Advento, Artigos › 21/12/2017

Conferencia para Comunidade/Imaculada Conceição/D.João da Cruz

Imaculada Conceição

 

Para entender o significado desta solenidade é preciso lembrar que a princípio, esta festa foi instituída pelo papa Pio XI, teve por motivo a proclamação do dogma, no dia 08 de Dezembro de 1854, pouco tempo antes da aparição de Lourdes (25 de Março de 1858). A definição dogmática tornou mais preciso o sentido dessa verdadeira fé e a firmou de modo solene a fé constante da Igreja. A festividade da Imaculada Conceição começou a ser celebrada no Oriente no século VIII e, um século depois em muitos lugares no Ocidente, primeiro na Itália meridional, em Nápoles, e depois na Inglaterra. Da Inglaterra passa para o continente, primeiramente na França, mais tarde para a Bélgica, Espanha e Portugal e alguns mosteiros na Alemanha.

Por volta do ano 1.128 um monge beneditino da Igreja de Cantuária, Eadmero ou Eadmer ao escrever o primeiro tratado sobre a Imaculada Conceição, lamentava que a relativa celebração litúrgica apreciada sobretudo por aqueles “nos quais se encontravam uma pura simplicidade e uma devoção mais humilde a Deus”, tinha sido posta de lado e suprimida. Desejando promover a restauração da festa, o piedoso monge recorre de modo oportuno a imagem da castanha “que é concebida, nutrida e formada sob os espinhos, mas que contudo, permanece protegida das suas picadas” (Tratado 10). Mesmo sobre os espinhos de uma geração que deveria transmitir o pecado original, argumenta o monge, Maria foi preservada de qualquer mancha, por explicito desígnio de Deus que “manifestamente o pôde e o quis, fê-lo.” (ibid)

Graças ao Beato Duns Escoto que veio em socorro das controvérsias causadas pelos grandes teólogos do século XII em resposta ao tratado escrito pelo monge e tendo como base a linha agostiniana, ele inaugura na teologia o conceito de redenção preservadora, segundo o qual Maria foi redimida de modo ainda mais admirável: não mediante a libertação do pecado, mas através da preservação do pecado. Tal intuição deu ao beato o título de “Doutor da Imaculada”, obteve um bom acolhimento por parte dos teólogos, sobretudo os franciscanos. Depois da aprovação por parte do Papa Sisto IV, em 1477, da missa da Imaculada Conceição, esta doutrina foi cada vez mais aceita nas escolas teológicas.

Este providencial desenvolvimento da liturgia e da doutrina preparou a definição do privilégio mariano por Parte do Magistério da Igreja. Este após alguns séculos, verificou sob o estimulo da fé fundamental: a Mãe de Cristo devia ser perfeitamente santa desde a origem da sua vida.

Para Maria, primeira remida por Cristo, a qual teve o privilégio de não ser submetida nem sequer por um momento ao poder do mal e do pecado, olham os cristãos, como para o modelo perfeito do ícone daquela santidade, que são chamados a alcançar, com a ajuda da graça do Senhor, na sua vida.

Na reflexão doutrinal da Igreja do Oriente, a expressão “cheia de graça”, foi interpretada desde o VI século, no sentido de uma santidade particular que investe Maria em toda a sua existência. Deste modo, ela inaugura toda a criação.

A liturgia vai colocar nos lábios de Maria, a Esposa do Espírito nessa Solenidade, um trecho bíblico que expressa o cumprimento da antiga profecia de Isaias: “Transbordo de alegria no Senhor e minha alma exulta em Deus, pois Ele me revestiu de justiça e salvação, como uma noiva ornada com as suas joias”. (Isaias 61,10)

Tudo o que é formoso e belo, e que se pode dizer de uma criatura, cantamos nessa solenidade a Maria, a porta do céu. Santo André de Creta por essa ocasião canta o seguinte texto: “Exulte hoje toda a criação e estremeça de júbilo a natureza. Alegre-se o céu nas alturas e as nuvens espalhem a justiça. Destilem os montes doçuras de mel e júbilo as colinas, porque o Senhor teve misericórdia do seu povo e suscitou-nos um poderoso salvador na casa de Davi, seu servo, quer dizer, nesta Imaculadíssima e puríssima Virgem, por quem chegam a saúde e a esperança dos povos”.

