Artigos, Textos, Vida Monástica › 28/02/2018

Análise Literária e Comentário do texto do “Pai Nosso”

Análise Literária e Comentário do texto do “Pai Nosso” /Ir. Paulo Leme Duarte, Osb

O texto da oração Pai Nosso, nos é apresentado por dois Evangelhos Sinóticos; em Lucas (Lc 11,2-4) um discípulo pede ao Senhor que os ensine a rezar; e em Mateus (Mt 6,9-13), Jesus está falando da verdadeira forma de orar, não utilizando de vãs repetições como fazem os gentios. Dentro de cada um dos textos da oração, verifica-se que cada autor apresenta pedidos ao Pai: Lucas possui 05 petições e Mateus 07.

Ao comparar os textos de Mt e Lc, percebemos os acréscimos de Mt em relação ao Pai (ABBA) “… que estais no céu” (v.9), e no v.10 acrescenta ao Reino: “…que seja feita tua vontade, assim na terra como no céu”. Dentro do contexto do “Pão Nosso”, percebe-se que Lc e Mt, usam o mesmo sentido em suas colocações, mudando apenas as expressões: “hoje” em Mt e a “cada dia” em Lc. E Lc diverge de Mt  na questão do “… perdoa-nos as dívidas”, Lc coloca-nos “… nossos pecados”. Mt acrescenta ainda o “…livra-nos do maligno”.

Ainda que Lc e Mt tenham elaborado cada um o “Pai Nosso” de uma forma singular, a preservação do Núcleo Histórico é uma constante em ambos. Embora haja particularidades literárias em cada um dos Evangelhos, o “Pai Nosso” possui como caracterização de núcleo histórico o “ABBA”, palavra muito original da proposta de Jesus, mostrando uma grande intimidade com Deus, a tal ponto de chamá-lo de “Papai”. Decorre ainda dentro deste núcleo a questão do “Nome” de Deus, fator que carrega toda a tradição bíblica do respeito ao “Nome de Deus”. Aparece ainda o “Reino”, como caracterização do porte messiânico da práxis de Jesus. O “Pão Nosso” elemento constante na vida pública de Jesus e material das celebrações litúrgicas (memorial) das comunidades dos Evangelhos. A “Dívida” como relação econômica na vida do povo, cujo perdão destas traz a proposta do Ano Sabático e, finalmente a “Tentação” como a imanência da expectativa de uma libertação de cunho escatológico que se fará pela superação das propostas e atitudes que na vida de Jesus e das comunidades marcam sinais de negação e até traição da emergência do Reino.

