Advento, Artigos › 30/11/2017

Advento/ conferencia para a comunidade 29/11/2017/D.João Paulo

ADVENTO

  1. História e significado do Tempo do Advento

As verdadeiras origens do Advento são incertas e as notícias que nos chegaram são escassas. Faz-se necessário distinguir elementos relativos a práticas ascéticas de outros de caráter propriamente litúrgico: um advento como tempo de preparação ao Natal e um advento que celebra a vinda gloriosa de Cristo (advento escatológico).

O Advento é tempo litúrgico típico do Ocidente, sendo que, as primeiras notícias que temos de um período preparatório para a festa do Natal procedem da Hispania e das Gálias, tratando-se, antes, de preparação ascética que litúrgica. Inicialmente, tendo uma duração de três semanas, estava, sem dúvida, ligada à preparação do batismo administrado na Epifania. A partir de 380, o Concílio de Saragoça prescrevia que os fiéis fossem assíduos à Igreja de 17 de dezembro até à Epifania[1]. Ascese, orações, assembleias mais frequentadas: estas são as primeiras características do tempo de preparação para o Natal. Tal disciplina foi notificada na Gália, ao longo do séc. V. Lá, Perpétuo de Tour († 490) institui um jejum de três dias por semana, indo da festa de S. Martinho até o Natal[2].

O Advento Romano aparece somente na segunda metade do século VI, com os sacramentários e lecionários que nos transmitiram seus formulários litúrgicos. “Importante acentuar que em Roma o Advento foi, desde a sua origem, uma instituição litúrgica, enquanto que em outros lugares estava mais revestido de cunho ascético, como ponto de partida e nas normas de sua evolução”[3]. Os formulários das seis, depois das quatro semanas para o Natal[4], tiveram alguma dificuldade para encontrar seu lugar no ciclo anual. No Sacramentário gelasiano antigo as Orationis de Adventu Domini se encontram após o comum dos santos, no final do livro segundo intitulado De nataliciis sanctorum[5]. Da mesma forma, é no final do santoral que o sacramentário gregoriano dá as Orationes de Adventu e o Lecionário de Alcuíno coloca as perícopes dos domingos ante natale Domini. Será necessário esperar os graduais e antifonários dos séculos VIII e IX para encontrar as missas do Advento no começo do ciclo. A Constituição litúrgica do Concílio Vaticano II parece convidar-nos a fazer do Advento o termo do ciclo dominical, quando declara que a Igreja “revela todo o Mistério de Cristo, desde a Encarnação e Natividade, até a Ascenção, o dia de Pentecostes e a expectação da feliz esperança e vinda do Senhor” (SC 102).

  • O sentido do Advento Romano

O estudo dos formulários da missa e do ofício permite que captemos o sentido preciso que os papas dos séculos VI e VII quiseram dar ao tempo do Advento. Primeiramente, segundo a concepção primitiva das Gálias, o Advento é tempo de preparação para a solenidade do Adventus Domini: para que estes sacramentos nos preparem para as festas que se aproximam[6]. Uma vez que a festa do Natal não cessou de crescer em importância durante a Alta Idade Média, o Advento se apresenta também como um tempo de espera: na alegre espera da Natividade, orienta os cristãos para a volta gloriosa do Senhor no fim do mundo. O melhor símbolo do Advento vivido nesta perspectiva é, talvez a “Etimasia”, o trono vazio do Pantocrator, representado muitas vezes em mosaicos de Roma e de Ravena[7]. O antigo vocábulo pagão adventus[8] passa a ser entendido em seu sentido bíblico e escatológico de Parousia. A espera cristã encontra expressão espontânea nos textos proféticos inspirados pela espera do Messias: Isaías e João Batista, em Roma, são as duas grandes vozes da liturgia do Advento.

A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II quis, intencionalmente, conservar ambos os caracteres de preparação para o Natal e de espera da segunda vinda de Cristo.

Os dois prefácios mais antigos do Advento exprimem bem as características desses dois momentos: “Revestido da nossa fragilidade, Ele veio a primeira vez para realizar seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da Salvação. Revestido de sua glória, ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens prometidos que hoje, vigilantes, esperamos”; e, no segundo momento, mais próximo da Natividade: “Predito por todos os profetas, esperado com amor de mãe pela Virgem Maria, Jesus foi anunciado e mostrado presente no mundo por São João Batista. O próprio Senhor nos dá a alegria de entrarmos agora no Mistério do Seu Natal, para que sua chegada nos encontre vigilantes na oração e celebrando os seus louvores”.

