A Oração Contínua, por Ir. Daniel Sousa, OSB.

“Tenho os olhos sempre fitos no Senhor” (Sl 24, 15)

A lembrança constante da presença divina e da invocação do santo nome de Deus, impronunciável por causa do terrível poder a ele atribuído, remonta a mais alta antiguidade bíblica; no Antigo Testamento, diante dos principais momentos da história da Salvação (eleição, libertação do Egito, o caminho do deserto, a aliança, a conquista, o exílio) o povo de Israel ora. Entre aqueles de personalidade marcante destaca-se Moisés, a expressão mais clara de quem, após sua eleição como chefe e guia do povo, fez de sua vida uma oração.

A Verdade Plena está sempre suscitando formulações novas acerca do mistério insondável de Cristo, que podem exprimir-se em distintas formas de oração, tais como: súplicas, intercessões, ações de graças, louvores. A oração, em sua definição mais simples, é um simples olhar para o Senhor no silêncio e no amor. “É a elevação da mente a Deus para pedir-lhe coisas convenientes à Salvação”, diz Santo Tomás. É um impulso que nos lança nos braços de Deus em qualquer circunstância. São João Crisóstomo fala da oração “que não se resume a palavras. Ela é desejo de Deus, amor inexprimível que não vem dos homens, mas é efeito da graça divina”.

Termo similar à oração é a Memoria Dei – termo utilizado por São Basílio – recordação das palavras e dos acontecimentos da Economia da salvação. O cristão faz memória do Senhor, sobretudo, através da ruminação Palavra de Deus e da Celebração da Liturgia, seja na oração comunitária ou pessoal, seja na oração vocal ou interior.

A oração nos diversos acontecimentos de cada dia e de cada instante é um dos segredos revelados aos pequeninos, aos verdadeiros servos de Cristo, aos pobres de espírito, que nos fala a parábola das bem-aventuranças. É preciso orar para que se instale nesta marcha da história até o nosso “Grande Retorno” a vinda do Reino de justiça e de paz; porém, é de igual importância ser modelados pela oração ante as situações do cotidiano.

O temor é um elemento indispensável para aqueles que procuram experimentar profundamente as realidades espirituais; é uma porta aberta à intimidade com Aquele que é o cerne da vida espiritual-contemplativa. Não falamos do temor-terror, do receio, do medo, senão da observância dos preceitos, das obras de uma vida pura e do conhecimento da verdade. Felizes aqueles que, movidos pelo temor de Deus, andam pelo caminho que conduz à vida.

Dentro da Tradição monástica, fixou-se um modo específico de oração, aquele que parte do contato com a Escritura. Frequentar constantemente a Escritura foi um costume adotado pelos padres do deserto, em meados do século IV. Tomava-se uma sentença para atender as necessidades dos monges que não possuíam um manuscrito da Sagrada Escritura ou para ajudar os irmãos iletrados a cumprir uma indispensável oração diária.

Neste contexto de vida semi-eremítica, os monges do deserto aproveitavam de dois momentos para recolher palavras da Escritura. Primeiramente a sinaxe dominical (oração comunitária), momento privilegiado da semana de um monge do deserto, e também nas visitas mútuas, que aconteciam nas celas dos monges anciãos para ouvir suas conferências ou para tomar sentenças curtas. “Pai, dá-me uma palavra”, “Pai, que devo fazer?”, eram interrogações feitas à porta do ancião. Relatavam-se palavras que partiam de sua própria experiência com a lectio divina, e outras vezes versículos retirados literalmente da Bíblia. A eficácia deste costume estava em aplicar uma palavra que atenderia perfeitamente a necessidade do monge, naquele momento específico de sua caminhada na vida monástica. O discípulo que a recebesse com fé, a tornaria uma palavra de salvação. As respostas o acompanhariam durante a semana, enquanto estivesse em sua própria cela, dividindo o dia entre a ruminação da palavra recebida e com o trabalho manual ou realizando-os simultaneamente. Este costume de tomar um axioma bíblico fez surgir grande numero apoftegmas, ditos dos padres do deserto, frequentemente sob a forma de adágios curtos.

