Dom Mateus de Salles Penteado

Em uma primeira apreciação, pode-se atribuir ao monge a seguinte definição:  “Um cristão que se encontra numa forma de vida religiosa guiado por e conforme as antigas tradições da Igreja”.

O monge é um cristão que tomou plena consciência das exigências de sua condição de batizado e que, para responder a esta, adota um estado de vida onde lhe são dados  os meus favoráveis  o crescimento e desenvolvimento da graça batismal. Em si, a meta da vida monástica não se difere da meta da vida cristã normal. O monge não pretende uma perfeição superior a do simples cristão; também este está obrigado a tender à perfeição da caridade. O que, realmente, distingue o monge é que ele adotou um gênero de vida, oficial e estável, em que tudo se encontra organizado em vista a esta única meta.

A distinção existente entre o monge e um simples fiel não é vista sob o aspecto de ser um “consagrado” e de um “não consagrado”. Todo batizado é um consagrado, membro de um povo santo, separado do mundo meramente profano e situado dentro dos limites de uma total pertença a Deus. No entanto, o monge, por sua profissão, está constituído como tal num estado de vida, sancionado pela Igreja e em que esta consagração batismal pode expressar e realizar de uma forma privilegiada.

Sob outro aspecto, a vida monástica é uma vida religiosa dirigida conforme as antigas Tradições da Igreja. Isto não significa que seja uma sobrevivência caduca do passado, senão que se encontra construída, em suas estruturas fundamentais, conforme as bases recebidas entre os séculos IV e XII. É a vida monástica tal como concebe a direção do Espírito Santo a Igreja da idade patrística, e é precisamente daí que nasce seu valor permanente. Do mesmo modo os escritos doutrinais dos Padres são considerados na Igreja como “fontes” sempre vivas; pois os ensinamentos ascéticos dos mestres espirituais dos primeiros séculos dão a conhecer uma concepção da vida que permanece viva na Igreja de todos os tempos.

Este gênero de vida é, simplesmente, uma vida onde tudo está organizado em vista da busca da salvação, do pleno desenvolvimento da graça batismal, sem nenhuma classe de especialização.

Dentro da tradição monástica, os termos “vida ativa” e “vida contemplativa” não representam dois estados de vida diferentes, caracterizados por fins secundários distintos (apostolado e obras de misericórdia de uma parte, celebração litúrgica e exercícios de piedade por outra), nem correspondendo tampouco a orações diversas. Mas bem vem a significar dois aspectos da vida espiritual. A vida ativa se define mediante a prática da ascese e o exercício das virtudes, especialmente a caridade fraterna; a vida contemplativa é a vida de íntima união com Deus, saborosa experiência de sua presença no mais profundo de nossa alma, presença que geralmente se vê precedida e preparada por um generoso esforço ascético.

Nessa perspectiva, não se pode separar as duas realidades, vida ativa e contemplativa dentro da vida monástica. A vida do monge é ativa, não no sentido de que esteja organizada com o objetivo de exercer um serviço concreto na  Igreja, senão enquanto leva em si o exercício das virtudes evangélicas e do mútuo serviço entre irmãos, tal qual o requerem as circunstâncias ordinárias da vida. É contemplativa também, mais não no sentido de que o monge tivera com “fim particular” a celebração do Ofício Divino o a realização de determinados exercícios de piedade, senão enquanto está exclusivamente ordenada a promover uma vida de profunda união com Deus, união que envolverá toda a existência em uma atmosfera de piedosa oração, uma vez que se identifica concretamente com a perfeição da caridade teologal.

A nota distintiva do monge com relação aos ascetas que viviam no seio da comunidade cristã durante os três primeiros séculos, é a vida solitária. A causa que deu origem à vida monástica no final do século III foi a retirada ao deserto de alguns desses ascetas. Contudo, prestamente, se desejou obter uma clara diferença no seio da nova instituição, tendo em conta essa vida de solidão havia sido levada individualmente (anacoretismo, com as variantes de recluso e monge peregrino) ou coletivamente (cenobitismo).

Considerando-a em si mesma, a vida cenobítica encontra-se ordenada à perfeição da vida “ativa”; e a vida eremítica, ao pleno desenvolvimento da vida “contemplativa”. Esta é a relação de que toda uma corrente de espiritualidade monástica viu, na primeira, uma simples preparação à segunda, a que todo monge, animado de um ideal autenticamente contemplativo, poderia aspirar.

Os antigos monges, a fim de manifestar de algum modo o ideal pelo qual viviam, utilizaram imagens antes de recorrer a noções abstratas, imagens essas que vieram a ser rapidamente tradicionais e que encerram toda uma teologia da vida monástica.