  • A preparação para o Natal no Oriente

“Nenhuma liturgia oriental organizou um ciclo do Advento comparável ao que surgiu na liturgia Romana, isto é, que tome a espera messiânica em toda a sua amplitude e ao mesmo tempo em sua determinação[9]”. No Oriente somente se pode falar em preparação para a festa do Natal no sentido em que se entendia na Gália no séc. V. No entanto, dois ritos dão particular destaque a esta preparação: o rito bizantino e o rito sírio.

Da liturgia bizantina retenhamos, de modo especial, a comemoração, no domingo anterior ao natal, de “todos os Pais que no decorrer dos tempos foram agradáveis a Deus, desde Adão até José, esposo da Santíssima Mãe de Deus”. Todos os santos da Antiga Aliança são convidados a “participarem da dança para a Natividade do Salvador”.

O rito sírio chama as semanas que precedem o Natal de Semanas das Anunciações, evocando sucessivamente a anunciação a Zacarias, a anunciação a Maria, seguida da Visitação, o nascimento de João Batista e o anúncio a José[10].

  1. A Celebração do Advento (cf. a estrutura litúrgica no Missal de Paulo VI)

As quatro semanas do Advento comportam duas etapas: a primeira vai do primeiro domingo até ao dia 16 e dezembro, a segunda de 17 a 24 de dezembro. Constando de quatro domingos (na liturgia ambrosiana consta de seis) este tempo litúrgico, conserva sua unidade, o que podemos constatar pelos textos litúrgicos e principalmente pela leitura quase cotidiana do profeta Isaías.  No primeiro período, do primeiro Domingo do Advento até 16 de dezembro, dá-se maior evidência ao aspecto escatológico, procurando-se orientar as almas para a espera da vinda gloriosa de Cristo. O segundo período, do dia 17 de dezembro ao dia 24, tanto na missa quanto na liturgia das horas, todos os textos orientam-se mais diretamente à preparação do Natal. Cada dia do Advento, no Missal, apresenta uma coleta própria, tomada de antigos sacramentários[11].

A Liturgia das Horas oferece, com suas antífonas próprias, um conjunto de textos patrísticos que constitui uma primorosa introdução à espiritualidade do Advento.

  • A Celebração da Eucaristia

Na celebração eucarística do tempo do Advento convém chamar a atenção, em primeiro lugar, para a maneira como se organizaram as leituras dominicais.

  1. As leituras dominicais – A primeira leitura leva a tomar contato, ao longo dos três anos, com as principais profecias messiânicas: os oráculos de Isaías, uma de Jeremias e os acréscimos que receberam no tempo do exílio, isto é, os textos de Baruc e Sofonias. Tradição antiquíssima e universal escolheu para o Advento, de modo especial, a leitura do Profeta Isaías, porque nele, mais do que noutros profetas, se encontra um eco da grande esperança que confortou o povo eleito durante os séculos duros e decisivos da sua história. As páginas mais significativas do livro de Isaías são proclamadas durante o Advento porque constituem um anúncio de esperança perene para os homens de todos os tempos.

