí nasce seu caráter sacramental de um tempo em que Cristo purifica a Igreja, sua esposa: “…Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, afim de purificá-la com o banho da água e santificá-la pela Palavra, para apresenta-la a si mesmo gloriosa, sem mancha nem ruga, mas santa e irrepreensível” (cf. Ef 5,25-27). O acento cai, pois, não tanto nas práticas ascéticas, mas na ação purificadora e santificadora do Senhor. As obras penitenciais são, portanto, o sinal da participação no mistério de Cristo, a adesão pessoal daquele que aceita o seu convite de segui-lo e, portanto, tomar a sua cruz, d’Ele que, por nossa causa, se faz penitente recorrendo ao jejum no deserto.

Uma vez batizados, ou seja, ‘purificados pelo banho da água’, agora, no presente de nossas vidas é o Próprio Verbo, a Palavra Divina que, sendo “viva e eficaz, e mais penetrante que qualquer faca de dois gumes” (Hb 4,12), continua a purificação da Igreja, Sua Esposa, completando em Seu Corpo os sofrimentos de Sua Paixão, até que chegue o grande Dia em que, tudo consumado em Seu Amor, Deus será tudo em todos.

Já na primeira leitura do Ofício de Vigílias da IV feira de Cinzas, a Palavra de Deus, vem ao encontro de Sua Esposa, a Igreja, através do autor do terceiro livro de Isaías que, segundo o espírito dos grandes profetas, nos convida à interiorização das práticas religiosas, bem como a realização das obras que, como consequência da sincera piedade, concretizarão neste mundo a justiça e paz: “Buscam-me cada dia e desejam conhecer meus propósitos, como gente que pratica a justiça e não abandonou a lei de Deus” (Is 58,2). O Tempo da Quaresma vem nos lembrar de que o Senhor não se contenta com práticas piedosas vazias que nada têm a ver com a vida de quem as pratica… “‘Por que jejuamos e tu não o vês¿ Mortificamo-nos e não tomas conhecimento disso¿’ A razão está em que no mesmo dia de vosso jejum correis atrás de vossos negócios… explorais… vos entregais a contendas e rixas… feris com punho perverso… É este o jejum que escolhi¿ (cf. Is 58, 3s) Pelo contrário, o jejum que o Senhor prefere consiste “em romper com os grilhões da iniquidade, soltar as ataduras do jugo, em pôr em liberdade os oprimidos… repartir o pão com o faminto, recolher em casa os pobres e desabrigados, vestir o nu…” (id. 6s). Assim, a ação de Sua Palavra em nós quer prolongar no tempo a Vida de Seu Filho Jesus que, “existindo na condição Divina, esvaziou-se a si mesmo e tomou a forma de servo” (cf. Fl 2,6). Portanto, é pelo despojamento de nosso egoísmo, do estar voltados para nós mesmos e nossos interesses, e pela conversão a Deus e ao serviço do próximo é que permitimos que Seu Espírito nos conduza ao deserto afim de falar ao nosso coração e continuar em nós Sua Obra de Salvação(cf. Os 2,16). Vemos, assim, que a relação que Deus quer manter com o homem não deve ter outro fundamento senão o Amor sincero a Ele que, concretamente, se expressa no amor ao próximo.