  • A vida angélica
    A antiguidade cristã chamou a vida monástica de “vida angélica” por quanto aquela está organizada com o objetivo de favorecer em maior medida possível o desprendimento do mundo presente e a pertença do monge ao mundo por vir,  a cidade dos anjos e dos santos. A castidade, a pobreza, a austeridade de vida do monge são ao mesmo tempo sinal da preferência que ele concede as realidades escatológicas e o fruto da vida nova derramada em seu coração pelo Espírito Santo. A oração litúrgica e a contemplação interior são uma participação na liturgia da cidade celeste. 
  • Vida profética
    O monge, localizado num estado de vida que antecipa a condição escatológica da humanidade, e isto graças ao poder do Espírito que vive nele, leva uma vida em certo sentido “profético”. Os antigos gostavam de ver os profetas do Antigo Testamento, sobretudo em Elias e São João Batista, modelos e prefigurações da vida monástica. 
  • A primitiva Igreja de Jerusalém
    Os cristãos da primeira Igreja de Jerusalém, sob a inspiração dos Apóstolos, que levaram uma espécie de vida em comum em torno de Jesus durante os três anos de sua vida pública, se esforçaram por pôr integralmente em prática os ensinamentos do Senhor sobre os bens deste mundo, em vista de sua renúncia pelo Reino, e sobre  a distinção aos pobres daquilo que outros possuem como próprio. A vida comum, descrita nos Atos dos Apóstolos, era sinal da chegada dos tempos escatológicos e as primícias da união íntima final de todos os filhos de Deus na Cidade Celeste. Os monges antigos, a fim de justificar seu gênero de vida, buscavam com reverência essa “vida apostólica” que  desejavam perpetuar na Igreja. 
  • O martírio
    Para os cristãos dos três primeiros séculos, o martírio representava o grau mais elevado de perfeição a que pedia aspirar um discípulo de Cristo, desejoso de seguir a seu Mestre até o fim. O mártir é o “homem do Espírito”. Ele possui e vive a experiência da força de Cristo ressuscitado que triunfa nele, concedendo-lhe o amor de Deus mais forte que todos os alicerces do mundo presente.
    No momento em que finalizavam as perseguições, os monges aparecem como sucessores dos mártires. Também eles revivem a paixão de Cristo, enfocada sob o aspecto de obra de amor e de combate contra o demônio. E assim como o martírio foi considerado “um segundo batismo” (uma radicalização do batismo), já que nele se realizava plenamente a configuração com a morte e ressurreição de Cristo, inaugurada sacramentalmente no batismo, também a vida monástica, em sua totalidade, desfrutou deste mesmo título, por meio do qual o monge se esforçava em realizar livre e pessoalmente o mistério sacramental. Não foi senão mais tarde quando tal tema se aplicou ao ato da profissão monástica.
    Estímulo do monge em seu combate ascético, o martírio o é também de sua contemplação, já que esta não tem outro significado senão a experiência do amor de Cristo derramado em nossos corações. 
  • O monge na Igreja
    Do dito anteriormente, podemos ver que a Igreja volve a suas origens na Ordem Monástica. E não mediante um retorno arqueológico do passado, senão através de um deslocamento ao mais profundo que em si encerra. Dentro do monacato, a Igreja se reconhece de novo como Igreja dos Apóstolos, dos Mártires e dos Padres. Ao mesmo tempo manifesta nele, de forma mais tangível que em outra parte, seu caráter escatológico. Dentro da Igreja a vida monástica não é um ministério nem uma tarefa particular. A diferença do estado sacerdotal e do matrimônio não se fundamenta sobre um sacramento concreto, pois o que possui de específico a situa, não na ordem dos sinais sacramentais, senão no das realidades da graça significadas pelos sacramentos. A vida monástica é simplesmente o lugar onde tudo está organizado a que os meios de santificação, cujo depósito recebeu a Igreja, produzam todos os frutos da vida do Espírito.
    É precisamente, por isso, que o monaquismo se situa deveras no coração da Igreja, cujo mistério total ele recapitula sobre certo aspecto. A instituição monástica representa a forma de vida que a Igreja, mestra da perfeição, propõe ao homem que já não deseja viver senão para desenvolver plenamente em si, mediante o manejo acertado de seu livre consentimento, os germes da graça depositados em seu coração pela proclamação da Palavra de Deus e a celebração dos mistérios do culto. A este título, o monaquismo constitui o aspecto mais profundo e interior da tradição eclesial e reveste um valor de modelo para todo cristão.
    Ademais, o monge, como todo amigo de Deus, desfruta de um poder de intercessão  muito poderoso que constitui algo assim como um sacerdócio espiritual. Ao mesmo tempo, o monge santo e o mosteiro em que vive, exerce, mediante a irradiação da beleza espiritual que deles flui, um poderoso atrativo sobre as almas, e contribuem para introduzi-las no mistério do Reino de Deus, cuja presença secreta sobre nossa terra eles manifestam.