Assim é que, dentre todas as passagens deste tempo, destacamos a primeira leitura do primeiro Domingo deste ano, ciclo B, a qual apresenta uma queixa coletiva e perpassada de esperança, nascida da lembrança dos benefícios do Senhor ao Seu povo, queixa esta na qual se reconhece que a triste situação do povo e o justo castigo dos pecados, ao mesmo tempo em que se admite a impossibilidade de voltar a Deus se o Próprio Deus não tomar a iniciativa de voltar-se para o Seu povo; daí, portanto, a comovente e confiante súplica: “Senhor, tu és nosso Pai, nosso redentor; eterno é o teu nome! Como nos deixaste andar longe de teus caminhos e endureceste nossos corações para não termos o teu temor? Por amor de teus servos, das tribos de tua herança, volta atrás!” (Is 63, 17); no segundo Domingo, o trecho de Is 40, 1-11 é o anúncio festivo do retorno já próximo do povo da Babilônia para Jerusalém, explosão de alegria pelos motivos ligados à libertação, tais como o perdão completo dos pecados e do restabelecimento da amizade entre o povo e Deus, o qual volta como Pastor de Seu rebanho: “Consolai o meu povo, consolai-o! – diz vosso Deus – Falai ao coração de Jerusalém… sua servidão acabou e expiadas foram suas culpas! Preparai no deserto o caminho do Senhor… nivelem-se os vales, rebaixem-se os montes e colinas: então a Glória do Senhor se manifestará!”; já no terceiro domingo, o profeta descreve sua missão como anunciador de uma mensagem de paz e libertação para os infelizes e como portador da misericórdia do Senhor e, portanto, de sua vingança contra os opressores: “O Espírito do Senhor repousa sobre mim… Ele me ungiu… enviou-me a dar a Boa Nova aos pobres, curar as feridas da alma, pregar a redenção aos cativos e a liberdade aos presos… e proclamar o tempo da graça do Senhor!” (Is 61, 1-2a).

De todas as profecias, as mais importantes são lidas no quarto domingo, anunciando que uma virgem ou mulher dará à luz um descendente de Davi que será o Emanuel, Deus-conosco (Isaías, Natã, Miquéias).

Os evangelhos invocam a cada ano o mesmo tema. O primeiro domingo é o da espera da vinda do Senhor. “Vigiai!”, diz Jesus. No segundo e terceiro domingos do Advento, encontramos a presença de João Batista. O quarto domingo nos traz o anúncio feito a José (ciclo A), o anúncio feito a Maria (B) e a Visitação (C).

A leitura apostólica mostra como as profecias se realizaram em Jesus. Anunciam, por sua vez, a vinda do Senhor, dia de salvação para todos os povos e dia de alegria para os que o tiverem esperado com amor.

A partir do dia 17, o evangelho segundo Mateus nos apresenta o “Livro das origens de Jesus Cristo, Filho de Davi, Filho de Abraão” (1,1), de cuja descendência nasceu “José, esposo de Maria de quem nasceu Jesus, a quem chamam o Cristo” (1, 16), e no dia seguinte, 18, inicia o relato da continuação dessa origem, através do anúncio do anjo a José que, tendo se apercebido da gravidez de Maria, e “sendo um homem justo e não querendo difamá-la publicamente”, nos diz o texto, decidiu repudiá-la secretamente.

 

  1. As orações – Nas orações se interpenetram os dois temas da celebração da vinda do Senhor na carne e de seu retorno na glória: “Senhor nosso Deus, dai-nos esperar solícitos a vinda do Cristo, vosso Filho. Que ele, ao chegar, nos encontre vigilantes na oração e proclamando o seu louvor”, diz a coleta da I Segunda-feira do Advento. Ao longo da última semana, evoca-se, frequentes vezes, a Virgem Maria: “Ó Deus, que revelastes ao mundo o esplendor da vossa glória pelo parto virginal de Maria”, diz a coleta de 19 de dezembro. No quarto domingo, o domingo das anunciações (evangelho), a oração sobre as oferendas pede que “o mesmo Espírito Santo que trouxe a vida ao seio de Maria, santifique estas oferendas colocadas sobre o vosso altar”.

Neste tempo litúrgico, portanto, emergem três figuras bíblicas, características do Advento: o profeta Isaías, João Batista e Maria. João Batista é o último dos profetas e resume na sua pessoa e na sua palavra toda a história anterior no momento em que desemboca no seu cumprimento. Encarna bem, portanto, o espírito do Advento, sendo o sinal da intervenção de Deus em favor do seu povo; como precursor do Messias, tem a missão de “preparar os caminhos do Senhor” (cf. Is 40, 3), sendo a “voz que clama no deserto, abri um caminho para o Senhor, na estepe, aplainai uma vereda para o nosso Deus” (cf. Jo 1, 23); de oferecer a Israel o “conhecimento da Salvação”, cf. o evangelista Lucas anuncia no primeiro capítulo de seu Evangelho (1, 77-78), pela boca do inspirado Zacarias; e, sobretudo, de apontar Cristo já presente no meio do seu povo: “‘Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! Dele é que eu disse: depois de mim vem um homem que passou adiante de mim, porque existia antes de mim’” (Jo 1, 30).