Continuando a missão que o Senhor Deus pretendeu ao enviá-la (cf. Is 55,11), a Sua Palavra vem até nós também na primeira leitura da Missa da Quarta-feira de Cinzas, através do profeta Joel, que convoca o povo à penitência: “Agora, portanto – oráculo do Senhor – retornai a mim de todo o vosso coração, com jejum, com lágrimas e gemidos” (Jo 2,12). Provavelmente, segundo os estudiosos das Sagradas Escrituras, o livro do profeta Joel fora escrito pelo ano 400 antes de nossa era, no período pós-exílico, ou seja, cento e trinta anos – mais ou menos – após o período de setenta anos em que o povo de Israel – não tendo ouvido a voz do Senhor pela boca dos profetas – ficara exilado na Babilônia, longe de sua terra, de seu templo e de seu culto. Entretanto, mesmo tendo passado pela dura e amarga experiência do exílio, os chefes, magistrados e mesmo os sacerdotes do povo não aprenderam a lição de ficar longe de sua pátria e continuavam a não temer a Deus, oprimindo e escravizando seus irmãos mais pobres em vista de vantagens junto ao Rei da Pérsia. Esta é a situação que suscita a indignação de Neemias quando de sua missão entre os cativos que retornaram de Babilônia para Jerusalém (Ne 5,7s). É, portanto, nesse contexto ou um pouco mais tarde que a Palavra de Deus é proclamada pelo profeta Joel e convoca o povo a voltar a Deus de todo o coração, ou seja, não apenas com palavras, mas com ações brotadas de seu coração, ações essas que unem a piedade e a justiça em favor do próximo.

A nós também, no ‘Hoje’ (cf. Hb 3,13) de nossas vidas essa Palavra vem nos iluminar e convidar para que “retornemos a Deus com todo o nosso coração, com jejum e lágrimas”... “Rasgai o coração e não as vestes” (id.13), ou seja, a piedade, a oração, não deve ser mero aparato externo que atrai as atenções de outros – assim já se ganha a recompensa (cf. Mt 6,2b.5b.16b) – mas interior – “entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está lá, no segredo” (id.,6) – ou seja, o coração deve ser rasgado diante do Senhor, deixando derramar-se diante d’Ele o mal que trazemos em nós e que, por vezes, pensamos ocultar aos olhos do Altíssimo ou dissimulá-lo como se fôssemos justos e sem pecado, pois, conforme o Evangelho deste dia, “ele que vê o que está oculto, dará a recompensa” (id. 4.6.18).

“… E voltai para o Senhor, vosso Deus” (Jl 2,13). Com efeito, voltar-se para o Senhor, converter-se para Ele, é a mensagem central do tempo da Quaresma. E voltar-se para Ele significa, concretamente, deixar-se iluminar por Sua Luz que clareia os cantos mais recônditos de nossa alma e a purifica das escórias a que por muito tempo nos deixamos apegar. Voltar-se para ele, ainda, significa saber com certeza que “Seu olhar penetra os homens” (Sl 10,4) e Sua presença está em toda a parte e, portanto, se praticamos nossa justiça somente para sermos vistos, conforme o Evangelho de S. Mateus, não teremos a recompensa devida àqueles que, com sinceridade o buscam de coração. E, ainda, devemos voltar para o Senhor na certeza de que “Ele é bondoso e misericordioso, lento para a ira e cheio de amor, e se compadece da desgraça” (Jl 2,13), pois, “Ele se enche de ciúme por sua terra e tem piedade de seu povo” (id. 18). Com efeito, o amor de Deus para conosco não pode ser comparado com o nosso em relação a Ele ou ao próximo, que quase sempre está condicionado aos nossos sentimentos e ressentimentos. Se demonstramos sinceridade de coração ao voltar para Ele, Ele esquece tudo o que passou – “Ainda que vossos pecados sejam como o escarlate, eles se tornarão brancos como a neve ; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã” (Is 18,1) – e nos acolhe com a ternura do Pai que é, devolvendo-nos a dignidade de filhos que adquirimos pelo sangue de Seu Filho Jesus e que tantas vezes perdemos pelo pecado.

Assim, todo o Tempo da Quaresma, é pautado de modo especial pela Palavra purificadora do Senhor que quer apresentar a Si mesmo Sua Esposa, a Igreja, “gloriosa, sem mancha ou ruga, mas santa e irrepreensível” (cf. Ef 5,27), continuando no Tempo Sua Obra Salvífica de reconduzir ao aprisco de Seu Pai toda a humanidade que, como ovelha, sempre se desgarra e se perde pelos prados desse mundo tão secularizado e distante de Deus como o nosso.

 

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