Dentre as palavras dadas, estavam duas sentenças que, com frequência, eram utilizadas pelos pais como sugestão de oração contínua, perpassaram séculos e chegaram até nós como método para ininterrupta oração.

“Ó Deus, vinde em meu auxílio; Senhor apresse-vos em socorrer-me” (Sl 69, 2).

Não é sem razão que este versículo foi particularmente escolhido, de todo o corpo das Escrituras, para ser uma fórmula de oração corrente. Nele se encontra o apelo a Deus em todos os perigos, uma humilde confissão, a vigilância de um temor diligente, a consideração da própria fragilidade, a confiança de ser atendido, a certeza de um socorro sempre presente. Enfim, abrange todos os sentimentos que podem ser atribuídos à natureza humana e adapta-se a qualquer situação, sobretudo nas tentações. A Igreja, notando o alento contido neste vocábulo, adotou-o do costumeiro monástico como versículo introdutório ao Ofício Divino, dispensando a todos aqueles que o rezam o socorro de Deus presente em todo o momento.

“Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim” (Mc 10, 47).

Trata-se do grito do cego de Jericó, Bartimeu, de modo análogo encontramos no relato do humilde publicano (Lc 18, 13). Jesus glorificado é o Ungido, o Senhor. Ao nome de Jesus, expressando sua glória, é inerente uma força salvífica, vivificante; “Deus soberanamente o elevou e lhe conferiu o nome que está acima de todo nome, a fim de que ao nome de Jesus todo joelho se dobre no céu na terra e debaixo da terra” (Fl 2, 9-11). Daí a propagação progressiva entre os monges, e depois, entre os cristãos, da oração de Jesus ou oração do coração. A repetição constante visa direcionar os pensamentos ao louvor perene, assim cumprir as palavras do apóstolo Paulo: “Orai sem cessar” (1 Ts 5, 17).

Este esforço por repetir continuamente um versículo da Escritura fez surgir no monaquismo oriental um cordão de oração, chamado tchotik (russo) ou kombológion (grego), também conhecido como komboskini. Este cordão auxilia a oração em sua repetição contínua, segundo um número de contas previamente determinado. Porém, reproduzir a frase não e um fim em si mesmo. Se a palavra estiver sendo devidamente meditada, esta deve suscitar uma oração particular; é uma verdadeira Lectio Divina. Quem rumina a Escritura pode adaptar a frase a uma situação do momento presente, ou atribuir a sentença na intenção de alguém, assim torna-se viva a palavra de Deus.

Outro meio para praticarmos a oração contínua é o contato com a criação, com o cosmos. Penetrar no louvor do universo é reconhecer na sua beleza o autor e princípio de onde foram feitas todas as coisas. Essa disposição animou grandes santos e deve dilatar-nos o coração em amplitude de amor para reconhecer a grandeza de Deus em todas as coisas.

A invocação do Senhor implica a certeza de sua presença e ação misericordiosa, pois tal confiança é-nos dita pelo profeta: “Ao invocar-me hei de ouvi-lo e atendê-lo e ao seu lado estarei em suas dores” (Sl 90, 15).

“Ao rezar, esteja atento ao que diz, isto é, unifique o seu espírito e una-o ao coração. Depois, quando o Senhor tiver aquecido o seu coração, mediante a graça do Espírito Santo, a sua oração fluirá sem interrupção. Quando o Espírito estabelece a sua morada no homem, este não pode mais parar de rezar, porque o Espírito não cessa de orar nele, daí por diante ele não concilia a oração por períodos de tempo determinado, mas em todo o tempo”. Certamente, para alcançar o dom da oração incessante é imprescindível perseverança durante anos a fio, até alcançar uma amorosa relação com o Senhor, que é, sem dúvida, almejada por todos nós. Que Deus alcance-nos a graça de orar incessantemente!