O Advento, enfim, é o tempo litúrgico em que se dá destaque, de maneira feliz à cooperação de Maria no mistério da Redenção. Isso acontece como que ‘de dentro para fora’, interiormente, na celebração e não por superposição ou por acréscimo devocionista. Sendo este tempo litúrgico essencialmente celebração do mistério da vinda do Senhor, é o mistério ao qual se acha particularmente ligada a cooperação de Maria. Assim, pois, anuncia-nos uma vez mais o evangelista Lucas, no IV Domingo, que “o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Este era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria” (Lc 1, 26s); Maria é, pois, a “Cheia de Graça”, pois, conforme as palavras do Anjo, “o Senhor está com ela” (id., 28). Nada devendo temer, ela encontrara graça diante de Deus, pois por sua aceitação da “Palavra do Senhor” (v. 38), mediada pelo Anjo Gabriel, deverá conceber e dar à luz um filho, ao qual chamará Jesus, o qual “será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu Pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o Seu Reino não terá fim” (Lc 1, 31-33). Abrindo-se, pois, ao “Espírito e ao poder do Altíssimo que a cobrirá com sua sombra”, conceberá aquele que “será chamado Santo, Filho de Deus” (cf. Lc 1, 35).

A Solenidade da Imaculada Conceição, celebrada no princípio do Advento (a 8 de dezembro), não significa parênteses ou ruptura da unidade deste tempo litúrgico, mas é parte do Mistério. Maria Imaculada é o protótipo da humanidade redimida, o fruto mais excelso da vinda redentora de Cristo. Nela, como canta o prefácio da solenidade, Deus nos deu “as primícias da Igreja, esposa de Cristo sem ruga e sem mancha, resplandecente de beleza”.

  • A Liturgia das Horas

Na leitura bíblica Isaías ocupa lugar preponderante, tanto com os terríveis oráculos da primeira parte do seu Livro (1-39), como com o Livro da Consolação de Israel (40-55), mas também com as cenas idílicas do Trito-Isaías (cap. 56-66), da escola “isaíana”, continuadores do Segundo Livro.

Quanto às leituras patrísticas, embora o Oriente não conheça o Advento, usam-se abundantemente textos dos Padres gregos para o Ofício de Vigílias (ou das Leituras). Os Ocidentais, no entanto, é que dão sua contribuição principal, de S. Cipriano a S. João da Cruz, passando pela Imitação de Cristo. São encontrados, como era de se esperar, os textos clássicos, como o paralelismo entre Eva e Maria, de S. Irineu, e o comentário a respeito do Missus est (O Enviado)de S. Bernardo.

No que se refere às antífonas, devem ser colocadas em primeira linha as “Magníficas Antífonas do Ó”, as quais acompanham o Magníficat, de 17 a 23 de dezembro,. Estas antífonas, que a Igreja romana já cantava no tempo de Carlos Magno[12] apresentam uma síntese do mais puro messianismo do Antigo Testamento. Mais ainda, através de imagens antigas da Sagrada Escritura, enumeram os títulos divinos do Verbo Encarnado e seu Veni (Vinde!) é portador de toda a esperança atual da Igreja. Certamente nelas, a Igreja atinge sua plenitude.

 

  1. A Teologia do Advento

O tempo do Advento possui seu conteúdo teológico bem rico; com efeito, ele considera todo o mistério da vinda do Senhor na história até a sua conclusão. Os diversos aspectos do mistério servem de recordação recíproca e se fundem em admirável unidade.

O Advento lembra, a antes de tudo, a ‘dimensão histórico-sacramental’ da Salvação. O Deus do Advento é o Deus da História, o Deus que veio plenamente para a Salvação do homem em Jesus de Nazaré, em quem se revela a face do Pai, pois “Quem me vê, vê o Pai” (cf. Jo 14, 9). A dimensão histórica da revelação recorda a concretude da salvação plena do homem, de todos os homens; daí o nexo intrínseco entre a evangelização e a promoção humana, pois o anúncio da Boa Nova é essencialmente a revelação do imenso Amor do Pai pelos homens, aos quais Cristo veio ser solidário e revelar-lhes esse mesmo Amor que, desde o batismo, é derramado em seus corações pelo Espírito Santo a eles doado (cf. Rm 5, 5). E, ainda, o critério de julgamento pelo qual todos serão julgados não é outro senão: “Tudo o que fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 40).

