Artigos, Homilias › 02/11/2018

Comemoração dos Fiéis Defuntos 02 de novembro de 2018/Dom Abade Andre

Caríssimos Irmãos e Irmãs:

Fazemos a Comemoração dos Fiéis Defuntos, aqueles que adormeceram na esperança da ressurreição. Porém, em toda celebração eucarística fazemos a memória dos nossos entes que partiram desta vida e aguardam o último dia. Não são abandonados pela Igreja, que para esse dia sem ocaso se encaminham.

Cristo, a cabeça da Igreja veio a este mundo para dar-nos vida e vida eterna. Veio para resgatar os filhos de Adão decaídos no pecado. Com sua morte, Jesus matou a morte e voltando para o Pai abriu-nos as portas da eternidade, como cantamos na noite Santa de Páscoa. Como nos diz São Paulo, na Epístola aos Romanos, Cristo morreu por nós, isto é, em nosso lugar; o justo pelo injusto. Por Ele, temos a vida eterna.

A Igreja não abandona todos aqueles que foram incorporados em seu seio mediante o sacramento batismo. Até que o Senhor retorne para tudo consumar em seu amor, a Igreja recomenda à misericórdia do Senhor e os apresenta aos ainda peregrinos para o devido sufrágio.

Todavia, para uma melhor compreensão da realidade que celebramos hoje, recorro às imagens bíblicas, ricas em seu significado.

Nós cristãos somos peregrinos rumo à terra prometida, o “Além Jordão”. Saímos da terra da escravidão – o Egito – ao nascermos para este mundo, passando pelo Mar Vermelho, isto é, pelo sacramento do batismo e somos introduzidos no deserto, lugar onde se apenas acampa, onde arma-se cabanas e não se tem morada fixa; é a vida que levamos após o sacramento da regeneração. E nossa vida acontece no deserto, num tempo determinado que nos é concedido por Deus.

Como o antigo, nós o Novo Israel, que é a Igreja de Cristo, peregrinamos estimulados por uma promessa: a terra prometida. Um estímulo sustendo pela fé, dom de Deus na liberdade do homem. Um estímulo que nos contagia e é, ao mesmo tempo, contagiante, ou seja a vivência da caridade. Um estímulo que nos mantém firmes na marcha, a esperança.

Sem crer na promessa, atingir a terra prometida; sem crer na promessa que o Verbo Eterno pronunciou: “É esta a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, mas os ressuscite no último dia”, morreremos todos ofuscados por uma luz que nos cega, que não ilumina os nossos passos; por um calor que nos gela o coração, abandonando-nos no medo de uma solidão existencial; por uma miragem que não nos leva a lugar nenhum, nem sequer a nós mesmos.

O deserto, caros irmãos, existe para peregrinos. Existe para nos levar a todos, sem exceção, à margem do rio Jordão, que é imagem de nosso último instante de vida.

Atravessar o Jordão, imagem da morte, é, exatamente, a imagem da páscoa derradeira que todos experimentaremos e que ninguém escapará. A morte é passagem, é ponte que nos leva à eternidade.

E como o atravessaremos? Só Deus sabe? Não! Deus sabe tudo porque é onisciente. Podemos dizer com segurança: Só nós sabemos. O como vivemos neste mundo, será o como atravessaremos o Jordão.

Quem viveu sob o olhar de Deus, trilhou o caminho da humildade servindo como o Senhor serviu, amou como Jesus amou, anunciou com gestos e palavras o Evangelho, deu de comer aos famintos, saciou os sedentos, vestiu os nus, hospedou o estrangeiro, visitou e cuidou dos enfermos, consolou os prisioneiros, como poderá temer a travessia das águas da morte?

E mais, ao pisar na Terra Prometida a Trindade Santa nos acolherá com aquele abraço afetuoso do Pai da parábola do filho pródigo. O banquete estará preparado. Os Anjos, Arcanjos, Querubins, Serafins e os Santos todos entoarão o Glória mais sublime, que vivente algum poderia ter ouvido e saboreado na terra, senão o “Glória”  na noite do nascimento do Salvador que os pastores ouviram. A alegria por um só pecador que se converte é inenarrável.

Mas o céu conhece também a tristeza. Quando alguém se detém nas águas da morte para ser purgado o Glória não é entoado. Porém, o abraço, graças à bondade de nosso Deus, não se perde, se transforma em bênção, em esperança, em misericórdia, porque Deus é amor.

Caros irmãos, o mistério da morte é insondável.

A palavra do Cristo nos conforta, pois se torna Carne no sacrifício da cruz que prolongamos em cada Eucaristia, sendo penhor de salvação.

Esta celebração nos leve à vivência do Evangelho sem restrições. O Corpo e o Sangue do Senhor nos guardem para a vida eterna. Que a oblação do Cristo no altar da cruz, que a Igreja realiza, nos conduza todos juntos, mortos e vivos à glória eterna no último dia.

Amém.