No seu propósito de salvar a humanidade, a Santíssima Trindade determinou que Maria seria escolhida como mãe do Filho de Deus feito homem. Mais ainda: Deus quis que Maria se unisse por um só vinculo indissolúvel, não só ao nascimento humano e terreno do Verbo, mas também a toda a obra da redenção que Ele levaria a cabo. No plano salvífico de Deus, Maria está sempre unida a Jesus, perfeito Deus e homem perfeito, único Mediador e Redentor do gênero humano. O Concilio do Vaticano II no documento da Lumen Gentium nos ensina que Maria “foi predestinada desde a eternidade juntamente com a encarnação do Verbo Divino, como Mãe de Deus, por desígnio da Providência Divina”.

         Por esta escolha admirável e totalmente singular, Maria desde o primeiro instante de sua existência, ficou associada a seu Filho na Redenção da humanidade. A Rainha da Paz é a mulher do qual ouviremos no livro do Gênesis na primeira leitura desta solenidade. Depois do pecado original, Deus disse a serpente: “Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a dela”. São João Paulo II ressalta em uma de suas catequeses que essa versão do texto não corresponde ao hebraico, no qual não é a mulher, mas a sua linhagem, seu descendente, que esmaga a cabeça da serpente. O texto não atribui a Maria, mas a seu filho, a vitória sobre satanás. Entretanto, dado que a concepção bíblica apresenta uma profunda solidariedade entre o progenitor e a descendência, é coerente com o sentido original da passagem da representação da Imaculada que esmaga a serpente, não por própria virtude segundo São João Paulo, mas pela graça do Filho.

Santo Irineu apresenta Maria como a nova Eva que, com sua fé e obediência, equilibrou a incredulidade e a desobediência de Eva. De Maria nascerá uma nova linhagem, que é a Igreja. Em virtude dessa escolha, a santíssima Virgem recebeu uma plenitude de graça maior do que a que se concedeu a todos os anjos e santos juntos; encontra-se em uma posição singular entre Deus e as criaturas. Ela, segundo a Lumen Gentium “ocupa o lugar mais alto e mais próximo de nós”.  É o modelo perfeito da Igreja e de todas as virtudes, Aquela a quem devemos contemplar no nosso esforço por sermos melhores, tendo como meta os instrumentos das boas obras vivendo no claustro e com a estabilidade que a regra nos propõe no capítulo IV.  Por graça de Cristo, quanto mais se difunde a sua devoção, mas Ela atrai os fiéis para Cristo e para o Pai. E aqui gostaria de lembrar o verdadeiro sentido da palavra devoção na nossa língua. Devoção significa uma vida de piedade (no sentido de amor e respeito), dedicação a algo ou a alguém. Logo quanto mais nos devotamos a Maria, mais seremos instrumentos para que a Santa Mãe de Deus possa estar mais próxima de seus filhos como nos ensina a Lumem Gentium.

Com o nosso olhar em direção ao que não passa, fazendo das palavras de São João Paulo II as nossas, pedimos: Maria, Rainha dos monges, “como a estrela que nos guia pelo céu escuro das expectativas e incertezas humanas, recorremos a vós especialmente neste dia em que, sob o fundo da liturgia do advento, brilha esta solenidade da Tua Conceição e te contemplamos na eterna economia divina como porta aberta através da qual deve vir o Redentor do mundo”.

 

U.I.O.G.D

        

 

Bibliografias:

– A redenção da Imaculada. Catequese do santo Papa Joao Paulo                       II – L’Oservatore Romano, Ed. Port. N.23, 08/06/96, pág 12 (288)

– Concilio do Vaticano II – Constit. Lumem gentium – 54,61,63,65.

– São João Paulo II – Alocução, 8-XII-1982.

– Isaias 61,10; Antífona de entrada da missa do dia 08.12

– Santo André de Creta, Homilia I na natividade da Santíssima Mãe de Deus.

–  Bíblia de Jerusalém