Artigos, Homilias › 10/04/2017

Domingo de Ramos e da Paixão de 2017

Domingo de Ramos e da Paixão de 2017/Dom Abade Andre Martins.

                                                                                   

Caríssimos Irmãos e Irmãs:

Com esta solene celebração, a Igreja inaugura a Semana Santa deste ano de 2017, em dois momentos celebrativos muito precisos da Liturgia da Palavra, que vivemos intensamente e que se complementam.

No primeiro, com a proclamação do Evangelho de São Mateus, narrando a entrada solene de Jesus em Jerusalém, aclamamo-Lo Rei dos reis, no júbilo dos hosanas. No segundo momento, com o coração contrito, a Paixão do Senhor padecente no Calvário. Dois momentos celebrativos distintos, porém inseparáveis, porque o Rei que ingressa na cidade de Davi toma posse de seu trono: a cruz.

Portanto, a celebração de hoje tem como seu núcleo de fé o mistério do Cristo como rei. Um Rei que veio instaurar um Reino – o Novo Israel – cuja lei por excelência é o amor.

Mas como viver o amor, de essência divina – Deus é amor, conforme o Evangelista João – que irrompe no homem, criatura marcada pelo pecado desde a sua concepção?

A palavra da Igreja, nesta liturgia, nos responde através da Oração de abertura da primeira parte desta celebração: “Ó Deus de bondade, aumentai a fé dos que esperam em vós…”

Pedimos a Deus que aumente a nossa fé para sermos verdeiros cidadãos do seu Reino e como tais, viver a sua lei suprema: o amor. É o que esperamos!

Contudo, quem não tem fé no Cristo não ama?

Ama sim, mas na medida do humano. Ama até o limite da justiça. Ama enquanto se preserva de todo e qualquer infortúnio. Poderá amar até as últimas consequências sem saber que o Divino pode penetrar e penetra no humano para o bem de todos, induzindo, mas não coagindo, à vivência do amor, pois Deus ama indistintamente todas as criaturas.

Entretanto quem tem fé em Cristo Jesus, e vive sustentado pela graça dos sacramentos da Igreja, que nada mais são do que seus gestos salvíficos prolongados no tempo, é capaz de amar como Deus ama; ultrapassar os limites do humano, ou seja, morrer pelos inimigos, o justo pelos injustos, como o fez o Senhor. Temos uma multidão de santos que não deixam equívocos.

Contudo, o amor existente entre nós e Deus e, também, entre nós criaturas – uma realidade que constatamos ao longo de nossa existência – jamais contém em si uma mesma intensidade. Haverá sempre uma parte que ama mais e outra menos.

Temos essa experiência quando nos propomos a amar alguém. Num primeiro instante nos iludimos crendo que a pesssoa, objeto de nosso amor, nos ama na mesma intensidade que a amamos. Depois, descobrimos que poderá nos amar mais ou bem menos. Quando menos, vem a desilução, a revolta e o desejo de excluir da pauta de nossa vida o impulso inato em nós para amar. Se, porém, descobrimos que somos mais amados do que amamos, corremos o risco, se desonestos, do desprezo, da indiferença, da manipulação ou da minimização do outro.

Com Deus a realidade é outra. Ele sempre nós amará primeiro e com maior intensidade, pois é de sua natureza e de sua essência o amor. Somente em Deus o amor existe em plenitude.

Nos seres humanos marcados pelo pecado, a vivência do amor será sempre uma deliberação a ser sustentada; um aprendizado sempre atualizado; um fracasso assiduamente relevado; um início insistentemente retomado.

Em Cristo, Deus nos amou e ama em plenitude quer ao agitarmos nossos ramos de palmeiras na alegria dos hosanas quer gritando inconsequentes ao crucifica-O.

Entretanto, quando o que acabamos de mencionar nos diz respeito, ou seja, experimentamos a passagem dos hosanas para o crucifica-O pregados na cruz, isso, caros irmãos, é experimentar o gosto amargo da morte. E, lamentavelmente, nós o fazemos e o experimentamos com mais frequência do que podemos imaginar. Migrar do afeto dos hosanas para o desafeto da cruz da rejeição é uma árdua realidade, uma árdua aceitação. Entre nós somos instáveis no amor; o que não acontece em Deus. Resta-nos, pois, suplicar-Lhe que aumente nossa fé para assumir a disparidade na intensidade do amor entre nós. Não esperar do outro o que não pode ou não quer nos dar. O amor é pura gratuidade.

Peçamos ao Senhor que aumente nossa fé, pois pelo batismo fomos incorporados na vida divina e pela Eucaristia somos sustentados em nossas debilidades. Portanto, com o auxílio da graça, podemos amar como Cristo amou mesmo sofrendo ou gozando a disparidade na intensidade do amor existente entre ambas as partes humanas.

Não desanimemos, a vida é um processo aonde vamos descobrindo que o amor entre nós não acontece como vasos comunicantes. Quando pouco amados, Deus nos dará forças para chegar à estatura de Cristo e agir como Ele agiu.

Pelo mistério pascal do Redentor, Deus nos salvou da noite fria da morte para conduzirnos à Jerusalém do alto no calor envolvente de seu amor divino. Por conseguinte, peçamos: aumentai a nossa fé, Deus todo-poderoso, pois nos fizestes a vossa imagem e semelhança, ou seja, para amar.

Deus nos abençoe a todos!

 

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