O Advento é, ainda, o tempo litúrgico em que se evidencia fortemente a ‘dimensão escatológica’ do mistério cristão. Deus nos reservou para a salvação: “não nos destinou Deus para a ira”, nos diz a I Carta de S. Paulo aos Tessalonicenses, “mas sim para alcançarmos a Salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós” (5,9-10a), mas trata-se de uma herança que se revelará apenas no fim dos tempos; neste sentido, S. Pedro, na primeira carta a ele atribuída exclama: “Bendito seja Deus Pai… que nos gerou de novo… para a esperança viva, para a herança incorruptível… reservada para vós, os que, mediante a fé, fostes guardados pelo poder de Deus para a salvação prestes a revelar-se no tempo do fim” (1, 3-5). A história é o lugar da realização das promessas de Deus e está voltada para o dia do Senhor: “É Ele também que vos fortalecerá até o fim, para que sejais irrepreensíveis no Dia de Nosso Senhor Jesus Cristo” (I Cor 1,8). Cristo veio na nossa carne, manifestou-se e revelou-se como Ressuscitado, depois da morte, aos apóstolos e às testemunhas previamente escolhidas por Deus (cf. At 10, 40-42) e aparecerá glorioso no fim dos tempos, conforme nos revela o livro dos Atos dos Apóstolos (1,11): “Este Jesus, que foi arrebatado dentre vós para o céu, assim virá, do mesmo modo como vistes partir para o céu”. A Igreja, na sua peregrinação terrena, vive continuamente a tensão do da salvação toda realizada em Cristo e o ainda não da sua realização em nós – “Somos salvos na esperança” (Rm 8,24) – e da sua plena manifestação na volta gloriosa do Senhor juiz e salvador.

O Advento, enfim, ao mesmo tempo que nos revela as verdadeiras, profundas e misteriosas dimensões da vinda de Deus, recorda também o compromisso missionário da Igreja e de todo cristão para o advento do reino de Deus. A missão da Igreja em face do anúncio do evangelho a todas as nações é essencialmente baseada no mistério da vinda de Cristo, Verbo de Deus, enviado pelo Pai, na força do Espírito. Este Espírito é o Ruah, Sopro de Deus que tudo criou, deu a Vida a Adão, falou pelos profetas, fecundou o seio da Virgem Maria, ungiu Jesus em seu Batismo e o impeliu ao seu ministério de salvação; foi derramado sobre a Igreja nascente em Pentecostes e é derramado nos corações de cada homem batizado (cf. Rm 5,5). Com efeito, a Igreja é missionária por Natureza, pois não há ninguém que, uma vez experimentado o Amor do Pai, em Jesus Cristo, em sua vida, não tenha o desejo de comunicar tal Boa Nova aos demais homens, próximos ou longínquos, na medida em que sua vocação e estado de vida o permitam.

  1. A espiritualidade do Advento

A comunidade cristã, com a liturgia do Advento é chamada a viver algumas atitudes essenciais à expressão evangélica da vida: a espera vigilante e jubilosa, a esperança, a conversão. A atitude da espera caracteriza a Igreja e o cristão porque o Deus da revelação é o Deus da promessa que em Cristo manifestou toda a sua fidelidade ao homem: são Paulo vai nos dizer, na II Cor (1,20), que “Todas as promessas de Deus encontram nele – Cristo – o seu sim: por isto, é por ele que dizemos ‘Amém!’ a Deus, para a Sua glória”. Durante o Advento a Igreja não repete a parte dos judeus que esperavam o Messias prometido, mas vive a espera de Israel em níveis de realidade e manifestação definitivas desta realidade, que é o próprio Cristo. Na espera do Reino que vem, o cristão já o inicia, primeiramente em seu coração – “o reino está no meio [dentro] de vós!” – nos diz Lucas (17,21), e depois no meio onde vive, anunciando a morte e ressurreição do Senhor na celebração Eucarística, até que ele venha. No entanto, agora vemos “como que num espelho” – como nos diz a I Cor 13,12) – mas virá o dia em que “veremos face a face”. A Igreja vive esta espera na vigilância e na alegria. Por isso reza, com o autor do Livro da Revelação: “Maranatha!: Vem, Senhor Jesus” (Ap 22,17-20).

