Artigos, Homilias › 19/04/2017

Ceia do Senhor de 2017/Homilia de Dom Abade Andre Martins

Ceia do Senhor de 2017

 

Caríssimos Irmãos e Irmãs:        

 

No Domingo de Ramos e da Paixão, discorríamos sobre a seguinte realidade: há sempre disparidade na intensidade do amor entre nós humanos e entre nós e Deus.

Sob esse aspecto, não somos vasos comunicantes. Por isso constatamos que no relacionamento entre pessoas uma delas poderá amar mais ou menos que a outra, jamais na mesma intensidade. Assim somos em nossa relação interpessoal. Exceto, quando se trata do amor de Deus para conosco. Ele, a plenitude do amor, nos amará sempre mais e se debruça sobre nossa pequenez para, abraçados por sua graça, chegarmos à estatura de Cristo, que amou-nos até a morte e morte de cruz; que amou e deu sua vida pelos inimigos.

Hoje, dia em que o Senhor nos deixou o Sacramento do amor, que é a Eucaristia, ciente da disparidade do amor entre Ele e os seus e entre os seus discípulos, retira o manto, deixa a presidência da Ceia e se põe a lavar os pés daqueles que dariam continuidade à sua obra redentora como seus ministros.

No gesto do lava pés, atividade do escravo, Jesus mostra-lhes que o amor, realidade divina no humano, inicia-se com o serviço ao outro. Serviço este que significa pensar, cuidar, socorrer, consolar, promover, corrigir e dignificar a pessoa amada, antes de todo e qualquer sentimento aprazível da paixão.

Pedro, que acreditava amar sem limites seu Mestre, opõe-se ao seu gesto escandaloso, pois um judeu não poderia lavar os pés de outro filho de Abraão.

Perguntemo-nos, então: poderia aquele que recebeu do Cristo tanta confiança, afeto, atenção, doutrina e o primado entre os Apóstolos aceitar que o Senhor o amasse tanto e dessa foram, servindo-o como a um escravo? Por sua atitude, podemos denotar a sua baixa intensidade de amor para com seu Mestre. Caso contrário, intuiria Pedro que quem ama é capaz de tudo pelo amado. Um amor mesquinho não crê nem suporta ser amado pelo “louco e desconfortável” amor de Deus e de seus irmãos.

Jesus bem sabia que seus discípulos o amavam, mas não tanto quanto Ele, pois na hora da dor Pedro o negaria, os demais fugiriam, restando apenas aquele que se debruçou sobre seu peito, sua Santa Mãe – impotente no amor aos pés da cruz – e algumas mulheres.

Poderá alguém, mesmo Deus, exigir uma notável intensidade de amor por quem ama? Não! Nem mesmo Deus, pois Ele respeita a nossa liberdade. Conviver com essa realidade é sabedoria e já capacidade de amar como Deus ama.

Jesus tendo amado os seus amou-os até o fim, diz-nos o Evangelho, sofrendo e importando-se sim com a pouca intensidade e autenticidade de amor dos seus, mas não desistiu de morrer por eles e por todos nós.

Terminado o gesto do lava pés, o Senhor retoma seu manto e senta-se de novo e com autoridade pede-lhes que siga seu exemplo.

Amar verdadeiramente é assim, independentemente do quanto somos amados amamos sempre, também na dor, no sofrimento, no desprezo, na indiferença ou no abandono. Se na falta de correspondência de nosso amor desistimos da pessoa amada, tenhamos certeza, nunca houve amor, apenas paixão. E a paixão nos engana, faz-nos crer que gostar é amar. Prova disso, são os inúmeros relacionamentos humanos que terminam não no desprezo, mas no ódio porque sustentados apenas pelo sentimento subjetivo do gostar.

Para amar, que é uma deliberação e supõe aprendizado, será preciso contar, serenamente, com a disparidade na intensidade do amor entre ambas as partes humanas.

Deus não desiste de nenhuma de suas criaturas, pois negaria sua essência que é amor. Que Ele nos conceda a graça de não esperar daqueles que são chamados a serem objetos do nosso amor a intensidade de amor que desejaríamos ou esperaríamos. Cada um dá o que pode e tem, e se dá na medida em que experimenta a plenitude do amor de Deus, que sacramentalmente experimentamos no sacrifício da cruz, renovado sobre o altar em cada Eucaristia.

Nós cristãos, ajudaremos a muitos se soubermos viver e elucidar essa realidade humana: não vivência do amor não somos vasos comunicantes; há sempre uma disparidade na intensidade do amor, exceto com Deus, que nos amou primeiro e nos ama em plenitude.

Deus nos abençoe a todos!

 

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