Dentro ainda dos textos do “Pai Nosso” de Lc e Mt, podemos realizar uma análise sociológica, apresentando 04 pontos: economia, classes sociais, política e ideologia. Na questão econômica, o “Pai Nosso” centra sua atenção enquanto discorre sobre tornar a terra como céu, entendendo nisto, que a implantação do Reino conota o estabelecimento de uma nova ordem econômica, sem exclusão social, sem acumulo (o pedido é do Pão cotidiano) e sem a prática experimentada pela comunidade numa sociedade do acumulo econômico nas mãos de uma minoria, onde impera a agiotagem. A ruptura que o texto propõe ramifica-se em dois pontos essenciais: o Pão sem acumular, pois é o pão de cada dia e, o Perdão que quebra com a formação da especulação econômica. Em nível de classes sociais, observa-se o “ABBA” como representante não de um modelo sócio-econômico centralizado e excludente, mas de uma nova ordem social. Sendo “Pai Nosso”, esse “nosso” propõe a identidade do povo excluído e descontente como o modo de viver social discriminador e representado em Mt pelo “maligno”. De fato, “Pai” especifica uma classe social espoliada em busca de mudanças efetivas e o “Maligno” representa a perpetuação do modelo social que privilegia somente o grupo dos enriquecidos. O “perdão das dívidas” de Mt  emerge como que um clamor de uma classe estigmatizada pelo tributo e pela agiotagem econômica. Implícito ao perdão das dívidas entra em cena, ainda que veladamente no texto a imagem dos credores que se enriquecem com a prática da usura. Ao lermos os Evangelhos percebemos quem são aqueles que correm a Jesus: doentes, viúvas, órfãos, pecadores, classes excluídas tanto pelas autoridades judaicas como pelo império governante. No nível político do “Pai Nosso” é proposto em dois grandes elos antagônicos: Reino e anti-reino. No Reino, o Pai surge como o que estabelece uma nova ordem política. Pai não pode ser entendido como patrão, chefe, governante de um reino monárquico, palpável na experiência do povo da Bíblia. Pai deve ser entendido como Aquele que olha e se preocupa com seu povo, pois é o que garante o pão cotidiano e o novo modelo sócio-econômico. Noutra perspectiva o anti-reino é a oposição a esta proposta, é onde esta o “maligno” de Mt, o anti – pai, o opositor a política favorável a vida digna do povo. Deste modo, Reino é a Basiléia, é o céu que deve ser estabelecido na terra, e a tentação e o maligno são as propostas que visam perpetuar a política anti – reino. No nível ideológico, o “Pai Nosso” é um conflito: Pai x maligno; vontade (libertadora) de Deus X tentação (maligno); Perdão X Usura. Tais conflitos dão-se na constatação objetiva de que as comunidades mateana e lucana possuem à sua frente a não a realização de uma sociedade geradora e protetora da vida. Na verdade Lc e Mt transpõem no seu “Pai Nosso” a realidade de um povo que vive o conflito de ter á sua frente um império maligno, tentador, estabelecido à força e perdurado na exploração econômica da vida do povo. O grande fetiche que o texto desvela é a hipocrisia do acumulo de bens advindo do modelo tributário e ainda mais reforçado na prática da usura que distância ainda mais os homens uns dos outros. A derrubada deste fetiche nos textos é proposta na ruptura como o modelo acumulativo, onde o pão cotidiano nega o acumulo de bens e o perdão das dividas instaura uma virada radical na estrutura econômica, o novo ano sabático de Mt. O pedido de que o Pai venha com seu Reino não é somente um pedido de cunho moralista, mas um compromisso de travar uma luta para superar toda a tentação e romper com o maligno.

Leitura Teológica: Inserido na conjuntura especifica de cada uma das comunidades que o elaboram, o “Pai Nosso” vai obter, além do seu núcleo histórico, construções de estruturas literárias e teológicas que darão a identidade da comunidade de Mateus e Lucas. Em relação a ambos a figura do “Pai” aparece como aquele que, dentro de uma proposta social divergente de onde as comunidades se situam, sugira definindo uma nova forma de viver social, na implantação de uma estrutura político – econômica marcada por tudo aquilo que o “Reino” venha significar para as comunidades dos evangelhos. Da mesma maneira a questão do “Pão Nosso” traz em seu bojo o demonstrativo de um viver, prático, demonstra a radicalidade em se romper com um modelo excludente e aliar-se à proposta de um novo modelo de partilha, embasado num dos fundamentos da práxis de Jesus e da memória dos pobres em todo Antigo Testamento. Ainda em nível de ruptura, desponta a proposta do “perdão das dividas” como condicional para também obter-se o perdão; vale destacar que dividas faz parte da proposta de Mateus, enquanto que pecados, que denota mais uma questão moral é especificação de Lucas. E Mt o “céu” é onde se encontra o viver pleno da vontade do Pai e, por conseguinte, aquilo que deve mover a ação evangelizadora da comunidade, isto é, que a terra seja como o céu, ou ainda que o Reino se estabeleça, o que engloba tanto Mateus como Lucas.

O “Pai Nosso”, tanto para Mateus quanto a Lucas apresentam uma estrutura típica, isto é, um Quiásmo (pensamento central). Em Mateus se encontra 07 petições, e 07 já é um número teológico que significa plenitude, o centro do quiásmo esta fixado no “Pão Nosso”, o que sugere que a vida da comunidade mateana e sua catequese centram suas atenções na proposta da partilha, não do acumulo, mas gratuidade. Lucas em seu texto apresenta 05 petições e centra seu quiásmo no termo “Reino de Deus”, sugerindo assim a comunidade lucana uma ação evangelizadora no estabelecimento do Reino.

Finalizando, nós cristãos quando rezamos a oração do Pai Nosso, devemos ter em mente que não estamos repetindo uma oração, mas orando ao Pai da forma como Jesus nos ensina, buscando a cada dia que o Reino se instale em nosso meio, e isso através do amor, da partilha do pão, da vivencia como irmãos, filhos de um mesmo Pai.