O Advento, por conseguinte, celebra o “Deus da esperança, que cumula o cristão de toda alegria e paz em sua fé, a fim de que pela ação do Espírito Santo, sua esperança seja transbordante” – como nos diz a Carta aos Romanos (15,13), e vive esta alegre esperança, “pois nossa salvação é objeto de esperança; e ver o que se espera, não é esperar… mas se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos” (id. 8,24-25). O canto que caracteriza o Advento, desde o primeiro domingo, é o do Sl 24, no Intróito: “A vós, meu Deus, elevo a minha alma: confio em vós! Que eu não seja envergonhado! Não se riam de mim meu inimigos, pois não será desiludido quem em vós espera” (v.1-3).

Deus que entra na história põe em causa o homem, questiona-o. A vinda de Deus em Cristo requer contínua conversão: a novidade do evangelho é luz que exige despertar pronto e decidido do sono; assim, nos exorta S. Paulo na carta aos Romanos: “Tanto mais que sabeis em que tempo vivemos: já chegou a hora de acordar, pois nossa salvação está mais próxima agora do que quando abraçamos a fé. A noite avançou e o dia se aproxima. Portanto, deixemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz. Como de dia, andemos decentemente; não em orgias e bebedeiras, nem em devassidão e libertinagem, nem em rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne” (Rm 13,11-14). O tempo do Advento, sobretudo através da pregação de João Batista, é convite à conversão para preparar os caminhos do Senhor e acolher o Senhor que vem. O Advento, enfim, educa para viver a atitude dos ‘pobres de Javé’, mansos, humildes, disponíveis, e que Jesus proclamou bem-aventurados (Mt 5,3-12).

São Bernardo, em uma das lições de Vigílias do Tempo do Advento, (Sermo 5 in Adventu Domini, 1-3: Opera Omnia – 4ª-feira da I Semana) nos diz que há “uma tríplice vinda do Senhor” e que entre a primeira, na qual “o Senhor apareceu e conviveu com os homens” e a última, na qual “todo homem verá a salvação de Deus” (Lc 3,6), e “olharão para aquele que transpassaram” (12,10), há uma intermediária, na qual o Senhor vem espiritualmente e manifesta o poder de Sua Graça. Esta é “como um caminho que conduz da primeira à última” e, tendo sido na primeira, nossa Redenção e, na última, aparecendo como nossa Vida, na intermediária deve ser nosso repouso e consolação”, desde que esperemos vigilantes sua vinda futura, já acolhendo-o no Presente de nossas vidas, “guardando sua Palavra” para que  Ele e o Pai venham a nós fazer Sua morada (cf. Jo 14,23). E esta Palavra, nos diz o Doutor Melífluo, “deve ser guardada no coração, porque os que assim o fazem são felizes, e deve ser guardada de modo que entre no mais íntimo da alma e penetre todos os sentimentos e costumes”; assim a nossa alma será alimentada e se deleitará na fartura, “comendo o Pão para que nosso coração não desfaleça”  e esta Palavra nos guarde; virá, então a nós “o Grande Profeta que renovará Jerusalém e fará novas todas as coisas”, pois “graças a esta vinda, ‘como já refletimos a imagem do homem terrestre, assim também refletiremos a imagem do homem celeste’ [cf. I Cor 15,49]”. Assim, é preciso que, desde agora, “Cristo seja o Senhor do homem todo, porque Ele o criou, redimiu e glorificará”.

