Artigos, Homilias › 19/04/2017

Ação Litúrgica de 2017

Ação Litúrgica de 2017

 

Caríssimos Irmãos e Irmãs:

 

Temos insistido, desde a celebração do Domingo de Ramos e da Paixão, passando pela celebração da Ceia do Senhor, sobre uma realidade que me parece fundamental compreender e aceitar: assumir a disparidade na intensidade da vivência do amor entre Deus e nós e entre nós humanos.

Caros irmãos e irmãs, não se espera ser amado para amar e nem se mensura a intensidade do amor do próximo para amá-lo mais ou menos. Quem se dispõe a amar suporta, mesmo sofrendo, a pouca ou nenhuma correspondência de seu amor e nem tira vantagens da grande intensidade do amor de outrem quando deveras amado.

Hoje, Deus que assumiu a nossa carne para elevar-nos à sua condição divina morre por amor aos filhos de Adão.

Os Apóstolos, com efeito, não tinham entendido esse incompreensível amor. Por isso, fogem ou espreitam de longe decepcionados e com medo das consequências que poderiam advir-lhes.

Podemos e devemos nos perguntar: os discípulos amavam Jesus ou muito pouco? Amavam esse Mestre que lhes havia prometido a vida bem-aventurada na eternidade, transfigurado diante deles no Monte Tabor, ressuscitado a Lázaro e que vestira o avental de servo lavando os pés de todos dando-lhes um exemplo a ser seguido?

Que desigualdade, que disparidade entre o amor de Deus em Cristo e o povo que há tão pouco O havia aclamado Rei de Israel!

O povo, em geral, gostava desse Homem que falava com autoridade, que curava os enfermos, que realizava prodígios, que abençoava as crianças, que acolhia os pecadores públicos e que enfretara os chefes políticos e religiosos de Israel. Na cruz como um maldito o sentimento de admiração desaparecera. Poderiam amar esse Homem que terminava num fracasso, que não cumprira com a palavra de restaurar um novo Israel? O povo gostava de Jesus, mas não O amava!

       Entretanto, houve alguém que sempre O amou, qual coluna luminosa de fé, resistindo firme aos pés da cruz, sofrendo por ser, naquele momento, impotente para amar. Alguém que unira em seu peito todas as mais dramáticas lamentações que os Profetas de Israel haviam chorado, todavia, num grito silencioso de dor, não desprovido de fé e de esperança. Sabia, com certeza, a Virgem das Dores, que seu Filho não seria abandonado pelo Pai em seu infortúnio.

Quem verdadeiramente ama como Deus ama, na possibilidade extrema da condição humana, jamais abandona a pessoa amada, mesmo pagando alto preço pela humilhação da impotência, pelo escárnio dos insolentes, pelo cárcere da solidão, pela conspiração da indiferença e pelas acusações dos prepotentes.

A única forma para não correr tais riscos na vivência do amor é amar bem pouco ou quase nada, não passando de gestos delicados de boa educação. Assim, todo e qualquer desamor poderá ser sentido apenas como um pequeno incômodo superado por qualquer tola distração. Digo isso, porque não poderá haver um ser humano que não tenha experimentado o mínimo de amor e dado, mesmo que infimamente, amor a alguém; esse ser humano não sobreviveria.  Porém, quem reconhece sua dignidade de filho de Deus esforça-se para diminuir a disparidade na intensidade do amor entre si e Deus e entre seus irmãos.

O amor tem um preço: a cruz, conforme conselho do Senhor para segui-Lo e, igualmente, a alegria de se descobrir divino na condição do humano.

Deus nos ama independentemente de quanto o amamos; provou-nos com seu Filho pendente na cruz.

Felizmente, haverá sempre discípulos seus inundados pela luz do Espírito Santo, que prolongarão no tempo o amor a Deus e ao próximo semelhante ao amor da Virgem Santa, que se preparou para essa hora, a Hora de seu Filho. A jovem Maria desde seu “Fiat”, sustentada pela fé, pôs-se qual discípula fiel da Luz do mundo a quem dera à luz na companhia de seus segredos, ou melhor, dos segredos de Deus que os tomou para si; um verdadeiro heroísmo no martírio do amor.

A disparidade na intensidade da vivência do amor a Deus e ao próximo é uma realidade, contudo não estática. Somos chamados a sempre mais diminuí-la até sua exclusão, se firmes na fé, perseverantes na tribulação e assíduos na oração.

A Virgem das Dores, que se propôs a ser toda de Deus, nos ajude a amá-Lo sobre todas as coisas e ao próximo como o Cristo nos amou.

Deus nos abençoe a todos!