Por isso tudo é que na Celebração Eucarística do primeiro domingo, a oração da coleta, suplica “o ardente desejo de possuir o reino celeste” o qual deve já ser iniciado “acorrendo com nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem” a fim de que “sejamos reunidos à Sua direita na comunidade dos justos”. No segundo domingo, esta súplica continua invocando a misericórdia do Deus todo-poderoso, para que, diante dos inúmeros percalços que o cristão pode encontrar em seu caminho, “nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do Vosso Filho” que vem, “mas instruídos pela vossa sabedoria” – que nos ensina a esperar na alegria e na perseverança e já a construir aqui o seu reino – possamos “participar da plenitude da sua vida”. No terceiro domingo, por sua vez, tendo recebido do “Deus de bondade” a graça de “esperar fervorosamente o Natal do Senhor”, a Igreja suplica “chegarmos às alegrias da Salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene liturgia”. Finalizando este ciclo dominical, por fim, no IV Domingo do advento, tendo o cristão “conhecido pela mensagem do Anjo a Encarnação do Filho de Deus”, Encarnação esta que O tornou em tudo semelhante a nós, exceto no pecado, a Igreja suplica na oração da coleta que “cheguemos, por Sua Paixão e Cruz à glória da Ressurreição”, ou seja, que pela paciente participação nos sofrimentos de Cristo, completemos em nossa existência, assim como o Apóstolos das Gentes, o que falta à paixão de Cristo em seu Corpo, a Igreja e, juntos, correspondendo à Graça de Deus em nossas vidas, conservando o rumo de nossa meta, “alcancemos todos nós a unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, o estado de Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4,13).

  1. A Pastoral do Advento

A Pastoral Adventícia, não ignorando que este período, na nossa sociedade industrial, tecnológica e consumista, coincide com o lançamento comercial da ‘operação Natal’, justamente por isso, deve comprometer-se a transmitir os valores e as atitudes que estejam de acordo com a visão escatológica transcendental da vida.

Com sua mensagem de espera e de esperança diante da vinda do Senhor, o tempo do Advento deve formar comunidades cristãs e crentes individualmente que se proponham como sinais alternativos para uma sociedade em que as áreas do desespero parecem mais vastas do que as da fome e do subdesenvolvimento. A autêntica tomada de consciência, a verdadeira conscientização, da dimensão escatológica transcendente da vida cristã não deve diminuir, porém, aumentar e fortalecer o compromisso com a redenção da história e a preparação, através do serviço aos homens prestado aqui na terra, considerando-a a matéria para o Reino dos Céus.

Na verdade, Cristo, com a força de Seu Espírito, age e opera no coração dos homens, não só para suscitar o desejo do mundo futuro, como também para inspirar, purificar e fortalecer o compromisso com a finalidade de tornar mais humana a vida terrena (cf. GS 38). Lembremos que, para o cristão, “o céu começa já aqui” e, tendo recebido e servido o Cristo em cada irmão que se nos aproxima, já estaremos antecipando a vida bem-aventurada que há de vir, bem como instaurando eficazmente em meio aos homens o Reino que Cristo desejou e pelo qual, suplicando, deu não apenas  Sua Vida, mas também Sua Morte e Ressurreição, esta como primícia da plenitude dos Dons do Pai aos homens.

Se a pastoral for guiada e iluminada por estas perspectivas teológicas profundas e estimulantes, encontrará na Liturgia do tempo do Advento – pois a liturgia é “a fonte de onde emana toda a força da Igreja e cume para o qual tende toda sua ação” (cf. SC 10) – o meio necessário e a ocasião propícia para enriquecer os cristãos, bem como alimentá-los com o Puro Pão da Palavra, construindo, assim, comunidades que saibam ser “a alma do mundo”, como nos diz a Carta à Diogneto, referindo-se aos fervorosos cristãos das origens.

[1] Cf. H. T. Bruns, Canones Apostolorum et conciliorum, 1839, pp.13-14.

[2] Cf. Gregório de Tours, Historia Francorum X, 1951, p. 529.

[3] Cf. J. Hild, L’avent, p. 25.

[4] Cf. A. Chavasse, Le Sacramentaire gélasien, p. 413-414.

[5] Cf. Sacramentário Gelasiano, ed. Mohlberg, n. 1120-1177.

[6] Cf. oração pós comunhão do III Domingo do Advento.

[7] Cf. M. Van Berghem e E. Clouzot, Mosaïque chrétiennes du IV au X siècle, 1924, p. 37-39.

[8] Adventus = A Vinda de um Governador a uma das pequenas províncias do Império Romano.

[9] Cf. I. H. Dalmais, Le temps de préparation à Noël dans liturgie syrienne et byzantine, 1959, p. 25-37.

[10] Ibid., p. 30

[11] Cf. A. Dumas, Les sources du Missel romain, 1971, p. 409.

[12] Cf. Amalário, Liber de ordine antiphonarii, em Opera litúrgica Omnia, 1950, p. 44-49.